Duelo ao Sol

Duel in the Sun, 1946

Avaliação: 2.5 de 5.

O maior talento dos domínios da produção, David O. Selznick, percebeu que podia ganhar dinheiro transpondo a sordidez das intrigas criminais para o cenário western e em 1944 anunciou um projeto tão audacioso para os anos 40 quanto fora seu “E o Vento Levou…” para os anos 30. Tratava-se de “Duelo ao Sol”, uma historieta sombria, escrita por Niven Busch, sobre uma sensual mestiça que se debatia para renunciar aos passos da mãe, uma índia ninfomaníaca que fora assassinada pelo próprio marido. Para compor essa Carmen das estepes, Busch tinha em mente a esposa, Teresa Wright. Mas a atriz ficou grávida, e o projeto, não fosse por Selznick, teria voltado à gaveta. O produtor queria uma nova Vivien Leigh para o papel. Pensava em fazer um marketing semelhante ao que envolvera a busca da grande atriz britânica. Mas no caminho, ele esbarrou naquela que seria o grande amor de sua vida, Jennifer Jones.

A tímida Jennifer tinha outros predicados que disfarçavam o nepotismo do produtor ao escolhê-la como substituta de Teresa Wright. Jennifer era o mais novo produto do sistema de estrelas, que se consagrara com o Oscar pelo papel da pura e recatada camponesa de “A Canção de Bernadete”. Reformular a persona de Jennifer nas telas era estimulante e Selznick queria mostrar seu poder. A escalação de Gregory Peck para o papel do malicioso e inoportuno Lewt McCanles obedecia parâmetros semelhantes. O ator acabara de ganhar popularidade no papel de um padre em “As Chaves do Reino” e agora essa imagem íntegra seria quebrada. Era a época em que Olivia De Havilland virava mártir da classe desfazendo seu contrato e justificando o quanto era desagradável se submeter a mercantilização do espírito, mas para Gregory Peck e Jennifer Jones, “Duelo ao Sol” dava-lhes a oportunidade de afinar o instrumental de ator e libertava-os de vínculos estabelecidos.

            O roteirista Oliver H.P. Garret foi contratado para dar o fermento épico a pequena história de Niven Busch e King Vidor assumiu a direção pelos inestimáveis 20 anos de “amizade” com Selznick. Mais tarde, Vidor abandonaria o projeto pela mesma estima. O cinema de Vidor era porta-voz do homem comum americano. Já demonstrara com “A Turba”, “Aleluia” e “O Pão Nosso” seu entusiasmo pelo drama do cidadão anônimo tentando acompanhar os imprevistos do progresso e das transformações sociais. Em “Duelo ao Sol”, a história de como a bastarda Pearl Chavez (Jennifer) era introduzida ao mundo da aristocracia pelo tio, um barão do gado, e como convivia com isso, podia ganhar uma nova dimensão se colocada nas mãos de um cineasta como Vidor. O drama dessa elite, imersa num mundo de glórias e realizações ultrapassadas, que se recusa a aceitar a chegada do progresso (a ferrovia) era outra via com potencial para explorar. A ironia é que esse império seria desmantelado bem antes de um trem apitar na porteira da fazenda. A causa: o amor louco dos filhos do barão (Gregory Peck e Joseph Cotten), pela prima.

Selznick era inteligente, perspicaz e sensível para entender estes agravantes, mas sua intromissão nas filmagens foi desmedida. Seu objetivo não era apenas supervisionar a produção, ele queria pontuar a cena. Selznick tinha um prazer mórbido de mostrar sua autoridade diante da legião de técnicos, atores e figurantes, tragando o trabalho de Vidor. E Jennifer, era o objeto do desejo que ele fazia questão de manipular. O processo tirano e perverso, se sobressai.

O filme é cerimonioso e inflado pela busca de um significado. E embora tenha estimulado a libido das plateias nos anos 40, e também introduzido o sadismo, uma variação do prazer que só fora apresentado com tal densidade nos filmes mudos de Eric Von Stroheim, é um western cheio de impasses. O veículo perfeito de um produtor indeciso.