Dunkirk

Avaliação: 2 de 5.

Dunkirk, 2017

Christopher Nolan nasceu para o cinema no momento certo. Numa época de ansiedade, euforia e excessos. Não é a toa que ele é o diretor mais festejado pelo público e por uma grande parcela da crítica. Ele traduz a loucura da sobrevivência num cotidiano em que nossa readaptação à realidade não ocorre na mesma velocidade das mudanças. O cinema dele diz: “Caramba, estamos perdendo o trem bala!” O resto é perplexidade e muito blábláblá. Ufa, e como ele adora uma falação!
Mas isso faz de Nolan um dos maiores cineastas da atualidade?
Dunkirk, o filme que muita gente chama de obra-prima, é o mais novo “case” de sucesso do diretor. Exatamente como no mundo da publicidade, ele estabelece nos primeiros minutos o espaço, a atmosfera e o conceito de tempo: retoma um capítulo da Segunda Guerra, a evacuação de tropas aliadas da França e bifurca em três histórias com três tempos distintos. Temos lá: 

1 – A espera dos soldados por uma semana
2 – O resgate por barcos que durou um dia
3 – O embate dos aviões que aconteceu em uma hora. 

Claro que nada disso ocorreu em variáveis tão fixas, só que estamos no mundo de Nolan. Ele estabelece as regras, e preenche a planilha prometendo um espetáculo de cinema. 

Os minutos iniciais realmente surpreendem. Pra começar, aquela falação excessiva, os diálogos reiterativos de suas duas aventuras anteriores, Batman: O Cavaleiro Ressurge e Insterestelar saíram de cena. Perto desses dois, Dunkirk é quase um filme mudo. 

A primeira imagem na tela mostra o final de um movimento de rápido recuo pra trás de seis soldados como reflexo de uma bomba que explodiu mas que sequer vimos nem ouvimos o barulho. Assinala-se a ideia do susto, do tranco, e o consequente estado de alerta. Não sobra muito tempo para pensar. Como veremos a seguir: vacilou, piscou: morreu. Na sequência, o soldado raso Tommy (Fion Whitehead) chega à praia e procura um canto pra defecar. Aliás, ele abaixa a calça e faz as necessidades de pé. Está em estado de vigia, sempre. Um sujeito próximo enterra um cadáver na areia. Tommy se aproxima para ajudar, pensando que o soldado improvisa o funeral de alguém muito familiar e querido. Mas trata-se de outra coisa. O soldado roubou as botas do morto e está, na verdade, jogando terra sobre a vergonha do que a guerra está fazendo ele passar. Esse é o momento mais forte e humano de Dunkirk.

A ação transfere-se para a história – em velocidade mais rápida – do senhor inglês (Mark Rylance) que está trazendo seu barco para o resgate, e, em seguida, salta mais veloz ainda, para o entrecho do piloto de caças (Tom Hardy) em sua missão de ataque. São dez minutos impressionantes que mostram tudo o que Nolan tem para oferecer. Um belo curta de 10 minutos.

Tudo o que vem depois é repetição, com o agravante de que o espaço dado aos atores é cada vez mais comprimido. Nolan parece achar que dramas humanos são enrolação. Ele nunca deixa a emoção desenvolver-se por inteiro. Corta pra outra cena de ação. A logística de produção é o que lhe interessa. Para quem ama a orquestração das multidões e das máquinas é um prato cheio. E o making of do filme deve ser muito bom.

Elogiam muito também o realismo, a proeza de não usar efeitos digitais para criar figurantes e a busca por vivenciar o calor e o desespero visceral de um conflito, enfim, questões que soam muito boas para vender algo que verdadeiramente não tem nada de autêntico. Videogames igualmente possibilitam esse tipo de imersão. 

Uma receita para um grande filme de guerra não existe. Os maiores só para citar alguns, como Sem Novidade no FrontGlória Feita de SangueVá e VejaApocalipse Now, possuem pouco em comum, não foram feitos por diretores que vivenciaram uma guerra, como aconteceu com Samuel Fuller e William Wellman, autores dos seminais Capacete de Aço e Também Somos Seres Humanos, mas tanto num caso como no outro, esses cineastas desceram da grua e se embrenharam na pesquisa com o elenco para encontrar um milhão de inquietações humanas que refletem uma Guerra. Nolan parte da ideia de que a humanidade é violenta e bárbara, mas entre anônimos você encontra heróis. De fato, é fácil dizer que a humanidade é estúpida. Mesmo sendo um raciocínio generalizado, uma coisa é dizê-lo com doçura e inclusão, outra é olhar do alto, falar de fora. Distante. E é exatamente do alto que Nolan fala.

Retomando filmes anteriores, o espectador pode não gostar de A Origem ou de Interestelar, mas ali o diretor tinha algo mais a dizer (ainda que sempre com o defeito da redundância). Dunkirk atém-se à introdução. Depois de 10 minutos não tem o que acrescentar. Destacam-se apenas o episódio do náufrago (Cillian Murphy) que não quer voltar para a Guerra, e a cena em que um grupo de sobreviventes acuados no porão de um barco encalhado, lutam para não serem alvejados pelas balas de um inimigo que está lá fora, e ninguém se atreve a sair para ver sua face.

Nolan também nunca foi um grande encenador. Pensando os filmes dele, no papel, pode até ser estimulante – é certo que ele tem aquela mania de não deixar subtexto, precisa sempre explicar – mas, convenhamos, o sujeito tem engenho. Agora quando se põe a filmar é uma lástima.

Na entrevista de divulgação de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, ele teve a manha de abrir o jogo sobre sua opção pelo formato IMAX. Disse que a resolução do suporte era tão grande que ele não precisava mais perder tempo em filmar os detalhes. Captava em plano geral e quando precisava de algo particular em cena, sabia que o editor podia dar um zoom eletrônico sem perdas de resolução. Hitchcock, Kubrick, e outros diretores de verdade, jamais pensariam assim.

Claro, ele não é supervalorizado como diretor apenas por isso. Basta recapitular as cenas mais memoráveis de A Origem, ou do melhor dele, O Cavaleiro das Trevas, para perceber como ele se apoia na direção de arte, na edição e na trilha sonora. Retire-se os três de cena e Nolan vira um engenheiro de obras.

Sua vantagem é a inteligência, ele tem consciência de seus limites. Tanto que sobrevaloriza a participação dos três setores. Em Dunkirk chega a exceder a confiança que deposita em Hans Zimmer. A trilha-relojinho que o compositor criou para pontuar a narrativa gera um certo interesse por cinco minutos, depois a insistência segue a mesma filosofia de redundância. “Se não temos mais o que dizer, fácil, façamos como no Bolero de Ravel: aumenta os instrumentos e caminha num crescendo até a apoteose que o povo gosta”!

Em A Origem, podíamos contar pelo menos com o prazer lúdico de ver o diretor alinhando as peças no tabuleiro e fazendo tudo amolecer e derreter como num quadro de Dali, em O Cavaleiro das Trevas havia Heath Ledger para trombar pelos cenários e zombar com a mania de rigoroso controle de Nolan. Em Dunkirk temos o que? 
Nada que transcenda o mero jogo de peões.

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