Evil Dead: A Morte do Demônio

Avaliação: 4 de 5.

Evil Dead, 1981

Pode parecer um banal slasher movie– um grupo de cinco universitários  passam um fim de semana numa cabana isolada, no meio de lugar nenhum, e encontram no porão uma força maligna aprisionada. Resumido numa frase, é simples assim. Mas a forma como o então novato Sam Raimi deixa gradativamente o horror preencher a tela, como se fosse uma névoa caindo quase imperceptível, é aterradora. Em essência, o clima de horror acontece graças a maestria da encenação, aos inusitados sobrevôos da câmera pela floresta, ao inteligente uso dos ruídos e também dos silêncios. Plano a plano, respiração a respiração, Raimi vai encurralando o espectador.

Descrevendo assim pode soar como um martírio. A proeza de Raimi, contudo, é estranhamente divertida, ele compõe as situações mais violentas e absurdas, mas em cada reviravolta desarma o  pavor sempre com arremate irônico. Não há maldade no jogo manipulativo que ele propõe. O segredo confessado da arte de Raimi é que ele sempre foi um garoto de 10 anos e não há ninguém que se divirta a pregar sustos como um menino de 10 anos. Alguma grosseria, ausência de complicações, uma vontade de experimentar que finge ser desajeitada, e tudo isso encarado com um imenso sentido brincalhão.

O grupo que ele coloca para passear neste metafórico trem fantasma é formado por Ashley (Bruce Campbell), sua namorada Linda (Betsy Baker) e a irmã Cheryl (Ellen Sandweiss), além do casal Scott (Hal Delrich) e Shelly (Sarah York). Eles se hospedam numa velha cabana abandonada e encontram no porão um estranho livro acompanhado de um gravador com uma fita, material pertencente a um arqueólogo que trabalhava em misteriosas escavações nas Ruínas de Kandar. Os jovens abelhudos resolvem ouvir a fita, que reproduz a narração do arqueólogo falando de suas descobertas e explicando que involuntariamente invocou entidades demoníacas que tinham o poder de se apossar dos vivos. E adverte para os incautos: A única forma de livrar o corpo do espírito maligno será através do esquartejamento.

Acidentalmente, a fita recita um encantamento diabólico. O tom solene faz o quinteto cair na gargalhada.

Mal sabem que a molecagem e o pouco caso, tornam os cinco em vítimas perfeitas.

É um filme seminal, um brilhante repositório de numerosas tradições e variações de subgêneros, dos “trash-movies” à “sexploitation” da fábrica Roger Corman, dos “giallos” de Dario Argento aos slashers de Tobbe Hopper e Wes Craven, sem esquecer os planos sequências de câmera subjetiva simulando o assassino de Halloween, de John Carpenter.

A visão subjetiva que a câmera de Raimi adota é de um mal indefinido, por isso talvez mais perturbador. E a tal criatura sobrevoa a floresta com a segurança de que ninguém a conseguirá deter.

O diretor diabolicamente parece estar do lado da criatura. Dá para sentir seu prazer em desfazer o castelo de areia dos personagens. Ele arrebenta uma porta, destrói um quarto, explode a cabana. E faz isso com efeitos especiais precários, mas inventivos. Raimi usa a favor as limitações para se autoparodiar (noção que ele irá ampliar nos filmes seguintes da trilogia). É, por exemplo, o que se pode constatar na clássica cena em que a jovem Cheryl (Ellen Sandweiss) é violada por um bosque vivo – uma mistura explosiva entre humor e erotismo.

Depois, há Bruce Campbell, cujo personagem Ash traz uma inocência desajeitada a cena que lembra Jerry Lewis. Aqui os trejeitos de paspalho ainda são um pouco comedidos, algo que ele irá soltar pra valer no segundo filme da série. 

São várias as sequências de destaque como a cena perturbadora em que Ashley faz picadinho dos amigos com uma moto serra, um entrecho extremamente pavoroso, seguida por um momento patético, quando chega a vez da namorada. Picar a amada é algo que qualquer um se exime, mesmo que seja para terminar o namoro, mas Ash é um romântico sentimental e recua. Assim  o demônio que possui a bela aproveita da impotência de Ash para fazer dele um saco de pancadas. Ou ainda quando a mesma garota rodeia a casa, gritando com uma voz gutural aos amigos: Por que vocês perturbaram nosso sono? Por que nos despertaram de nossa duradoura inatividade? Vocês morrerão por isso!  Essa sequência já é clássica e define bem a carnificina. Após muito sangue, gosmas coaguladas, vísceras expostas, líquidos putrefatos, carne destroçada, ossos partidos, desmembramentos e cabeças decepadas, a noite infernal termina e o início da manhã reserva um desfecho digno para o herói Ashley, permitindo várias interpretações e certamente fugindo do convencional clichê de final feliz.  

A Morte do Demônio não tem aquele cerimonial solene  que exaure. Raimi dá de ombros pro formalismo pomposo. Com uma câmera, é capaz de tudo. Sobe pelas paredes, pendurando-se no lustre e, se duvidarem, é capaz de comer o cenário. O que talvez explique por que esse seu primeiro filme chegou tão depressa ao coração do povo.

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