Galante e Sanguinário

3:10 to Yuma, 1957

Avaliação: 4.5 de 5.

Delmer Daves é o mais esquecido dos diretores norte-americanos defendidos pelos críticos de cinema franceses nos anos 50 — por quê? As razões têm pouco a ver com sua verdadeira estatura como cineasta. Daves teve o azar de terminar sua carreira com uma série de melodramas que pareciam muito carente de ambição, como “O Candelabro Italiano” e “Os Nove Irmãos” (embora ambos sejam visualmente bastante notáveis). Algumas de seus maiores filmes são westerns, um gênero que caiu de volta em descrédito. E para piorar as coisas, ele nunca ligou muito para a imprensa (deu poucos entrevistas em sua carreira). Como resultado, seus melhores filmes raramente são exibidos, e quase nenhum deles está disponível em streaming.

Tais falhas, no entanto, são pálidas em comparação com a impressionante originalidade do estilo de Daves em filmes como o noir “Prisioneiro do Passado” (The Dark Passage, 1947) e “Galante e Sanguinário” (3:10 to Yuma, 1957).

O que impressiona o espectador no cinema de Daves é o manuseio de estrutura dramática, a abordagem de gênero diferenciada, à natureza, expressa em tomadas que intimamente misturam lirismo e realismo. Essa textura exuberante se evidencia com vigor neste que talvez seja o maior western do cineasta. O filme é um interessante estudo sobre contrastes, duas cores medindo forças. Funde a paisagem negra dos policiais com o branco do deserto na fotografia e concilia a inocência do camponês com a malícia do bandido numa cidade sem lei. Deus e o diabo na Terra do Sol. O desajeitado Dan Evans (Van Heflin) não conta com a ajuda de ninguém para prender o famoso Ben Wade (Glenn Ford) e receber o dinheiro da recompensa para pagar umas dívidas. Há uma mulher em cena, claro e, ela é Felicia Farr. Graças à presença desta bela garota Wade se distrai e acaba capturado. Estamos frente a uma motivação diferente aqui. A prisão do bandido foi motivada por sua própria culpa ou por causa da mulher?

Geralmente alguém é oferecido como empecilho para o fracasso da aventura humana nos filmes americanos, e é muito freqüente mulheres dificultarem as coisas no cinema noir ou nos westerns. Mas em “Galante e Sanguinário”, o homem é feito de boneco manipulado pela própria terra. Não há nada que o orgulhe de viver naquele ambiente duro, de solo seco, rachado, e onde os animais tombam por falta de água e comida. Como manter uma família num inferno assim? É pelo princípio do dinheiro que Evans insiste tanto em manter o criminoso sob controle até a chegada do trem para Yuma. Wade julga o rancheiro um bronco, e em vez de usar a força para fugir, acha mais interessante usar sua perspicácia para corromper o guardião. Provoca o caipira e o manipula de todas as formas. Não conta, entretanto, com as reações inesperadas do outro. Por trás da ignorância de Evans, há uma pureza tão cristalina, que Wade não consegue destruir. Ele perde a parada, e o que enxerga no outro é a revelação de um caráter que acredita que a humanidade perdeu.

Howard Hawks, o mais individualista dos diretores, detestou “Galante e Sanguinário”, desafiando tudo o que torna o filme forte e original, e interpretando mal o enredo: “O xerife pega um prisioneiro, e o prisioneiro o insulta, dizendo: “Espere até meus amigos alcançarem você.” E eu disse; Isso é um monte de bobagem, o xerife diria: ‘É melhor esperar que seus amigos não te alcancem, porque você será o primeiro homem a morrer.’

Acontece que Van Heflin, não era um xerife no filme, não era um “profissional” acostumado a matar, mas um fazendeiro forçado pelas circunstâncias econômicas a aceitar o trabalho de reter o fora-da-lei. Assim, tudo o que torna o personagem tão comovente, tão original para o seu tempo, tão perto de nós, suas hesitações, seus medos, sua relutância em usar a violência, todos justificam sua decisão.

No caminho para a prisão ou talvez para a forca, Wade demonstra um respeito quase religioso pelo outro. Compreende que não se pode avançar em qualquer direção sem uma fé e aquele simples homem lhe mostrou algo sobre isso. Há muito tempo não chovia naquelas paragens e a água começa a cair. A garota que ele tentava seduzir aparece para lhe devolver um sorriso. Esse lance inesperado é uma dádiva para um bandido calculista como o Ben Wade de Glenn Ford. O pistoleiro prazerosamente olha para o céu e deixa a chuva bater em seu rosto.