Gangues de Nova York

Avaliação: 4.5 de 5.

(Gangs of New York, 2002)

Na galeria de vilões que Martin Scorsese criou para o cinema, o Billy, o Açougueiro criado por Daniel Day Lewis, merece mais que uma cadeira cativa. O cara é tão fanático pelo movimento nativista americano, que pede para esculpir a figura de uma águia americana em seu olho de vidro. Em nome do progresso, Billy também quer limpar Nova York da escória de imigrantes que não pára de chegar em seu país.

Assisti esse ambicioso “Gangues de Nova York” numa boa e velha cópia em DVD nos últimos dias e é notável como o filme cresce a cada revisão. Lembro-me quando passou no cinema de como cada crítico parecia ter uma restrição a fazer sobre a caótica mistura de gírias, estilos, cores, músicas e violência que Scorsese alinhavava, às vezes tudo no mesmo plano.

Era um espetáculo confuso, contraditório, barulhento, arrebatado, megalomaníaco e era perfeitamente natural deduzir que Scorsese tropeçava em meio a toda essa fiação.

Não é essa a impressão que Gangues me passa agora.

A bela Nova York, imponente em sua arquitetura dominada por arranha-céus e pelo glamour de seus museus e teatros, a menos de duzentos anos parecia um imenso cortiço, povoado por imigrantes de toda estirpe, que viviam em cavernas e se pintavam como índios antes de decidirem a faca quem era o chefe do gueto. Com Gangues de Nova York, Martin Scorsese recria esse mundo em efervescência, com o apuro de um arqueólogo.

As primeiras imagens, aliás, parecem tiradas de um documentário do Discovery sobre as tribos dos primatas. Temos um exército de farrapos convocados pelo chamado de guerra de um tambor, saindo de uma caverna iluminada por tochas para enfrentar na praça coberta de neve de Five Points, a gangue dos nativistas.

Na descrição do historiador Herbert Asbury (que escreveu um livro homônimo sobre o assunto em 1928) a praça de Five Points era o ponto nevrálgico da violência, porque ela arquitetonicamente forçava os integrantes dos principais guetos da cidade se esbarrar todo dia. Asbury recorre a uma imagem para definir essa praça. Parecia uma chaleira apitando.

Scorsese considera Gangues o trabalho mais complicado de sua carreira. O filme resgata o esforço do diretor em particular, e de uma equipe de mais de 500 colaboradores para erguer esse monumento no famoso estúdio italiano da Cinecittá.

Desde que pensou em rodar este épico extravagante há 30 anos, muita coisa aconteceu para o diretor. De talento promissor (ele estava filmando Taxi Driver, o filme que o consagraria em Hollywood e no circuito dos festivais) ele passou a condição de principal cronista da violência urbana americana (com obras magistrais como “O Touro Indomável”, “Os Bons Companheiros” e “Cabo do Medo”), para depois investir em filmes de cunho religiosos (“A Última Tentação de Cristo”, “Kundun”). Tudo isso está reunido neste Gangues.

Não é apenas uma visão cinematográfica de um duelo no coração de Manhattan, entre duas quadrilhas de imigrantes; o filme é um vasto painel sobre as mudanças que se operaram numa cidade com pouco mais de 60 mil habitantes e que saltou para 800 mil em menos de uma década, virando um caldeirão de culturas, onde a intolerância nem sempre conseguiu ser contida. Neste momento, o leitor pode até achar que estamos falando do presente e não de 1846, mas pode ter certeza, essa ponte foi planejada para permitir o diálogo.

“A América está nascendo nas ruas”, diz o slogan promocional do filme e a mão que embala esse berço é a de William Cutting (Daniel Day-Lewis), um assassino cruel também conhecido como Billy, o Açougueiro, usado pela alta sociedade novaiorquina para liderar a facção do movimento dos Nativistas, cuja intenção é acabar com a imigração irlandesa. Mas o religioso Vallon (Liam Neeson), líder da gangue irlandesa, a Dead Rabbits (Coelhos Mortos), não se intimida.

Os arruaceiros se encontram em Five Points, e Billy com sua exíminia habilidade com armas cortantes, retalha o inimigo e o abandona sangrando na neve. O filho de Vallon, Amsterdam (Cian McCormack), testemunha a morte do pai e promete a revanche.

Seis anos mais tarde, Amsterdam (agora interpretado por Leonardo DiCaprio) se infiltra na gangue do Açougueiro, e seu propósito de vingança vai sendo retorcido pela lógica da corrupção. Não leva muito tempo para o jovem se afeiçoar ao chefão, e este retribuir a atenção com um carinho paternal.

O respeito e a ternura que se estabelece entre os dois homens adia o plano de vingança de Amsterdam. Uma ponta de discórdia vai ameaçar essa “amizade” por conta da batedora de carteiras Jenny Everdeane (Cameron Diaz), mulher impiedosa na forma com esquenta os corações masculinos. Há algo profundamente consolador na visão madura de Scorsese, e o consolo vem de uma profunda fé no poder do acaso. Seus bandidos se definem e tocam uns aos outros, por sua experiência nas sarjetas, por uma orientação bruta e por uma série de leis, que antes de tudo servem a sobrevivência. Mas esse estatuto se revela mutável e, ironicamente, isso define o destino do jovem americano e do velho.

Scorsese coloca lenha na fogueira deste triângulo clássico e a explosão que se segue traduz as contradições da história americana, patriótica e pomposa, trágica e pouco redutível.