Garota Exemplar (2014)

Avaliação: 4.5 de 5.

David Fincher se encontra mais uma vez no terreno que mais gosta, o da perversão. Seu Garota Exemplar trata do casamento, mas não apenas dos jogos de aparência promovidos pela instituição. A investigação é mais profunda. O livro da autora Gillian Flynn volta lá atrás, na essência da criação bíblica do homem, ou melhor, do casal humano. De acordo com o Antigo Testamento, ao criar o homem, Deus sentiu-se insatisfeito, porque não encontrava em todos os seres criados nenhuma espécie que se completasse.

Então, disse a Adão que arrumaria o companheiro adequado. Retirou “um pedaço” do homem e fez a mulher. No sentido religioso, isso revela que a mulher foi criada da mesma essência e da mesma natureza do homem. Sendo assim, Eva seria a alma gêmea de Adão. Essa dedução de natureza romântica, permeia o imaginário nostalgico: todo mundo, em algum momento, acha que talvez, em algum lugar, exista sua metade perdida.

Com um sorriso de gárgula, a autora brinca com essa ideia. Desenvolve um suspense em que revela um profundo ceticismo sobre a natureza do amor: será que amar é sentir falta da metade que perdemos e tentamos recuperar?

Gillian parece bem inclinada em se aprofundar no desencanto amoroso. Isso é o que se conclui nas páginas do livro, na tela o que se configura é algo mais sarcástico. O malvado Fincher mostra que a criação desses dois seres pode ser a prova simbólica de um erro de cálculo, no caso um erro divino.

Inicialmente, ele nos bombardeia com imagens da felicidade matrimonial, com a ideia de que Nick Dunne (Ben Affleck) e Amy (Rosamund Pike) encontraram seu encaixe. Nick e Amy parecem as duas faces da mesma moeda: perfeição plástica, semelhanças de gostos e, excetuando a diferença sexual, ambos se encaram e dialogam com o espelho, igualmente fascinados por seu amor recíproco. Contudo, passam-se os anos e algo gradativamente muda. E então os dois passam a cada vez conversar menos e a beber mais, substituindo uma embriaguez pela outra. Até que no dia do aniversário de 7 anos de casamento, Amy desaparece. A polícia local investiga o caso, que em três dias passa a ser visto como um possível sequestro,e na sequência se configura como uma investigação de assassinato.

Fincher faz uma dissecação épica do caso. Mostra como a imagem gera margem para interpretações equivocadas. E neste jogo, os meios de comunicação com suas mil lentes entram no meio da festa, bancam os inoportunos, e o mais grave: ninguém consegue expulsá-los. Talvez o que torne Nick, o marido, uma pessoa que passa de vítima a alguém odiado seja o fato de que a mídia mais bisbilhoteira acostumou as pessoas a verem uma vítima, como uma pessoa em lágrimas, exibindo sua fragilidade e seu drama, e ali está Nick nas telas da TV, dos iPads, das redes sociais, estóico, objetivo e abertamente impaciente com as intermináveis perguntas estúpidas.

De vez em quando, Affleck sugere as fortes emoções que Nick esconde em público, e nos sentimos ligados a ele, mas é claro que Fincher não nos deixa tomar partido. A perspectiva do caso é lapidada  como se fosse um diamante. Há muitos ângulos a observar e o mais inusitado deles acontece quando se revela que Amy, a esposa, sordidamente armou o próprio desaparecimento. Ela está viva e acompanhando cada lance da cobertura especulativa. E é aqui que as sujeiras do casal vão sendo colocadas para fora do armário. Nick sempre foi um sujeito dispersivo, idealizou a mulher, mas o casamento o fez ver como Amy era controladora.

Para escapar do pulso, arrumou uma amante 15 anos mais jovem que Amy. Ela, por sua vez, também o idealizou, queria que Nick fosse mais pé no chão, queria ter filhos, tinha planos de um futuro, ao qual só se deu conta que ele não compartilhava tarde demais.

O filme é uma sátira sobre as idealizações dentro de uma relação. Nick acha que dá para viver das aparências e esse é o único ponto no qual o casal se apega. Acontece que ele se conforma a representar o teatro de um jeito, mas a mulher dá uma sacolejada no tabuleiro e vai impor novos papéis neste teatro.

Uma dupla de investigadores (Kim Dickens e Patrick Fugit) usa a ciência forense para desfazer o mistério do desaparecimento. Em vez de contribuirem no caso, só alimentam mais equívocos, e os jornais, sites e a TV acham que estão a um passo de matar a charada, mas nenhum dos detetives parece entender realmente como a verdade pode ser mais abrangente.

O desencanto de Fincher com a natureza humana é total. E ele segue até o final sem fazer concessões. O que se desenrola é o avesso de todos os sonhos kitschs que Hollywood legitimou em 100 anos de cinema. Garota Exemplar derruba todos os românticos do voo como se fosse uma caçada aos patos. Mostra que o amor, em vez de frutificar, apodrece como um arranjo de frutas. Lindo e tenro no primeiro dia, fétido e cheio de larvas depois de algumas semanas.

Mortes se sucedem e o imenso burburinho da imprensa levanta uma nuvem de fumaça, que mais confunde do que chega perto da verdade daquele casal, mas, quando a poeira baixa, há uma bela cena em que vemos Nick e Amy no alto da casa. Do topo de uma escada, eles se preparam para descer, enquanto embaixo toda a comunidade, inclusive fotógrafos e jornalistas, estão lá para registrar o recomeço de um relacionamento cheio de percalços, mas que enfim triunfa. É uma cena que Fincher toma emprestada de Crepúsculo dos Deuses. Se no filme de Billy Wilder, ela traduzia a demência da atriz que não conseguia mais enxergar a fronteira entre o que ela realmente era das personagens que viveu no cinema, em Garota Exemplar, na descida da escada, tanto a esposa como o marido têm muito bem noção do teatro que estão representando. Não há loucura no ato deles, não há amor. O que há, sim, é a conveniência. Calculada, esquadrinhada para que as duas partes vivam das aparências, e vivam bem.