Hacker

Avaliação: 3.5 de 5.

Blackhat, 2015

Michael Mann mergulha no universo volátil das redes de computação num filme que muita gente pode achar mais do mesmo. Atendo-se apenas ao roteiro, de fato, Hacker soa um tanto convencional. Mann, contudo, não é diretor que aceita a mera espiada. Seu trabalho de investigação e o foco de sua câmera sempre muito precisos apontam para um submundo complexo. 

No filme anterior, Inimigos Públicos, ele nos mostrou como Dillinger foi derrotado graças a um novo aparato de comunicação chamado telefone. Que ironia, o mais temível gângster tinha seus passos esquadrinhados por primitivas escutas. Agora em Hacker, ele mostra como o mundo se reaparelhou.

Com a popularização da web, a ideia de segurança e confiabilidade se transformou em obsessão e pesadelo. O mundo foi instrumentalizado de tal modo, que é improvável garantir quanto o cidadão está livre navegando na rede ou andando por ruas cada vez mais monitoradas por câmeras. Quem controla esse arsenal? A paranoia da possibilidade de vigilância estatal é apenas a ponta do iceberg. Um recente estudo da consultoria global Frost & Sullivan indica que o crescimento dos dispositivos conectados à internet multiplicou as probabilidades de ataques cibernéticos, porque os criminosos estão encontrando novas maneiras de interceptar esses dispositivos inteligentes. E não adianta senhas e segredos passarem por operações criptográficas complexas para assegurar a  blindagem. Ninguém, a nível macro (a megacorporação), ou a nível micro (o simples cidadão) está realmente protegido.

Mann reimagina uma trama de ficção em torno disso. A ficção, porém, é fundamentada em ataques de hackers reais, como o da Operação Shady Rat, que roubou informações de 72 alvos em 14 países, incluindo as Nações Unidas e a Operação Stuxnet, que foi criada (acredita-se, por Hackers norte-americanos) para atacar os sistemas de centrífugas de enriquecimento de urânio no Iraque.

Sinal dos tempos, gasta-se milhões para rastrear esse tipo de delito, mas nem sempre se encontra o paradeiro. Os criminosos não têm rosto e suas pegadas tornam-se rapidamente voláteis.

Logo na primeira cena de Hacker, temos o que parece ser mais uma visão de uma cidade noturna, do tipo que Mann nos acostumou em Fogo contra Fogo ou Colateral, mas conforme a câmera se aproxima, o que se revela é o mundo microscópico de uma placa de circuito integrado. Vemos pulsos de informações deslizando ao longo dos chips de silício, como carros brilhantes deslizando por avenidas escuras. De repente, um pacote de dados avança no circuito, serpenteando dentro de fios até encontra o seu alvo.

Placas acendem e o sistema vem à vida. O que realmente aconteceu parece pequeno, mas seu efeito é devastador. Causa uma explosão numa Usina Atômica em Hong Kong. O ato de ciberterrorismo mobiliza as autoridades chinesas, e o oficial da Inteligência Chen Dawai (o galã chinês Wang Leehom) é designado para rastrear os criminosos. Ele bem que tenta chegar a algo, mas as migalhas deixadas na rede como pista pelo inimigo desaparecem. A saída para Chen é pedir ajuda ao norte-americano Nick Hathaway (Chris Hermsworth), seu antigo colega de quarto no MIT, agora um hacker notório que está na prisão.

O encontro dos dois deixa as autoridades burocráticas dos dois países desconcertadas. Não porque haja alguma diferença entre os antigos amigos, mas por implicar também na união do Serviço de Inteligência Chinês com a CIA, cujos métodos de investigação seguem protocolos bem diferentes. Enquanto os agentes dos dois países se estranham, Hathaway, Daway e a irmã, a bela Chen Lien (Tang Wei), tentam seguir o coelho até a toca.

O filme se constrói sob uma teia de emaranhados visíveis e invisíveis. De visível, temos o monstruoso dragão de sete cabeças que é Hong Kong. Mann e seu diretor de fotografia, Stuart Dryburgh, mergulham no caldeirão cultural da cidade captando um retrato multifacetado – com suas torres crescentes e ruelas de neon desordenado – que tende para uma abstração quase cubista.

Cubista tal qual o instantâneo que Mann encontra das microrodovias do interior dos supercomputadores do filme. As pistas e atalhos labirínticos de um se assemelham ao outro. O crime é real, mas todo o resto, inclusive a ação do trio de hackers do bem, não dá em nada. Eles parecem impotentes e perdidos. Curiosamente, é notável como Mann, aos poucos, vai retirando  o herói Hathaway da frente da virtual máquina de enigmas. A resolução ocorrerá fora do ambiente refrigerado dos escritórios, no bafo da cidade esfumaçada. Hathaway corre pelas ruas, se envolve numa perseguição numa cerimônia folclórica, e a luta final com o inimigo é um corpo a corpo animalesco, com direito a briga de facas.

Imaginar um sujeito que acha que pode dominar o mundo com um teclado, enfrentando a lâmina fria de um punhal, parece um contrasenso. Mas Mann adora o inusitado e expõe toda a ironia desta era num duelo brutal.

Clique aqui pra você saber em que canais esse filme está disponível.

Versão expurgada pela Universal saiu um ano depois

Acima você leu sobre a versão que vimos de Hacker que foi exibida nos cinemas, só que existe uma outra. Michael Mann teve uma queda de braços com a Universal Pictures para fazer o filme que queria, e perdeu a luta. Mas um ano após o filme ser lançado e ter sido um fiasco, ele conseguiu voltar ao material para apresentar o que planejava.

Eu não vi essa versão ainda, mas relato o que li a respeito.

A estrutura do filme é bem diferente da versão do cinema. Em vez de começar com a explosão do reator nuclear, a versão do diretor inicia num clima de documentário.  Ele mostra papéis levitando ao vento sobre o chão da Chicago Mercantile Exchange. Depois entram um par de cenas novas, que explica como blackhats foram capazes de manipular o preço da soja no pregão, mudando a rota de cargueiros holandeses no Oceano. Não é de admirar que a Universal, se sentiu menos confiante sobre o filme: quem seria imediatamente seduzido pela perspectiva de ver um filme de suspense que começa essencialmente mostrando uma fraude no setor de commodities? Os ataques, em princípio, invisíveis ganham concretude depois de quase um terço de filme na cena do incidente na usina nuclear. Essa versão do diretor tem um tom documental, leva-se mais tempo para mostrar os trabalhos da CIA na investigação de hackers, as implicações são mais discutidas e desenvolvidas. A entrada em cena de Nick Hathaway é casual. Ele não tem o mesmo protagonismo da versão do cinema, Nick parece mais uma peça no jogo da investigação, que é dividido com o oficial da inteligência chinesa e com a agente Carol Barret (Viola Davis), a chefe da operação da CIA. Carol é bem mais presente nesta director’s cut , e o filme se amarra sobre a ideia de profissionalismo e aplicação da experiência em grupo.

Essa nova versão de Hacker foi exibida numa Retrospectiva de Michael Mann em fevereiro de 2016, em Nova York. A Universal Pictures não teve interesse em lançar a cópia, e infelizmente só podemos encontrar trechos dessa raridade em sites de download na web.