Homem Aranha 2

Avaliação: 5 de 5.

Spider Man 2, 2004

Depois da ginástica acrobática incrementada pela exibição de efeitos da primeira aventura, o Homem-Aranha rasga sua máscara para mostrar um rosto atormentado nesta sequência. É um filme sobre uma vida em desequilíbrio. Sobre um personagem tão ocupado em negar a sua vida pessoal que não amadurece. No fim do primeiro Homem-Aranha, ele tentava suportar o peso do mundo nas costas. Aqui ele descobre que não aguenta o fardo.

O diretor faz a imaginação circular como nunca sobre esse mote. Há um pacto de fidelidade de Raimi com os (anti-) heróis que filma, e esse pacto, que como todos os pactos têm potencialidades diabólicas, é intrínseco ao seu cinema. Mesmo nos tempos em que (re)criou praticamente um subgênero dentro do horror, o “comedic horror”, a mistura do grotesco com uma câmara investida de devaneios e improváveis pontos de vista , Raimi trouxe a tela uma coerência muito particular. Filmes como  A Morte do Demônio (1981), Uma Noite Alucinante 2 (1987) e  Darkman: Vingança sem Rosto (1990) de certo trabalhavam muitos estereótipos,  mas ofereciam igualmente uma rudeza, uma vontade de devolver ao cinema uma graça que a superexposição havia roubado. Sem sentimentalismos tolos. Mas a verve sátirica de Raimi tem lá sua ponta de romantismo.  Esse romantismo está arraigado em cada personagem que ele foca. Em Homem-Aranha 2, ele deixa que Peter Parker/ Tobey Maguire comande o filme, como amplificação de uma tortura interior, como um vírus que ocupa os sentidos e distorce os pontos de vista.

O vírus aqui se materializa como um duplo de Parker. Um duplo complexo, o o Doctor Octopus, ou o ator Alfred Molina com tentáculos brotando de suas costas. Ele serve com suas duas mãos e quatro garras mecânicas, a angústia existencial do super-herói. No primeiro filme, Parker era um adolescente em busca de uma história de amor (com Mary Jane/ Kirsten Dunst) que não se realizava. A chave disso ganhava lirismo naquela cena do beijo invertido. Um beijo de dois seres incompatíveis.

Só que agora nada parece ser tão simples. Ele continua a chegar ao encontro com seu grande amor atrasado, mas descobre também que não consegue fazer nada direito. Parker não pára em nenhum emprego, sempre perde as aulas na faculdade, e claro, seu padrão de vida é péssimo. E ainda se sente culpado por arruinar a vida do melhor amigo (James Franco) – que vive consumido pela morte do pai (o Duende Verde, que o Aranha matou) – e alimenta uma frustração pelo fato de não ter salvado o Tio Ben, morto por um assaltante.

Raimi mostra todas essas complicações com um certo humor. O arremate das situações são irônicas e quase sempre ótimas. Como na sequência em que o Homem-Aranha sente vertigem e se vê forçado a pegar um elevador para descer de um arranha-céu. Ele conversa com um desconhecido no elevador. “Que fantasia legal essa sua!”, comenta o rapaz. “É, ela coça um pouco”, responde Parker. “E também aperta aqui em baixo”. Num outro momento, ele aparece com um cesto de roupas de Homem-Aranha em uma lavanderia 24 horas.

As cambalhotas nos céus de Manhattan fazem menos figura de exibição neste segundo filme. Mas isso não significa que elas não sejam bem exploradas. Os efeitos são usados com mais consciência. A cidade agora é mostrada como um espaço de atordoamentos, um ambiente perigoso e escorregadio, cheio de sinais de real. A certa altura o Homem-Aranha cai de mau jeito e reclama da dor: “Minhas, costas, minhas costas”. Uma piada, aliás, que tem um quê particular  ( o ator Tobey Maguire quase ficou fora desta sequência, por conta de um machucado na coluna).

Os choques dos embates têm um peso diferente do primeiro filme. Parecem mais dolorosos. O cenário de ecos e miragens, que resgatava o ilusionismo de Méliès no primeiro filme, se diluiu. O Dr. Octopus arremessa as pessoas contra o trânsito para matá-las e o Aranha usa sua teia para suavizar o impacto. Para o vilão, ou melhor para as pequenas garras que se fundem a seu corpo – armas que têm sua própria inteligência sinistra e sussurram planos diabólicos em sua orelha – o ser humano não tem valor e merece ser jogado na sarjeta.

Ao final, rolam quase seis minutos de créditos. Para um tipo de filme assim, a logística da produção não traz nenhuma novidade. Mas é tão vasta, envolve tanto esforços, que torna-se admirável imaginar como Raimi conseguiu juntar um todo que parece tão caótico, num conjunto que resultou tão harmônico. Sem dúvida, eis aqui uma das melhores adaptações de HQs já feitas para o cinema.

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