Homem-Aranha 3

Avaliação: 3.5 de 5.

Spider Man 3 (2007)

Como o Doutor Octopus rasgou a máscara do herói com seus tentáculos, e tornou evidente para todos que o Homem-Aranha é um garoto comum, o mundo virou uma cordilheira de tensões complexa neste terceiro filme. Mas Sam Raimi teve uma tarefa mais complicada no fecho desta trilogia, que foi: como se impor e superar o que alcançou em Homem-Aranha 2?

Tudo ganhou um aspecto de perigo tão superlativo, que Raimi a certa altura pára o filme e insere um número de dança, algo que aliás ele rouba de O Professor Aloprado, de Jerry Lewis. Peter Parker dançando sobre o balcão de um bar e dando uma de maioral? É o modo inesperado que o diretor encontra de subverter a fórmula. De desobedecer as leis dos blockbusters, de tirar sarro do senso de proporção do empreendimento. No segundo Aranha, ele dosou muito bem a aventura com esses súbitos repentes de ironia.

Mas aqui a máquina ficou imensa, o número de vilões aumentou, agora são três, e o pior deles, é o que desperta de dentro do herói. Ao explicar esse mal numa entrevista a revista Première, Raimi parecia indeciso em dizer se era sobre o herói que estava falando ou sobre ele, como diretor. “Tinha todas aquelas parafernálias no set, e Peter Parker sabia que tinha que lidar com algo que era muito maior do que ele (…) E o que precisa aprender é que todos somos pecadores e que não é fácil decidir o que é certo do errado[1]“.

Enquanto Peter Parker teve que fazer a escolha no filme, atrás das câmeras Raimi também teve que decidir.

E no fim das contas, acabou cedendo a grandiloqüência, a efeitos que já não possuem aquela leveza dos filmes anteriores, a cena de ação com o Homem de Areia gigante é a mais exemplar neste sentido. Tem o gigantismo tolo e exibido do cinema catástrofe de Roland Emerich. E o elenco cumpre a função. Está ali apenas para ser esmagado.

Vamos a trama: Peter Parker passa a alimentar uma vontade de vingança, quando descobre que seu tio Ben (Cliff Robertson) não foi morto por um simples bandido, como se deduzia no primeiro filme da série. Na verdade, ele foi assassinado pelo grandalhão Flint Marko (Thomas Harden Church, de Sideways). O filme começa com Marko fugindo da prisão, enquanto Peter e Mary Jane se esticam numa teia montada sobre duas árvores no Central Park e olham para as estrelas. Acidentalmente, Marko entra num laboratório de fissão nuclear para se esconder da polícia e passa por uma experiência que o transforma em Homem-Areia.

Então começa a forçação de barra no roteiro. Tudo tem que estar bem amarrado. Tia May (Rosemary Harris) tenta controlar o ódio do sobrinho, quando este descobre a história de Marko, e Parker pensa em recomeçar a vida, levando um anel de noivado para Mary Jane. No caminho, contudo, ele e sua moto são arremessados para o alto por um vilão já conhecido pelo Aranha. É o Duende Verde, ou melhor, o filho de Norman Osborne e ex-amigo de Peter, que está ali para vingar a morte do pai. A sequência de ação aqui é interessante, com o Duende socando Peter (sem a roupa do herói) pelos prédios da cidade e este mais preocupado em não perder o anel, do que em revidar os golpes insanos do ex-amigo.

A tentativa de reaver algo precioso e que escapa a toda hora da mão está presente o tempo todo neste filme. O destino, por exemplo, conspira para separar Parker de Mary Jane, quando entra em cena a bela Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard). A loura exerce um estranho poder de sedução no Aranha, que leva Mary Jane a ter um chilique.

Mas não é esta a maior ameaça ao equilíbrio do herói aracnídeo. O grande inimigo do protagonista aqui é o Simbionte. O vilão é uma espécie de parasita de origem interplanetária. Ele se locomove pelos bueiros e encanamentos da cidade sob a forma de um líquido viscoso e negro e se incorpora a roupa de Peter Parker. A partir daí, o herói passa a se sentir mais forte e um certo narcisismo passa a tomar conta dele. Quando os cidadãos aplaudem o herói, ele quase explode de felicidade. As acrobacias com o uniforme de Aranha, que o Simbionte agora torna negra, também envaidece o rapaz.

É com ela que ele vai ter uma chance de revanche contra o Homem-Areia, já que no primeiro encontro ele se revela impotente em prendê-lo (o bandido escapa pelos vãos de seus dedos, como pó).

No fim do segundo Homem-Aranha, Parker tentava suportar o mundo nas costas. “Agora não agüenta o peso”, diz Raimi. Segue-se a lógica de O Médico e o Monstro proporcionada pelo ser interplanetário. O herói demora para se dar conta de que foi possuído. A certa altura, tenta se desvencilhar do uniforme negro, e se toca que ele está entranhado em sua pele. Por sorte, descobre que o Simbionte é vulnerável a ressonância sonoras. Então, vai até uma Igreja e tenta arrancar o mal de seu corpo conforme os sinos do campanário tocam. O que ele não sabe é que ao se libertar da criatura viscosa, por um destes acasos do destino, os respingos sobram para outra vítima. No caso, um desafeto de Parker, que incorpora o monstro. É assim que surge um novo super-vilão chamado Venom.

E então tudo converge para o embate dos embates. O encontro entre o Aranha com os três vilões no esqueleto da construção de um arranha céus. A escolha do ambiente é perspicaz. Raimi se despoja de qualquer aspecto pitoresco para conservar apenas a ossatura. Será uma briga de caráter primal? É o que se esboça. Mas conforme a ação discorre, o filme vai resvalando cada vez mais para os clichês. E enfim, um momento que foi planejado para ser climático, já não emociona, não faz os espectadores, vibrar como antes.

Raimi, o inquieto encenador em busca do melhor ângulo, da ênfase nos detalhes, nas minúcias, aqui demonstra a perda do prazer. Mantém a condução no piloto automático e termina nos lembrando que este, pelo menos para ele, Raimi, é o momento da retirada de cena desse jogo.

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[1]  Sam Raimi na Première Magazine. “Spider Man 2 – Inside the making of the movie” (jul./ago. 2004).