Inimigos Públicos

Avaliação: 4.5 de 5.

Public Enemies, 2009

Michael Mann tem uma compreensão assustadora de como as fronteiras que separam bandidos e policiais se embaralham, mais que isso, tem uma visão dos EUA como um lugar onde a violência é uma infecção geneticamente semeada na cultura pelas próprias instituições. E neste Inimigos Públicos ele insere essa idéia em uma viagem cinematográfica emocionante que testa a cumplicidade do público.
Quem são os inimigos públicos, quem são os grupos perniciosos para a sociedade?

John Dillinger (Johnny Depp) quase destrói uma cadeia no começo deste filme para salvar seus comparsas e as balas pulam da metralhadora como malabaristas no ar. Depois entra num banco atirando. É rápido, ágil, cirúrgico. Em um minuto e 40 segundos sua quadrilha foge com uma dúzia de sacos de dinheiro. E então o bandido se mistura em meio a multidão com uma risadinha perversa.

Esse é seu método de trabalho.

Então Mann corta a ação para mostrar a metodologia de outro cara, um policial (Christian Bale). Este persegue um gângster num campo de laranjas, como se estivesse caçando um coelho. Ele também é meticuloso, muito ágil e preciso. Alveja um bandido há trezentos metros, com um único tiro.

Mann faz o espectador balançar entre esses dois homens.  Óbvio que estamos diante de um filme de entretenimento, mas, mesmo num filme assim, nada é colocado por Mann de forma tão simples. Primeiro, porque à medida que a narrativa avança, o temor pelo bandido vira admiração e a simpatia pelo policial se desfaz.

Depois, há um aspecto político sendo maquinado. Querem arrumar um bode expiatório para a Depressão que assola o país nos anos 1930 e prender Dillinger se revela uma boa publicidade para o recém-criado FBI, e especialmente para a carreira política de Edgar Hoover (Billy Crudup).

Assim, para pegá-lo, vale tudo. Coação, espancamento, tortura. Não importa se for inocente ou se for mulher. E o pior é que a história é verídica.

A trajetória de John Dillinger foi meteórica, não durou mais que quatro anos. Ele ficou famoso entre os cinéfilos, sobretudo, porque foi morto numa cilada, quando saía de um cinema. Dillinger era um filho de fazendeiro desempregado que teve o azar de roubar uma enxada numa loja de ferragens e foi condenado a 10 anos de prisão. E é claro que a cadeia serviu de educação para o rapaz estabelecer as conexões com o crime. Quando fugiu de lá, já tinha uma quadrilha formada. Seu principal alvo eram os bancos, que ele roubava num espírito indignado e extravagante, que levava a multidão a idolatrá-lo (na era da Depressão o povo via os bancos como os grandes vilões do sistema).

E em Inimigos Públicos, Johnny Deep não só mantém a unidade da ação, como parece desafiar qualquer tipo de autoridade. Como proscrito, sequer  tem moradia fixa. Está sempre em movimento e se define como um homem solto no mundo para fazer o que bem entender. Há uma cena maravilhosa no filme em que a namorada (a francesinha Marion Cotillard) tenta chamá-lo para a Terra, dizendo que viver com ele é uma ilusão, porque ele só pensa no dia de hoje. Amanhã ela terá que voltar para seu emprego modesto na chapelaria e ele, o que vai fazer?.

Mesmo assim a mulher fica com esse sonhador. É pragmática no discurso, mas se entrega à montanha-russa emocional de viver com o bandido mesmo sabendo que talvez aquele seja seu futuro mesmo.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, o chefe do FBI Edgar Hoover (Billy Crudup) planeja sua ascensão com um oportunismo muito moderno. Ele contrata um agente publicitário para cuidar de sua imagem e promover seus atos como um espetáculo para a mídia. E elege as quadrilhas de Dillinger, de Bonnie & Clyde e de Ma Baker como os inimigos a combater. Enfim, é um homem munido de um aparato novo, um homem que gradativamente quer mudar a percepção do público sobre esses pequenos bandidos.

“É uma guerra que estamos vivendo”, diz ao agente Melvin Purvis (vivido por Christian Bale), “e qualquer prática é válida para liquidá-los”. Assim Purvis se vale da artilharia pesada do exército para armar seus agentes. Ganha também poder sobre as empresas de telefonia, para monitorar qualquer chamada feita na cidade de Chicago. E, óbvio, o desenvolvimento e execução de práticas de tortura, entram no mesmo pacote.

Nem a francesinha que teve a infelicidade de se apaixonar pelo personagem de Johnny Deep escapa do soco inglês.

Esse jogo de inversões proposto por Mann é fascinante. Bale, que acostumamos a ver como herói, aqui vai se tornando um peão armado cada vez mais frio e sinistro, e os federais marcham em nossa direção como uma fileira de robôs, todos parecidos e muito impessoais.

Não há alívio para o bandido inteligente, e nem para os que agem por instinto. Conforme os gângsteres vão tombando, uma estranha sensação de perda toma a cena. É diabólico como Mann manipula nossos sentimentos mais contraditórios e vai tornando a violência absurda. A cena da morte de Baby Face Nelson, por exemplo, parece coisa de desenho animado. Os policiais o fulminam, mas ele não cai. Continuam atirando e Baby Face se mantém miticamente vivo na tela. John Dillinger também não dá refresco, mesmo angustiado no final, seu personagem olha para nós com uma insolência de quem sabe que mesmo morto continuará aqui.

Inimigos Públicos não chega a renovar o gênero policial, como Mann conseguiu fazer duas vezes, com o thriller psicológico Caçador de Assassinos e depois como épico Fogo contra Fogo. Mas realizou um filme efervescente e alucinadamente provocante, que atesta uma verdade nua e crua sobre o banditismo moderno: com o fim de Dillinger, de Capone e de tantos outros, o crime deixou de ser coisa de peixe pequeno, e assim nasceram organizações criminosas tão frias e operacionais quanto o aparelho criado com orgulho por Edgar Hoover.

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