Joaquim Pedro – Obra Completa

Avaliação: 5 de 5.

Tá aí um cineasta brasileiro que soube como poucos fundir o erudito com o popular ao filmar a comédia humana tupiniquim e ganhar a admiração tanto dos críticos como do público. Joaquim Pedro de Andrade subia as favelas para sentir o Brasil do povo e lia Gilberto Freyre. Focava os olhos no drible de Garrincha e pensava no futebol espetáculo se amparando até nas letras de Nelson Rodrigues. E se era para conceber o escândalo de um padre fugindo com a moça, que lugar melhor para pensar nesses sentimentos que no famoso poema de Carlos Drummond?

A Videofilmes, na época do DVD, resgatava grandes cineastas como esse. Um visionário que não se intimidou em encher a piscina do Parque Laje de feijoada e sugerir que a cultura brasileira estava todo ali dentro. O box não apenas reunias seis longas e oito curtas que marcaram a carreira do autor de “Macunaíma” e “Guerra Conjugal”. A caixa expandia as possibilidades de leituras com documentários, making ofs e libretos de 24 páginas incluídos em cada um dos seis discos.

Joaquim Pedro parecia ter uma fome pelos excessos do povo brasileiro

Esqueça a feijoada macrobiótica a que o cinema brasileiro hoje parece sempre sujeito. Com Joaquim Pedro o negócio era carnívoro, cheio de sal e pimenta Carne de porco? Que nada, vamos mergulhar o povo no feijão do piscinão do Parque Laje e ver no que vai dar!

E deu. Deu uma das cenas mais saborosas do clássico “Macunaíma”.

O herói sem caráter de Mario de Andrade era Grande Otelo quando criança, virava Paulo José na adolescência, e podia ser mais: índio, mameluco, caboclo matreiro, mutreiro, preguiça. Para os desavisados que pensam que a personalidade de Macunaíma, revela certo descuido ao descrever a essência do povo brasileiro, segue um aviso: a Joaquim Pedro, de forma alguma, faltava cuidado quando o assunto era mapear elementos da identidade do Brasil. Ao contrário, da pesquisa Joaquim Pedro estabelecia conexões com a salada de frutas cultural e artística do país, bebendo tanto na fonte musical dos tropicalistas, com no teatro delirante de um José Celso Martinez Correa (O Rei da Vela), no cinema político de Glauber (especialmente de “Terra em Transe”) aos parangolês de Helio Oiticica.

Foi essa pesquisa que ocupou boa parte da atividade intelectual do autor. E, por meio dela, o diretor descobria uma certa urgência de “dar uma forma a esse monstro mole e indeciso” que é o Brasil.

E o engraçado é que nesta miscelânea do erudito com o popular, Joaquim Pedro, conseguia levar as massas à tela para ver o samba do crioulo doido.

A aventura lúdica, picante, obscena de “Macunaíma”, por exemplo, foi um grande sucesso de bilheteria. “Guerra Conjugal”, que adaptava as crônicas e as taras escondidas dos curitibanos segundo a pena ferina de Dalton Trevisan, também foi um belo êxito. Joaquim Pedro transformou a antologia de contos numa chanchada (ele não tinha preconceitos com gêneros) em que personagens perdidos, marginalizados e esmagados pelas regras sociais se esbarram, brigam e fazem ou tentam se empapuçar de sexo. A fome pelos excessos proporciona cenas marcantes, como aquela em que Carlos Gregório leva a imensa Wilza Carla para a cama, e a mulher se mistura à comida e satisfaz mais o homem que todas as outras donas.

Aliás, não era difícil os protagonistas dos filmes de Joaquim Pedro se confundirem entre o sexo e a comida. Foi assim que ele realizou uma de suas obras-primas, o curta “Vereda Tropical”, aquele em que Cláudio Cavalcanti transa com a melancia e depois explica as conveniências de amar as frutas a aluna Cristina Aché.

Por trás do desbunde artístico havia sempre uma conotação política forte e alegórica. Imagine em plena ditadura pôr o cabeludo José Wilker como Tiradentes gritando contra a ordem corrupta, e depois mostrar os militares se curvando a estátua do rebelde?

O Brasil dos contra-sensos está no cerne de toda a obra do cineasta, que até mesmo na hora de rodar um filme-elegia para Garrincha, não conseguiu mostrar o jogador como santo.

De Santos e demônios, todo brasileiro, filho de paulista, neto de pernambucano, bisneto de mineiro e tataraneto de baiano sempre teve um pouco.

O grande sonho de Joaquim Pedro, por sinal, era fechar esse caráter miscigenado, multicultural, abusado e carnavalesco da cultura brasileira adaptando “Casa Grande & Senzala” para o cinema. Não chegou as vias de fato. Mas penso que ninguém no cinema nacional agrupou uma coleção de imagens mais alucinadas, oníricas e bem humoradas, para entender o que somos, do que esse cineasta.

Enfim, essa caixa de Joaquim Pedro reaparece em momento oportuno, como testamento atual, atualíssimo em relação às questões mais prementes do debate que se realiza a respeito do papel da arte e do cinema nacional na contemporaneidade.

Pra quem se interessar por comprar o pack com a obra completa do Joaquim Pedro de Andrade, o preço tá altíssimo, mas convém clicar aqui pra ver como alguns menosprezam mas nosso cinema tem grande valor.

Já quem prefere apenas ver os filmes, achei na rede:

Macunaíma (numa cópia linda da Kino Classics) – Clique aqui.

Guerra Conjugal – Clique aqui.

O Padre e a Moça – Clique aqui.

Vereda Tropical – Clique aqui.

Agora se você quiser cópias em HD, só baixando pelo torrent. Não é tão difícil encontrar, mas aí deixo para o fã garimpar, e procurar os caminhos.