Johnny Guitar

Johnny Guitar (1954)

Avaliação: 5 de 5.

É um western, mas um western diferente. O protagonista é uma mulher-empresária interpretada intensamente por Joan Crawford. O nome é Vienna, e ela constrói um cassino no meio do nada para aguardar a chegada da ferrovia e do progresso que se anuncia para breve. A mulher e seu empreendimento são os símbolos da mudança dos tempos, e isso incomoda os cowboys. Os fazendeiros riem dela e o delegado se alia à brejeira Emma Small (Mercedes McCambridge) para conspirar por trás. Um jovem pistoleiro se oferece para proteger Vienna, mas ela afirma que não precisa de ninguém.

O rapaz se irrita com o tratamento maternal: “Você fala de mim como se eu fosse um menino”. Ela o conforta: “Todo homem tem o direito de ser menino”. Não será o primeiro nem o único a se pôr aos pés da mulher.

Vienna sabe que os cowboys não têm estrutura para enfrentar um revide feminino e é desta forma que exerce seu discreto charme.

O diretor Nicholas Ray tinha ideias muito próprias de como os westerns deviam funcionar e não tinha nada de ingênuo.

“Johnny Guitar” é um filme feito por pessoas que sabem como a corrupção funciona. É isto que o torna divertidamente sedutor. No contexto dos anos 50, a trama obviamente despertava uma tremenda tensão emocional nos envolvidos. Philip Yordan àquela altura tinha vários amigos roteiristas vítimas da Comissão Macartista, e o diretor Nicholas Ray, não estava de acordo com as subordinações que vigoravam dentro de Hollywood, reflexo de princípios políticos arquiconservadores. Ray sequer tinha a autonomia para levar o projeto adiante, já que Joan Crawford manifestava um interesse pessoal por transformar “Johnny Guitar” em mais um veículo para seu brilho e a direção da Republic Pictures, estava em busca de um projeto comercial que aliviasse sua saúde financeira urgente.

Seria muita pretensão burlar o jogo de interesses, mas a afinidade entre Ray e o roteirista Yordan era tamanha que aquilo não podia ser desperdiçado. Assim “Johnny Guitar” é quase um filme-manifesto. Não estamos mais na terra das donzelas que reclamam a atenção pela chantagem emocional, tampouco no terreno das mulheres que conquistam o mundo com o corpo. De um lado, Vienna se alia a um grupo de marginais. Do outro, Emma Small mobiliza a classe pecuarista. Como títeres tresloucadas, elas manipulam seus exércitos, até a distância favorecer o confronto face a face. “Você é pequena de mais Emma Small”, provoca Vienna num trocadilho matreiro.

A fúria cega a razão de Emma, por isso ela instiga o delegado John McIvers (por acaso, interpretado por Ward Bond, um dos dedos-duros mais temidos pela classe artística de então) a enforcar a rival. Vienna representa o alter-ego do artista aprisionado por severos sentimentos macartistas. É a mulher indomável, antes representada como caricatura pelo cinema hollywoodiano, que se revela multifacetada. Sua ousadia se projeta em Nicholas Ray e em quem mais possa se sentir sufocado por suas opiniões.

Vienna não mede esforços nem mesmo na hora de sacrificar o amor por Johnny Logan (Sterling Hayden) em troca do empreendimento. Disposto a recuperar a amante, ele contém sua sede de matador e aceita o emprego de seresteiro no cassino da amada. Vienna corresponde a paixão do limitado brutamontes, mas o adverte: “Quando um grande incêndio se apaga Johnny, o que resta são cinzas”.

Há toda uma carga de vivência nesta frase e nesta personagem, que nenhum  western, nem os mais ousados de Robert Altman, conseguiu igualar.

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