KILL BILL – VOLUME 2 (2003)

O segundo volume de Kill Bill parece um reflexo invertido do primeiro filme. A direita vira esquerda e a esquerda, direita. O que o primeiro Kill Bill extravasa em ação, esse a contém. Aqui Tarantino experimenta o drama psicológico, com implicações psicanalíticas.

Tarantino já havia brincado com a linguagem cinematográfica em Cães de Aluguel, em Pulp Fiction, mas a maneira como ele organiza a narrativa agora tem embasamento mais profundo. Lacan está na essência da realização de Kill Bill.
Lacan relacionou a psicanálise com a linguagem em textos formidáveis. Na base do debate, ele nunca deixava de falar do olhar, esse instrumento que nos permite capturar o sentido de tudo. Divertia-se em mostrar como o ego humano filtra nossa maneira de ver as coisas. Como condiciona as pessoas a olharem apenas o que querem no espelho.

Tarantino, o ex-funcionário de videolocadora que se transformou em diretor, compreende o quanto essa máquina diabólica chamada cinema começou servindo ao registro do real e depois foi se perdendo entre muitas veredas.
Lacan fala com carinho da verdade que um rosto humano expressa. Na opinião do teórico, quem melhor captou essa complexidade não foi uma câmera, mas o pincel de Picasso. Ele acreditava que o retrato mais fiel de um simples rosto seria aquele formado por milhares de imagens fraturadas e fortuitas como na tela cubista Mulher Chorando, do pintor espanhol.

Esse sentido obsessivo de captar a complexidade de uma face é mais precisamente o que Tarantino experimenta neste volume 2. O realizador começa com um close no rosto devastado e distorcido de sua musa. E então distende ao máximo os traços vagos de identidade que tínhamos no volume 1. Quem de fato é a Noiva? Nem o nome dela sabemos… Daí a sensação de frustração, de falta de unidade, que fica quando o primeiro filme acaba.

No volume 2 de Kill Bill, Uma Thurman passa de vingadora à mãe, troca sangue por lágrimas e a força da pancada pela força dos sentimentos. Este é o filme em que finalmente ela encontra Bill (David Carradine), o principal implicado no banho de sangue anterior. Trata-se de um vilão inesperado, de fala macia, que demonstra uma ternura quando olha para sua vítima. Ele dá conselhos à mulher, mesmo sabendo que ela está ali para matá-lo. Portanto, Bill não aparenta ser um assassino cruel como o imaginávamos.

Depois do plano geral do primeiro volume, Tarantino se aproxima da Noiva e de Bill. Fixa a câmera na respiração deles. Revolve camadas dos dois personagens, combina pequenos gestos do presente com detalhes do passado que tornam a vida de ambos cada vez mais imprevisível.

Sobre a Noiva, até então conhecíamos seu codinome, Black Mamba. Agora em flashbacks muito hábeis, descobrimos o nome verdadeiro da mulher e também detalhes sobre o dia em que ela resolveu dar uma guinada de 180 graus em sua vida de assassina.

Graças a uma manifestação de solidariedade feminina deslocada, como só Tarantino seria capaz de conceber – o resultado positivo de um teste de gravidez é comunicado à Noiva pela matadora profissional que a tem sobre a mira de sua arma num quarto de hotel. O instinto materno prega uma peça na natureza predadora das duas mulheres. Em vez do tiroteio, as mulheres abaixam as armas e se despedem cordialmente.

Esses insights do passado são entrecortados pela ação presente. Isso por que a Noiva tem mais três nomes para ticar de sua lista de vingança – primeiro Budd (Michael Madsen), depois Elle Driver (Daryl Hannah), e finalmente Bill (Carradine).

No primeiro filme, O’ Ren Ishii (Lucy Liu) e Vernita Green (Vivica A.Fox) foram pegas de surpresa. Mas esses três matadores já sabem que a Noiva saiu do coma e voltou para acabar com eles. Obviamente estão preparando armadilhas para surpreendê-la.

Assim o sentido e o estilo da ação muda. Há uma certa tensão antes das mortes que remete mais ao estilo contemplativo de Sergio Leone do que a dinâmica dos filmes de artes marciais do primeiro capítulo. Agora os golpes são econômicos e ninguém levanta para o segundo round. Outro aspecto importante: os inesperados momentos de contenção e intimismo que se adensam no surpreendente e emotivo desenlace, vem modulados pela força dos diálogos. Bill se curva para a loura em seu último encontro e a faz examinar o propósito da sua vingança. Pergunta para a mulher se ela percebe o quanto a sociedade moderna tornou-se presa da figura do herói. Então a desarma com um monólogo sobre o Super-Homem que delicia qualquer fã de comics digno desse nome.

Tarantino digere gêneros, sub-gêneros e sub-subs que profundamente mais o marcaram, mas não perde de vista seus personagens que no primeiro pareciam colhidos de um cartoon e agora demonstram uma vitalidade ímpar. Continuamos curiosos em saber mais sobre aquela mulher, e sobre as aventuras que ela poderá viver seguindo a estrada no final do filme. Mas é noite e a visão em perspectiva mostra que está na hora de nos distanciarmos em silêncio.

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