Kill Bill – Volume Um (2003)

Avaliação: 5 de 5.

A lâmina da espada da Noiva brilha. Os efeitos do jorro de sangue são quase tridimensionais. A sensação da sujeira é palpável. Só que aqui, ao contrário de Pulp Fiction, não tem ninguém pra limpar a cena do crime.

O primeiro volume de Kill Bill é sanguinário. A pancadaria parece tola, a destruição é completa, e, é claro, por isso mesmo, não agrada a gregos e troianos. Mas deve-se dar a mão à palmatória. Não há limites para Tarantino. Ele mexe com as noções de tudo. Da geometria linear em oposição aos desvios narrativos, do cinema trash ao clássico puro, do bom gosto ao mau gosto. E quando a mistura não dá liga, ele dá de ombros e segue pra próxima. Tarantino nunca esteve tão aberto a experiências como neste primeiro Volume de Kill Bill. Mistura formatos de películas, dá tratamento de cores distintas para cada assassina que a Noiva visita, insere flashbacks em preto e branco e cria uma sequência inteira em anime para nos mostrar a origem da assassina O’Ren Ishii. Parece confuso? A culpa da bagunça é do próprio diretor ao idealizar um filme que, na verdade, se divide em dois volumes e cuja narrativa é toda fragmentada. Às vezes é difícil entender os avanços e recuos de tempo, formando um verdadeiro zigue-zague na história da personagem, mas assistidos em sequência, os dois filmes adquirem uma coerência extraordinária.
Tarantino faz sua musa, Uma Thurman, despencar no chão como um vaso quebrado na introdução do primeiro filme. Ela está grávida, vestida de noiva, afinal é o dia do seu casamento, e o esquadrão de assassinos comandados por Bill (David Carradine) entra na capela e não deixa nem o padre de pé. Todo mundo é massacrado. Bill não se contenta com a chacina, se aproxima da noiva e lhe dá um tiro na cabeça. O que poderia acontecer depois disso? É em torno desta pergunta que o filme se desenvolve. Tarantino recolhe os cacos desta mulher e a reconstrói junto com a narrativa.
Há um ditado tirado de Jornada nas Estrelas logo no começo que diz: “A vingança é um prato saboroso quando se serve frio”. Uma pista que sinaliza para um filme estruturado pela ideia de revanche. Movida por essa força, a Noiva (Uma Thurman) desperta na cama de um hospital, depois de passar quatro anos em coma. Acontece a primeira revelação sobre a personagem: a mocinha vingadora, antes de tudo era uma assassina e pertencia a quadrilha de Bill. O apelido da mulher era Black Mamba, uma brincadeira entre as matadoras da quadrilha que inventaram nomes de víboras para cada uma – Lucy Liu atende por Cottonmounth; Daryl Hannah por California Mountain Snake e Vivica A. Fox, por Copperhead. A ideia é mostrar que ninguém deve brincar com elas.
A Noiva tem um motivo a mais para não esquecer as amigas. Foram elas que ajudaram Bill a acabar com sua festa de casamento. Acompanhada de uma lista com os nomes da turma, a moça, recuperada, parte para sua vingança.
A intensidade da violência do primeiro volume dá a medida do que se passa com a personagem de Uma Thurman. Se inicialmente ela se sente desorientada com a imagem de si mesma despedaçada e com a ideia de que o bebê que guardava dentro de si está morto, ela também se sente livre para ultrapassar qualquer limite.
A forma chocante como Tarantino filma essa vingança é sem igual no cinema. O realizador exagera tanto na dose de sangue que torna-se um desafio para os bandidos não escorregar no cenário no momento em que Thurman enfrenta 88 loucos das artes marciais. Mas a riqueza coreográfica é imensa, começando lá atrás com um duelo de facas numa cozinha, passando pela sequência de fuga de um hospital, onde a mocinha, recém-saída do coma, praticamente se arrasta até um carro, até o duelo final com O’Ren Ishii no jardim japonês. A ação é visceral e não pára. A inventividade de Tarantino para criar cenas de artes marciais, para homenagear os filmes de Bruce Lee, de Gordon Liu e do samurai Sony Chiba, deve muito a maestria do coreografo de lutas Yuen Wo Pin (de Matrix e O Tigre e o Dragão), mas a concepção foi toda pensada por Tarantino conforme ia revendo sua velha coleção de VHS com cerca de 200 títulos de filmes dos irmãos Shaw. O ritmo, intrépido, explosivo é, às vezes, tão engraçado quanto um cartoon. Em alguns momentos a ação do filme soa rasa e inconsequente, mas foi criado assim mesmo. Para ver comendo um balde de pipocas.

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