Lado A – Tudo Sobre Minha Mãe

Avaliação: 5 de 5.

É engraçado como os grandes filmes parecem sempre ter algo novo a nos dizer quando partimos para uma revisão. Semana passada revi “Uma Rua Chamada Pecado” e não tinha percebido como Almodóvar dialoga de uma maneira profunda com Tennesse Williams em “Tudo Sobre Minha Mãe”.

Sim, a peça “Um Bonde Chamado Desejo” desempenha um papel crucial na vida da heroína principal do filme, uma enfermeira chamada Manuela (Cecilia Roth). Stellas e Stanleys abundam por toda a história, que começa na noite em que Manuela comemora o 17º aniversário de seu filho, Esteban (Eloy Azarin), levando-o a uma apresentação dessa peça, em Madri.

Esteban fica tão encantado pela Blanche Dubois daquela noite, a diva Huma Rojo (Marisa Paredes), que espera por ela na rua, na esperança de obter um autógrafo. Numa seqüência chocante, filmada por Almodóvar com absoluta crueza, o adorado filho de Manuela é atropelado na rua. A câmera permanece se mexendo, mostrando a cena sob o ponto de vista de Esteban, até que o garoto morre.

Para quem está habituado a pensar em Almodóvar e reter na memória um mundo de mulheres maravilhosamente fortes, alegres e que parecem nunca desistir de seus sonhos, essa seqüência funciona quase como uma ruptura dentro da filmografia do diretor. A impressão é que vamos mergulhar num inferno. E de certa forma é o que Almodóvar fará mesmo, mas os círculos do inferno para a protagonista aqui serão muito peculiares.

Manuela verifica transplantes de órgãos doados, e antes do acidente ela havia interpretado o papel de uma viúva numa simulação num hospital. Agora o momento é real, e os mesmos dois médicos que encenaram a peça com Manuela estão ajudando, de verdade, a decidir o destino do coração de seu filho. No palco, Blanche Dubois procura desesperadamente sua caixa de jóias em forma de coração; na vida real, Manuela deixa o coração de Esteban no corpo de outro homem e vai realizar os últimos desejos de seu filho. E Almodóvar, um sentimental nato, apresenta este melodrama feminino com uma empatia que faz lembrar George Cukor e uma intensidade de deixar os olhos úmidos comparável aos melhores filmes de Douglas Sirk.

Mas quando Manuela viaja para Barcelona, a pedido do filho, o filme adentra um mundo animado e generoso. Foi aqui, há 20 anos, que ela e o papai Esteban se conheceram, quando trabalharam juntos em “Um Bonde Chamado Desejo”. E, mesmo o marido tendo se transformado num travesti chamado Lola, Manuela quer encontrá-lo e contar sobre a vida e morte do filho.

Ela vai procurar por Lola num reduto capenga chamado Field (Campo), onde as prostitutas e seus clientes andam em círculos, como se estivessem num carrossel, ou numa visão de Fellini. E é uma beleza, porque a certa altura você não distingue mais o que é fantasia do que realmente é mundano.

Contribui muito para esse clima a presença de uma superestrela drag, quase irreprimível, chamada Agrado (interpretada pela artista performática da noite espanhola Antonia San Juan). Agrado e Manuela são velhas amigas, do tempo em que Agrado ainda não tinha seios, e é claro, ela acolhe Manuela como se fosse sua filha.

“Mãe” se transforma então num tributo irônico e forte aos grandes “filmes de mulheres”, sobretudo os que Hollywood fez nos anos 40 e 50 e que Almodóvar deve ter assistido centenas de vezes.

Sim, porque as mulheres sem rumo dessa história começam, uma a uma, a ajudar e recuperar às outras, como quando Agrado (num tailleur Chanel rosa-choque) traz Manuela para o abrigo das prostitutas, onde a linda Irmã Rosa (Penelope Cruz) ministra para os necessitados. A freira parece submissa e devota, mas ela esconde um segredo, ela está grávida e, o pior, contraiu Aids nesta aventura.

Exercendo um estilo que ele chama de “screwball drama” (“drama maluco”, em referência à “screwball comedy”, as comédias malucas americanas), Almodóvar também insere as duas atrizes de “Um Bonde…” (que são amantes ardentes) e deixa o grupo de mulheres ganhar sustentação enquanto cresce. Este filme é carinhosamente dedicado às atrizes que interpretaram grandes personagens na tela (Gena Rowlands, Bette Davis, Romy Schneider), e celebra os instintos de autopreservação, que podem fazer de qualquer mulher uma atriz.

É assim que Huma e Nina (Candela Pena) brigam e deixam o palco vazio para que  Manuela, aquela Manuela que na juventude sonhou em ser estrela, possa interpretar Stella numa noite muito especial. Claro que existe uma pincelada de “A Malvada” aí, mas vem sem malícia. Almodóvar prefere mostrar o poder do artifício e da representação para transcender a realidade comum.

Embora a Agrado da srta. San Juan tenha uma grande parcela de comicidade, seu momento mais importante no filme vem depois que uma sessão de “Um Bonde…” é repentinamente cancelada. Agrado toma o palco e se oferece para contar a história de sua vida, o que quase esvazia a sala. Mesmo assim ela insiste em ser estrela também. Faz um monólogo engraçado mas orgulhoso, onde reconta em detalhes a cirurgia dispendiosa e o silicone que a tornou o que ela parece agora. “Me custou muito ser autêntica”, ela diz. E: “Uma mulher é mais autêntica quanto mais ela se parece com o que sonhou para si mesma”.

Em Tudo Sobre Minha Mãe, o mundo da interpretação se torna uma fonte de inspiração para as mulheres conforme elas improvisam uma nova maneira de viver suas vidas, com o tipo de força, paixão e humor que este cineasta sempre exaltou. Almodóvar já expressou a idéia da vida como uma forma de interpretação divina antes, mas nunca com a clareza e beleza que brilham neste filme. 

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