Lado B – Fale Com Ela

Avaliação: 5 de 5.

Um balé da coreógrafa alemã Pina Bausch abre Fale Com Ela. Em cena estão duas mulheres, aparentemente cegas, trombando pelo palco, enquanto um rapaz corre para tirar mesas e cadeiras do caminho e impedir que dêem de cara na parede. Na platéia, dois homens, que não se conhecem, estão sentados lado a lado. Um deles observa, com evidente curiosidade, o rolar de lágrimas no rosto do outro.
A história que segue reúne os dois homens em uma clínica particular perto de Madri e acompanha o progresso de seus destinos, acidentalmente ligados. Um deles é o enfermeiro Benigno, que passou a maior parte de sua vida cuidando de sua mãe inválida e agora se dedica a Alicia, jovem bailarina que entrou em coma depois de um acidente de carro. No mesmo corredor, Marco está sentado na cama, ao lado de sua amante, Lydia, toureira que entrou em estado vegetativo depois de ser arremessada para o alto por um touro raivoso.
O título do filme é tirado de um conselho de Benigno ao desconsolado Marco. Benigno conta tudo o que vivencia à silenciosa Alicia, desde sua ida ao cinema até dicas de beleza. Ele diz que Marco devia fazer o mesmo por Lydia. Mas este se nega a dizer qualquer coisa.
Fale com Ela segue para frente e recua diversas vezes, examinando os nós e permutas de ao menos uma dúzia de relacionamentos espinhosos e apaixonados. De alguma forma, com todas as curvas e surpresas que se seguem, a seqüência inicial do balé não verbal contém a essência emocional do filme. Funciona como abertura cinematográfica, apontando para temas e sentimentos que serão elaborados, costurados e reunidos em um trabalho de amplitude dramática impressionante. Obviamente, as cegas de Bausch representam Alicia (Leonor Watling) e Lydia (Rosário Flores), isoladas do contato sensorial com o mundo. No entanto, a emoção que passa do palco para Marco (Dario Grandinetti) e, depois, para Benigno (Javier Cámara) também é uma alegoria da mensagem de Almodóvar e seu método. Um trabalho de arte comunica-se conosco e nos convida a interagir uns com os outros.
Se no filme anterior, Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Almodóvar faz um tributo irônico e forte aos grandes “filmes de mulheres” de Hollywood dos e às atrizes que os deram vida. Fale com Ela, que também se concentra no sofrimento e na lealdade, é um melodrama de tom decididamente masculino. E profundamente maduro.

Nos anos 80, Almodóvar, que nasceu em 1951, na cidade da província espanhola de Calzada de Calatrava, parecia incorporar a exuberância transgressiva do despertar cultural de seu país, depois de décadas de repressão política.

Seus primeiro longas logo lhe levaram à posição de herói na Espanha e trouxeram seguidores fora do país. Neles, as energias distorcidas da era Franco explodiam em uma revolução de cor, sexo, música, drogas e decadência. Assistir Labirinto de Paixões e Maus Hábitos era ver o lado anárquico, libertário do cinema espanhol. Era ver o cinema representado pelo governo surrealista em exílio de Luis Buñuel, restaurado a seu solo nativo e testemunhar tanto as alegrias quanto os perigos da liberdade repentina. Esses filmes eram revoltosos -alegremente agitados, novelescos e exagerados.
Almodóvar, porém, sempre compreendeu que a busca pelo prazer não envolve apenas o divertimento. Nos primeiros filmes havia linhas de agressividade e  risco. Enquanto o fantasma de Franco se esvaía – e o espectro da Aids assustava a Europa – o diretor começou a explorar as implicações mais negras do desejo. (Além de ser um tema central em seu trabalho, El Desejo é também o nome da produtora que Almodóvar abriu com seu irmão, o produtor Agustín, em 1987). Matador (1986) e Lei do Desejo (1987) ainda são precipitados, apaixonados e engraçados, mas também têm algo perturbador, na forma em que seguem a lógica da necessidade sensual -o desejo da intensidade, da novidade, da conexão física antes da morte.
Esses dois filmes, seguidos pelo esmagador sucesso internacional de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, seu grande melodrama de loucos, de 1988, mostraram que Almodóvar era muito mais do que apenas um provocador. A subversão, por si só, pode ter sido difícil de romper. No início dos anos 90, parecia que Almodóvar estava caindo no maneirismo. A indiferença sexual que era desenvolta em Maus Hábitos, por exemplo, ficou forçada em Áta-me (1990) e em Kika (1994); sua forma de tratar com leveza a perseguição maníaca, o estupro e o sadomasoquismo tornaram-se desgastantes.
A Flor do Meu Segredo, lançado em 1995, marcou não apenas um retorno à forma, mas a uma nova direção, como se Almodóvar tivesse renovado sua sensibilidade cômica e encontrado um novo rumo emocional.
Em seus últimos quatro filmes – A Flor do Meu Segredo, Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe e Fale com Ela – a tristeza é transformada em doçura e beleza. Há algo profundamente consolador na visão madura da solidão de Almodóvar, e o consolo vem de uma profunda fé no poder da arte.
Seus personagens se definem e tocam uns aos outros, por sua experiência de filmes livros, teatro e música. Em De Salto Alto, a personagem de Victoria Abril expressa sua revolta com sua mãe citando uma cena de Sonata de Outono, de Bergman. A autora de romances apaixonada em A Flor de Meu Segredo disseca sua situação romântica referindo-se a Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder. Os amantes desesperados de Matador encontram suas paixões violentas espelhadas e inspiradas por Gregory Peck e Jennifer Jones em Duelo ao Sol.
Fale com Ela, como as peças de Pina Bausch que abrem e fecham o filme e a canção central interpretada por Caetano Veloso, parece possuir alma própria, elegante e séria, não explicável ou redutível. Este filme representa algo muito íntimo. Uma parte de mim mesmo que nem sei como verbalizar”, declarou Almodóvar numa entrevista.

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