Meu Ódio Será Sua Herança

Avaliação: 5 de 5.

The Wild Bunch (1969)

Este é o Apocalipse Now dos filmes do gênero western. Começa com um bando de crianças sádicas empurrando escorpiões para o meio de um formigueiro. E o sadismo das crianças parece se equiparar ao do exército de homens que tenta surpreender o bando de selvagens liderados por William Holden na hora de assaltar um banco no centro da cidade. A explosão de violência que irrompe nas telas, no momento em que um soldado dispara o primeiro tiro, mudou o cinema. Ou melhor alterou a forma como a morte é mostrada nas telas. O diretor Sam Peckimpah filma tudo em câmera lenta. Corpos são alvejados e o sangue, que jorra como água em cano furado, é mostrado em primeiro plano. Os assaltantes sobreviventes desta primeira chacina tentam chegar até a fronteira do México, mas são perseguidos implacavelmente. São os últimos durões de uma era, que como dinossauros estão sendo extintos.

O filme recapitula o legado de prazer, confusão e até crueldade que o diretor deixou em Hollywood. Peckimpah dizia que tinha nascido na fronteira final do Velho Oeste, em Fresno, na Califórnia. Desde pequeno era avesso às regras, gostava de estar em campo aberto, quase sempre num lombo de cavalo. Conheceu muitos velhos cowboys e presenciou o fim daquele modo de vida rural. Por isso, ele mesmo dizia que não era afeito a filmes contemporâneos. “Sam tinha aversão ao mundo moderno. Sua locação preferida ficava entre a fronteira do Texas e o México”, conta o crítico David Thompson. Foi ali que ele fez Pistoleiros do Entardecer, Meu Ódio Será Tua Herança e Pat Garret & Billy the Kid.

O cineasta dava de ombros para quem o criticava pela violência estilizada. Segundo depoimento do próprio, por vezes é preciso horrorizar as pessoas, rompendo os seus limites de conforto, violentando-as. Por vezes é o único modo de entenderem. Peckimpah, que tinha combatido contra os japoneses na Segunda Guerra Mundial, presenciando incontáveis horrores, queria que o público fosse agredido pelo verdadeiro horror da morte. Foi assim que teve a idéia de usar slow motion, quase congelando os jorros de sangue, para fugir das mortes assépticas que povoavam os westerns tradicionais. Curiosamente ele nunca mais se livrou do epíteto de sanguinário que lhe atribuíram a partir deste western.

Peckimpah não tinha medo de fracassar. Ele assimilava os tombos e geralmente tirava a energia deles para se renovar e produzir verdadeiros tratados sobre desajustados. “Acho que sou um bandido, porque são com eles que sempre me identifico”, conclui numa entrevista que deu a David Thompson.