Miami Vice: A Série (1984-1990)

Avaliação: 3.5 de 5.

Michael Mann adora a ideia de remexer em coisas que abandonamos e que estão logo abaixo de nós, nas ruínas, esgotos e cavernas de nosso próprio mundo. O filme que marcou sua estreia nos cinemas era sobre um sujeito que inclusive tinha uma profissão do submundo: era ladrão. A série Miami Vice se sustenta sobre base parecida: são os esgotos do balneário mais fotogênico do mundo que vertem para o mar e para as piscinas os dejetos que precisam ser contidos, e a grande questão reside em como limpar uma sujeira que está tão entranhada na cidade. Quem são os turistas? Os clandestinos? Os bandidos? E quem são os policiais?.

O Departamento de Narcóticos coloca dois agentes, James Crockett, ou Sonny, interpretado por Don Johnson, e Richard Tubbs, defendido por Philip Michael Thomas, para se infiltrar na alta sociedade de Miami. Sabem que a raiz da inteligência do narcotráfico está fundada no meio da ostentação. A graça começa no fato de que a dupla de infiltrados não pode adentrar a high society com um modo de vida fajuto. Por isso Sonny e Rico andam em alto estilo, trajando uma variedade de blazers de grife, desfilando com um modelo de óculos escuros diferente a cada episódio e dirigindo Ferraris.

E tudo custeado pelo Departamento.

Vez por outra, o chefe da divisão ameaçava cortar as regalias, e a dupla, muito malandra, alegava que o distrito deveria saber o que era sensato. Afinal, só cumpriam ordens. Se adotavam o figurino, era por conta da nova onda, o estilo yuppie de ostentação de signos de riqueza. Acabava não havendo jeito,  o Departamento ficava refém do modo de vida dos dois policiais: o visual era o chamariz que atraía os chefões do tráfico para a cilada que Sonny e Rico cuidadosamente armavam.

Verdade que Michael Mann não escrevia os roteiros de Miami Vice, a autoria da criação  pertence a Anthony Yerkovich, o roteiro do piloto da série foi escrito por esse ex-jornalista policial, que já vinha trazendo para a TV a crueza do mundo cão desde Hill Street Blues. Mas se a articulação das tramas ao longo dos 111 episódios da série nunca foi pulverizada pela imensa equipe, isso se deve a presença de Michael Mann coordenando  e unificando a produção. Mann estabeleceu o conceito visual e criou o estilo. Hoje a série parece datada, mas na época despontou como novidade e fez furor. Primeiro pela forma como a câmera em steady acompanhava cada lance dos dois heróis, sem cortes, o que davam uma intensidade e calor novos às cenas de ação. Se Don Johnson aparecia suando às bicas era porque tinha enfrentando obstáculos, que Mann fazia questão que o ator executasse, sem dublês.

Segundo, pela brutalidade da troca de tiros. A artilharia era pesada. Os tiroteios traziam a cena escopetas, metralhadoras e automáticas de grosso calibre com o efeito das balas destroçando corpos em câmera lenta. A mixagem de som era tão valorizada, que Mann batalhou para que Miami Vice fosse o primeiro programa de TV transmitido em estéreo, primazia que a série conquistou a partir da segunda temporada. E claro, havia uma trilha sonora pulsante, que em princípio, parecia um contrasenso, mas causava um imenso impacto, com canções pops interpretadas por Cindy Lauper a Phil Collins sendo tocadas inteiras para aumentar a atmosfera de loucura.

O excêntrico Sonny morava num barco, o Sant Vittus Dance, em companhia de um crocodilo chamado Elvis. Numa tentativa de acuar o chefão do tráfico Calderone topou com Ricco Tubbs.

Tubbs era o clássico forasteiro, um tira vindo de Nova York, no encalço do colombiano Calderone por uma questão pessoal: o traficante matou o irmão e o chefe de Rico. No primeiro episódio, Sony  perde a paciência, porque acha que Ricco quase arruinou a operação de desbaratamento da gangue colombiana. Mas, por ordem do Departamento de Narcóticos, terá que trabalhar com o tira novaiorquino na missão. O contraste entre os temperamentos, malicioso e solar de Sony, e obsessivo e muito urbano, de Ricco, entra em choque. Mas ambos vão se enroscando de tal modo numa Miami de tipos sinistros, corruptos e matadores, que o melhor é esquecer as diferenças. Depois de sairem ilesos de uma tempestade de balas, tornam-se amigos.  Cientes que desafiam a morte a cada episódio, testam os limites de carrões e lanchas com o escape. De brinde ganham a companhia das mulheres mais sexies dos anos 80.

Esse espírito prazeroso de grupo era contagiante vpara quem assistia a série na época. E estendia-se ao Departamento. A equipe de narcóticos de Miami era comandada pelo tenente Lou Rodriguez, um tipo durão, mas querido, que seria morto no início da sexta temporada. Havia uma certa resistência pra aceitar o novo chefe da divisão, o Tenente Martin Castilho, sujeito frio e reservado, mas que se impôs por sua experiência (antes de entrar para a Narcóticos, Castilho foi  um dos agente mais condecorados da CIA).

Havia ainda uma dupla desajustada, formada pelos detetives Larry Zito e Stan Switek, dois tipos cômicos cuja especialidade era grampear traficantes. A iconografia da série se completava com  as estonteantes Gina Calabrese  e Trudy Joplin duas policiais inflitradas como prostitutas de luxo na Ocean Drive, a rua mais badalada de Miami.

Mann amarrava a brincadeira toda,  orquestrando a produção executiva. Ele escolhia os diretores que se dispunham a enquadrar, a mover a câmera e a organizar os movimentos dos atores na cena, como ele queria. Nesse dia a dia deu a oportunidade para os jovens  Abel Ferrara e Leon Ichaso, dois diretores que mais tarde se tornariam personalíssimos para  assinara episódios da série. Mas é impressionante. O modus operandi, o estilo de filmar, a atmosfera de urgência, tudo isso  depois veremos   serem aprimorados , sobretudo, em Fogo contra Fogo, Colateral e Inimigos Públicos.

Aqui Mann enfatiza a integridade e a identidade masculina, bem como o território psicológico sombrio que pode ser tão perigoso de se trilhar. Indivíduos endurecidos e solitários, os homens são aquilo que fazem. E a missão sempre ameaça desandar quando Crockett se apaixona, frequentemente pela mulher ou a filha de um traficante. À medida que os policiais se afundam no mundo do crime e do embuste, eles lutam para manter nítida a linha que separa policial e bandidos.

Essa autoralidade, sobretudo em uma série com produção e logística mais cara do que de costume, chegou um ponto que se tornou conflitante. Ninguém dá um cheque em branco para um diretor filmar como bem entender. Existem prazos, exigências, limites. Como Mann é perfeccionista, daqueles com compulsão por repetir a mesma cena até ficar exatamente tudo conforme deseja, sabe-se que os dois protagonistas, estrilaram muitas vezes durante os cinco anos que durou a série. As obsessões artísticas do cineasta também estouravam frequentemente o orçamento, atrasando significativamente o processo de edição, o que valeu um imenso desgaste e a saída de Mann na terceira temporada. Ele alegou que sua saída se deveu a própria inquietude. Queria desafiar mais os limites da estrutura narrativa, e Miami Vice já não lhe trazia essa possibilidade.

Mas essa é a história de todo cineasta em seus duelos com o sistema.

O que é fundamental sobre Miami Vice é que a partir do fenômeno da série, as idiossincrasias de Mann começaram a ser acompanhado por Hollywood com grande atenção.