Miami Vice – Filme

Avaliação: 4 de 5.

Miami Vice, 2005

Não há espaço para a displicência yuppie, na versão dos detetives Ricardo Tubbs e Sonny Crockett nos anos 2000. Numa Miami reformatada pela tecnologia da informação, os novos agentes Sonny (Collin Farrell) e Rico (Jamie Foxx) vivem estressados e não apenas por conta do perigo que correm por se infiltrar no submundo do tráfico de drogas, mas porque acima de tudo precisam ficar ligados no turbilhão de dados, imagens, pesquisas e planilhas. Em Miami Vice piscou, bobeou: você pode estar morto.

É engraçado: os dois agentes precisam mais de celulares do que de uma arma. Tudo o que cada personagem vê, sente, imagina, calcula, se ampara na cibercomunicação. A trama é toda armada pelo telefonema de um informante. Ele liga para Sonny para relatar que está em sérios apuros. De um lado, temos o homem em alta velocidade numa estrada fugindo de uma quadrilha, do outro temos Sonny meio chapado pelo lusco fusco de uma balada. Em princípio não parece haver muita importância no fato de que o celular interliga duas realidades bem contrastantes. A estrada, a boate. Mas o corte abrupto da ligação, deixa Sonny perturbado. Ele sabe que ou o informante foi capturado, ou foi morto. Assim passa a informação a Rico e os dois, com seus respectivos – smarths, despertam um mundo todo. Do departamento de narcóticos de Miami ao FBI. Todo o filme é assim, a onda de ligações se expande até alcançar outras regiões, outros países.

A princípio, Miami Vice segue nesta trama de conexões telefônicas. O diálogo é nervoso, a ação é comedida. E Mann, que assina o roteiro, só nos permite perceber aonde o filme quer chegar quando Montoya (Luis Tosar),um chefão do crime que parece mais o chairman de algum conglomerado e seu bando de capangas sofisticados, dão o ar da graça. Estamos numa conjuntura muito diferente da Miami dos anos 1980. Aquela dimensão construída com dinheiro ganho a base do tráfico de cocaína não existe mais. A ordem em que a bandidagem opera se baseia na variedade de matérias primas e na facilidade de intercâmbio comercial. O vilão não trafica apenas drogas, o negócio envolve armas, programas de computadores piratas, medicamentos falsos e o tráfico de seres humanos. Tudo vendido  em escala global.

Cabe a Sonny e Rico se infiltrarem neste labirinto e jogar a isca na esperança que Montoya a morda. A ação pula do Paraguai para o Haiti, da Colômbia para Cuba, onde a dupla se encontra para tomar coquetéis com o chefão do tráfico. E aqui, mais do que os diálogos, os homens se estudam. Nenhuma troca de olhares, nenhum pequeno gesto pode ser perdido. . As vezes o que se evita fazer é mais importante do que o que demonstram os personagens. Um exemplo: Sonny evita olhar para a exótica companheira de Montoya, Isabella (Gong Li). Mas a atração é magnética. Fica no ar. A mistura de glamour e perigo mexe com a libido do policial e parece correspondida, porque a mulher revela apreensão. Eles marcam um encontro e ela comparece. O jogo de sedução é perigoso: será que ela realmente sentiu atração pelo detetive, ou  está apenas dissimulando para saber um pouco mais de Sonny?

Rico alerta o parceiro, mas o teimoso Sonny quer pagar pra ver.

Não é um filme contundente como  Fogo contra Fogo. Apesar da atmosfera plasticamente poderosa que cada plano contém; apesar do interesse fetichista da câmara pelos quadros perfeitos, de linhas definidas e vertiginosas;, Miami Vice é uma experiência nova, onde Mann quer testar os limites da abstração.

Se muita gente se decepcionou com o filme foi porque havia uma expectativa de um filme de ação eletrizante. Para o diretor, porém, isso é o que menos interessava. Mais importante era estudar a “mecânica escondida do mal” que se alastra pela rede de comunicação e que é tão complicada de monitorar porque é virtual. Os rastros evaporam como éter.

Interessante também é a forte recusa em desenvolver os personagens dramaticamente. Sabemos superficialmente quem são, mas a psicologia deles não entra em foco. Rastros do que foram e que definem as personalidades da dupla de heróis, são bem vagos. A ausência destes elementos tornam o filme frio, e os personagens sem muita empatia.

Mas é uma frieza que esboça um desencanto, uma saudade sobre como as coisas eram. Não adianta chorar o leite derramado, acabou. A intenção de Mann é ser firmemente calcado na atualidade. Com Miami Vice, ele nunca foi tão preciso em seus propósitos.

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