Millennium: Os Homens que não Amavam as Mulheres (2011)

Avaliação: 4 de 5.

David Fincher já nos deu imensas provas de que adora carregar seus thrillers de deslumbrantes texturas e facetas perversas E essa refilmagem do sueco  Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, parece feito sob medida para ele. A trama, baseada no best-seller de Stieg Larsson, trata de hipocrisia, sexo e devassidão, e o desafio nessa adaptação  é justamente escapar do sensacionalismo fácil que permeia a superfície. Nas entrelinhas as engrenagens sociais giram e há algo de extremamente venenoso acontecendo, que o herói jornalista Mikael Blomkvist, que começa a história amarrado num escândalo de corrupção, tem dificuldades em lidar. A qualidade do livro e também da versão sueca do filme reside em tornar as circunstâncias cada vez mais opressivas.
A versão de Fincher dá novas camadas a esta angústia.  É uma história de mistério envolvendo uma família de milionários suecos, os Vanger, e o desaparecimento de Hanriet, a herdeira do clã, quarenta anos antes. Quem financia a investigação é o tio da menina (Christopher Plummer) que acredita

que alguém da sua importante e disfuncional família poderá estar relacionado com o sumiço. Ajuda o fato de todos os Vanger morarem na mesma ilha, mas a documentação do processo, nunca resolvido pelas autoridades, foi toda separada pelo tempo. Mikael monta um mural com uma extensa ramificação de pessoas, eventos e motivações que aconteceram no dia do desaparecimento. Mas a tarefa é tão complicada, que ele precisa de uma auxiliar para reestabelecer todas as conexões.

Assim a entrada da jovem Lisbeth Salander (Rooney Mara) torna-se essencial para ajudá-lo a ordenar as peças no tabuleiro. Com um simples notebook, Lisbeth devassa o passado de qualquer um.

O filme que Fincher estrutura desse encontro do jornalista com a hacker é intrigante. Há mais do que palavras, há mais do que imagens a serem interpretadas. Fincher retoma a cena do crime, avança sobre detalhes, congela sobre o que não entende, reflete, depois dá meia volta, rastreando o mínimo movimento suspeito. Nada é à toa. Se aqui trata o crime como um quebra-cabeça a ser montado, sua ambição é que ele flua de forma extremamente cinematográfica, na orquestração do plano, na posição da câmera, no agrupamento das cenas na edição, na mistura de formatos. A malha investigativa engloba acessos a arquivos de fotos, recortes de jornais, laudos, e tudo vai se entrelaçando, num nível de aproveitamento narrativo elegante. O diretor aliás, parece nem se preocupar com o tempo. Os fatos acontecem de uma forma mais vagarosa do que costumamos ver, o clima de suspense é gradativo, e a importância do ouvir conta muito. Existe aqui ambivalências entre o que os personagens falam e como agem. Quando o tio Henrik recorda o dia do desaparecimento, há um traço de reminiscência mágica, que pode soar tanto como suspeita, como também nostalgia de velho romântico. Lisbeth, por sua vez, é uma jovem cheia de raiva contra os homens, que abusaram dela desde que era uma criança, e é capaz de se vingar deles com requintes de crueldade. Alguém tenta tocá-la e ela avisa: “Quando eu tinha 12 anos, meu pai tentou me tocar. Eu queimei ele vivo!”, Curiosamente os sentimentos dela ficam confusos com relação ao vulnerável Mikael. Lisbeth fará sexo com ele, mas não o deixará esboçar prazer: “Cala a boca e não pára!”, essa é a forma da mocinha expressar afeto.

A natureza bipolar da personagem é a alma do filme e ela abarca todos os níveis da realização, inclusive na ambiência escura que a história transmite. Dos seus filmes anteriores, podemos retirar a escuridão em que o filme se envolve tal como em Seven e Zodíaco, parecendo que as nuvens nunca limpam o céu e uma névoa cinzenta pinta a neve na tela, envolvendo o filme num estranho e desconfortável cenário em que a ação se desenrola. É isso que cativa nos filmes de Fincher, esse ambiente misterioso e sombrio com que as personagens se relacionam e evoluem em meio a uma multidão, de rostos sem olhos.