No Tempo das Diligências

(Stagecoach, 1939)

Avaliação: 5 de 5.

Nove entre dez críticos quando se põem a escrever sobre esse western seminal começam exaltando a ambição artística de John Ford ou a presença carismática de John Wayne. Eu prefiro começar tecendo elogios ao desempenho da prostituta Dalas vivida por Claire Trevor. Claire rompeu o paradigma das mocinhas ingênuas no começo dos anos 40. Em “No Tempo das Diligências”, ela só entra na carruagem e, portanto, na história porque tem que fugir das carolas prontas a expulsá-la da cidade a pedradas. Em “A Mulher da Cidade” (Woman of the Town, 1943), suporta igual martírio, quando sua personagem é banida da cidade e o xerife, que a ama, a abandona em favor de um futuro promissor. E em “Quero-te Como És” (Honky Tonk, 1941), contradizendo o título, o mocinho Clark Gable prefere ficar com a garota de boa índole (Lana Turner).

Finalmente Idonee, a prostituta velha de “Homem Sem Rumo”, leva Dempsey Rae (Kirk Douglas) para a cama e, vira conselheira do cowboy. Ela até ajuda o homem que sempre amou a fugir. Idonee tem a maturidade para reconhecer que a única política sensata para encarar o herói errante é o distanciamento. Fugir do corolário de Hollywood era difícil, mas, por sorte, Claire Trevor encontrava um diretor complacente de vez em quando. “No Tempo das Diligências” é um dos poucos filmes em que o destino da Claire-prostituta tem sabor de happy end.

É intrigante como a obediência as regras de Hollywood é estudada na parceria do diretor John Ford com o roteirista Dudley Nichols, e como estas convenções são deslocadas. Há um mundo querendo ser incluído na comunidade pintada por Ford, mas neste grupo não se admite a desobediência hierárquica. Na parábola do diretor, Dallas (Claire) encontra seu duplo no pistoleiro Ringo (John Wayne), ambos discriminados pelos passageiros da carruagem. O grupo continuará irredutível em aceitar o casal e a felicidade deles só poderá se concretizar, por um acesso de caridade cristã do xerife (George Bancroft), que decide soltar Ringo e relegar os pequenos delitos do bandido. A imagem  que encerra a história – o casal rumando de carruagem para o horizonte – é idílica demais. Só no imaginário o enquadramento social da dupla pode se concretizar.

John Ford não era homem de sacrificar a vida de suas personagens a entrechos. Em “No Tempo das Diligências”, prefere colocar essas duas peças no centro de um palco onde todos prezam o jogo das aparências. Dudley Nichols (dizem, que com a colaboração anônima de Ben Hetch) tirou o esboço de um conto de Ernest Haycox, “Stage to Lordsburg”. A história que havia inspirado Haycox, tinha paralelos com o clássico da literatura francesa, “Boule de Suif” (Bola de Sebo), de Guy de Maupassant.

Como Flaubert, seu conterrâneo, amigo e amante, Maupassant escreveu um violento libelo contra a hipocrisia, capaz de despertar paixão e repúdio nos círculos intelectuais do século 19. Uma dama de moral duvidosa, muito semelhante a Dallas de Claire Trevor, centraliza as atenções em “Boule de Suif”. A carruagem em que viajam casais respeitáveis e a prostituta é interceptada pelos prussianos. O chefe ameaça a todos, menos a mulher, a quem admira, depois passa a cobiçar. Ela recusa-se a entregar-se ao inimigo. Os companheiros convencem-na. No dia seguinte, ela é saudada pela bravura. Sãos e salvos, cada um reassume seu papel e a heroína volta a sua posição anterior.

Se não existe uma passagem em que Dallas se entrega ao cacique em “No Tempo das Diligências”, devemos atribuir isso ao pudor irlandês e católico do Ford de 1939. Em quase 60 anos de carreira, o idealismo pregou-lhe algumas peças. Ainda assim Ford tinha uma pré-disposição para examinar seus princípios que surpreendia. Foi com esse olhar revisionista que deu uma faceta mais digna ao índio, em “Sangue de Heróis” (1949), divulgou seus nobres costumes, em “Rastros de Ódio” (1954), e finalmente seu extermínio, em “Crepúsculo de Uma Raça” (1964). Com esta perspectiva, 26 anos mais tarde, convenceria Anne Bancroft – numa atitude semelhante a da heroína de “Bola de Sêbo” – a deitar-se com um truculento líder mongol para salvar um bando de missionárias, em “Sete Mulheres” .

Apesar de não abordar diretamente o sexo, “No Tempo das Diligências” permitiu ao gênero alcançar sua maturidade. Hollywood resguardaria sua castidade por mais alguns anos. Três anos depois, “O Proscrito”, aquele em que Billy the Kid reflete sobre as vantagens entre a mulher e o cavalo, apresentou uma heroína que não via nenhum sacrifício em fazer amor com o bandido. Mas essa já é outra história.

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