O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

Avaliação: 5 de 5.

The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, 2007 

A balada melancólica de uma caixinha de música toca ao fundo enquanto seguimos um narrador contar a história dos irmãos sulistas que roubavam trens depois que a Guerra da Secessão levou a miséria muitos agricultores do Arkansas. Jesse James era o filho de um fazendeiro da região. O pai foi morto pelos soldados da União e o filho tornou-se proscrito para se vingar.

Quando “O Assassinato…” começa Jesse (Brad Pitt) já está com a cabeça a prêmio e a recompensa é tão alta, que os próprios companheiros da quadrilha engolem seco quando pensam nas cifras. Você entregaria um amigo?

O filme passa por essa questão sem problemas. Todos são capazes de trair Jesse James. E se esforçam para arrumar um motivo para fazê-lo com gosto. Então quando você pensa que a trama encaminha-se para vitimizar o pistoleiro e mostrar os parceiros como algozes, temos uma guinada surpreendente. Descobrimos que Jesse James é uma raposa. O fuinha, desconfiado, desbarata a quadrilha. Depois visita cada um dos ex-companheiros para testar a força da lealdade. E quem vacila, ele liquida friamente com um tiro na nuca.

Os laços de lealdade neste filme aproximam e apertam: unem e ao mesmo tempo aprisionam. Matam. E Jesse, numa caracterização inteligente de Brad Pitt, capta essa confusão. O que o matador não conta, contudo, é que, o caçula do bando, Bob Ford (interpretado por Casey Affleck, irmão de Ben), é o verdadeiro Judas deste caso.

“O Assassinato de Jesse James” parece um jogo de pôquer entre esses dois homens. Inicialmente Bob idolatra o proscrito, depois tenta imitá-lo, o que deixa o original fulo. “Você quer ser como eu? Ou você quer ser eu?”, pergunta.

Conforme o pistoleiro vai destruindo a quadrilha, o fã se desencanta. Então, em troca de fama e fortuna, Bob Ford se vende para os agentes da Pinkerton. Promete informar aos policiais quando ocorrerá o próximo assalto. Só que o faro de Jesse é apurado demais. Ele percebe a movimentação estranha e adia o plano. Resta a Bob, a chance de pegá-lo quando ele lhe der as costas.

A propósito, “O Assassinato…” é um faroeste mas esqueça aqueles duelos tradicionais. As mortes são todas tramadas pelas costas. E o mítico Jesse James é o que mais incentiva essa prática ao longo do filme.

O Jesse James de Pitt, aliás, é muito sinistro. Vemos as emoções enervando debaixo da superfície, ameaçando explodir seu comedimento. E essa superfície é tão perigosa quanto as barbatanas de um tubarão: é o que você não vê que pode te matar.

Pitt ganhou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza. Casey Affleck, no papel do amigo e traidor tem um desempenho à altura e merecidamente foi indicado para o Oscar de Melhor Coadjuvante. Seu Bob Ford precisa disfarçar muita informação sob o rosto para não ser desmascarado. Depois numa fase seguinte, sua face imóvel e seus olhos desesperados conduzem um outro sentido: nenhum grito será suficiente para expressar o dilema de alvejar Jesse, quando ele finalmente dá as costas para o amigo para ajustar um quadro.
Andrew Dominik, o diretor, não tem pressa em expor o drama. Ele convida o espectador a entrar naquele mundo rural do século 19 e sentir suas particularidades. Neste sentido, a seqüência em que o trem avança sobre a floresta escura desnudando a paisagem com um facho de luz que parece de uma espaçonave até denunciar Jesse e seu bando no meio delas, merece entrar para a antologia dos grandes momentos do cinema (cortesia do mestre da fotografia Roger Deakins/ “Blade Runner 2049” e “1917”).

Existe também um fascínio pela tradição oral neste filme. Quase ninguém sabia ler naquela época, então a lenda não ganhava continuidade por causa dos jornais, como o mestre John Ford insistia em mostrar em seus magníficos faroestes. John Ford era um romântico, que idealizava o passado; Dominik é um realista. Sabe que as histórias eram passadas oralmente de vizinho para vizinho, de pai para filho, de irmão para irmão.

Dominik praticamente pede para o espectador ouvir essas histórias com atenção. Sentir a densidade das palavras e as construções subitamente acidentadas que revelam a verdade sobre cada ser. A ação muitas vezes nem é vista. Ela é contada. Ou é representada.

Há um momento magistral no filme em que um personagem encena um crime hediondo que cometeu, num palco teatral para a platéia assistir. E claro, ele encena do jeito que quer, porque não há testemunhas para contradizê-lo. Sente-se um herói. E torna-se até mesmo uma celebridade.

Não adianta os fantasmas clamarem por justiça. Neste “O Assassinato de Jesse James…” é a lei dos vivos que prevalece.