O Cavaleiro das Trevas

Avaliação: 4.5 de 5.

The Dark Knight (2008)

Gotham City vira um teatro em O Cavaleiro das Trevas e todo mundo sobe no palco para vestir máscaras. O fenômeno de idolatria em torno de Batman faz com que o próprio veja sua máscara multiplicada pela cidade. Sim, tem um monte de gente se fantasiando de Batman e querendo bancar o herói. E bandidos com máscaras de palhaço também se multiplicam num assalto a banco. É inusitado: são ladrões, são palhaços, e comportam-se como um coro do teatro grego. Apresentam o tema, comentam a ação. Um pergunta para o resto da quadrilha se algum deles já encontrou alguma vez o Coringa (Heath Ledger). O mais entusiasmado diz que não, mas idolatra o vilão, pela forma como ele se voltou contra o sistema: pinta o rosto como um índio faz sua pintura de guerra e ri da própria guerra.
De fato, estamos diante de um vilão que parece maior que a vida. Um risonho equilibrista que se posiciona dentro e fora do espetáculo. O drama, o patético e o moral, nenhum deles o afeta, ao contrário, o enfadam. O Coringa é o sujeito que se deu conta da falta de imaginação do sistema e percebeu o mecanismo simples do aparelho. Assim, como um relojoeiro, não vê dificuldade em abrir e mexer com as peças.

Aliados? Bom, seria adequado o Coringa usar os palhaços assaltantes como  exército para desmantelar Gotham, mas quem disse que o risonho vilão é previsível? Taí um bandido  que não faz parcerias. Terminado o assalto, o Coringa se revela no meio dos palhaços como uma piada. Uma piada mortal, porque ele faz os palhaços se liquidarem um a um.

Corte para a cena de entrada de Batman em cena. O mascarado surpreende uma quadrilha, mas tropeça em sua capa. O super-herói perdeu a majestade? Na verdade, não se trata do Batman, mas um fã que se acha capaz de reproduzir as marcas do legítimo. Seu erro de cálculo é cômico.  Apanha dos bandidos e está prestes a ser morto, quando aparece o original. O verdadeiro Batman se livra fácil da quadrilha, mais complicado é engolir sua versão cover.

Ao contrário da cena de apresentação do Coringa, longa em exposição, a cena de entrada do super-herói se resolve rápido, mas é tão significativa quanta a primeira, porque pressagia algo novo num filme de super-heróis. Não é contra o mal verdadeiramente que Batman se bate neste O Cavaleiro das Trevas, mas contra o bem.

Se em Batman Begins havia uma dificuldade em lidar com a maldade pura, neste aqui o complicado é lidar com a essência do bem.

O bem pode ser ingênuo e idiota como o travestido fã comprova, como também pode se materializar num almofadinha bem nascido como  Harvey Dent (Aaron Eckhart). Promotor perspicaz, Dent se vê imbuído de uma missão especial, provar que pode eliminar o crime organizado reunindo a promotoria, a polícia e Batman na mesma mesa. Ironicamente o mais difícil de convencer a entrar neste pacto é justamente o guardião mascarado, ou melhor, Bruce Wayne, porque Harvey ganhou o coração da namorada dele, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal). E quando os dois cavaleiros sentam-se para um jantar e Harvey o envolve com sua autoridade e altivez, torna-se penoso para Bruce engolir o rival e aceitar a aliança.

O rosto ao mesmo tempo tenso e insondável de Christian Bale sugere o contragosto de formar a parceria com o promotor. Não só. O modo como Nolan matiza as atuações revelam personagens cheios das contradições tipicas do ser humano. Afinal, ninguém é uma coisa só, ninguém é unidimensional na vida. No caso de Bruce Wayne, ao mesmo tempo que pesa a convivência com o noivo da mulher que ama, existe também uma ponta de admiração. Na verdade, ele  vê no hábil promotor a possibilidade de repensar Gotham como uma cidade mais justa, onde os heróis não precisarão mais usar máscara, e ele, Bruce Wayne, poderá reaver a vida de cidadão que sempre sonhou. Essa é a parte prática do jogo. A mais complicada é que tanto Dent como Wayne acreditam que para mudar as coisas é preciso destruir algo. Mas em que parte do terreno devemos por fogo, quando aquilo que queremos destruir e aquilo que queremos manter estão presos de tal forma que não dá para separar?

Com um exército bem formado, Harvey manda 347 mafiosos para a cadeia num único dia, e é alçado à condição de Cavaleiro Branco da justiça. Em sua operação contra o crime, contudo, ele alcança só a ponta do Iceberg. Do alto de Gotham, o Coringa, assiste tudo  rindo da patuscada utópica. Para o Coringa, essa história de sociedade civilizada é conversa. A natureza humana bem que tenta, mas não consegue esconder sua sujeira. Basta apertar o botão certo que até o mais pacato cidadão vira bicho. O Coringa nada mais quer do que  provar essa tese e multiplicar sua escala. Assim prepara um ambicioso experimento social, embaralhando a administração da cidade e jogando o povo contra o povo.

Nolan aborda o Coringa com respeito em vez de reverência. É óbvio que o diretor fez um estudo cuidadoso do legado do vilão, mas ele tem uma dívida em particular com a revisão do personagem feita por Frank Miller nos anos 1980, que se tornou quase um reflexo invertido de Batman.

Como o Coringa de Miller, o de Nolan é um sujeito bem menos atormentado por demônios do que o herói mascarado. Aliás, se Batman não desse a mínima para sua consciência seria como o Coringa. Em um mundo incerto, um mundo que o diretor modela com os olhos voltados para o nosso, essas duas figuras  se completam como duas faces da mesma moeda. Já Harvey Dent é um personagem mais escorregadio, por trás do carisma, do excesso de confiança que passa, revela-se um individuo dividido, entre a justiça e a vingança, entre um desejo por paz e um desejo por poder.

Questão intrincada sem dúvida, mas a trama é de uma vitalidade ímpar pela forma como trata de valentia, gênio, traição, corrupção, morte. Enfim, da América, sua vitalidade e mazelas.

Em alguns momentos O Cavaleiro das Trevas entusiasma, e o filme adquire a força e grandeza de um épico que transcende a condição de entretenimento. Nolan não consegue manter essa energia o tempo todo. Como frequentemente acontece com filmes sobre meninos e brinquedos, ele exagera em alguns aspectos. O vocal do herói é digno de piada (aquela voz de James Earl Jones que ele entoa cada vez que põe a máscara seria condizente para um personagem que tem problemas de autoafirmação, não para Batman) e a trilha sonora é óbvia  e manipulativa (trabalha com um tique taque crescente para tentar aumentar a adrenalina do espectador).

Ainda assim, o que torna Cavaleiro das Trevas uma das adaptações de quadrinhos mais bem-sucedidas do cinema, juntamente com Homem Aranha 2, de Sam Raimi, e os dois Batmans, de Tim Burton, não é a ação desenfreada, ou o desempenho magnífico de Heath Ledger como o Coringa. É a forma como Nolan faz o duelo entre Batman, o Coringa e Harvey Dent adquirir sombras que se alastram como um vírus e vão tomando a população, transformando-a em vampiros. Vampiros de Duas Caras. E é um prazer ver paradigmas serem quebrados num meio que se sustenta pelo mais puro maniqueísmo.

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