O Curioso Caso de Benjamin Button (2007)

Avaliação: 3.5 de 5.

Imagine se pudéssemos nascer com 80 anos e gradualmente fossemos ficando mais jovens? Em O Curioso Caso de Benjamin Button acontece. No nascimento, a mãe morre, o pai acha que aquele bebê enrugado é uma maldição, e o abandona num lar de velhinhos. Mas, à medida que o tempo passa, o bebê maldito  vai se tornando jovem!

F. Scott Fitzgerald imaginou essa história como uma parábola sobre o que é o começo e o que é o fim de uma vida em uma guerra (ele refletia sobre a Primeira Guerra Mundial). David Fincher a transforma numa meditação sobre a natureza do acaso e do destino em qualquer época.

A composição é ambiciosa. Não se trata das aparências ou da simples passagem do tempo num rosto. O tempo não se limita simplesmente a passar. Tem o som e a fúria de um maremoto no filme, alagando cidades, arrastando vidas humanas como se estas não fossem nada. Anda para trás e para a frente como um projetor de cinema, revelando a história de um homem cujo destino invulgar é envelhecer ao contrário.

A presença do tempo no filme é de tal modo poderosa que quase se torna uma personagem, tal como acontece com a cidade de Nova Orleans, onde começa e termina a ação. A pergunta que se coloca é: o que é o começo e o que é o fim de qualquer coisa?

A senhora Daisy Fuller (uma Cate Blanchett quase irreconhecível por trás da maquiagem de anciã) parece viver o último sopro de sua vida, ao mesmo tempo em que o furacão Katrina castiga a cidade em 2005. O novelo de lã, contudo, continua a se desenrolar. E o que é o fim para Daisy é o começo para Benjamim.

Tal como um homem a quem lançaram um feitiço, Benjamin Button (Brad Pitt) entra em cena como um velho ranheta de 80 anos se batendo no berço. Ele nasce em 1918, exatamente no dia em que a Primeira Guerra Mundial termina. Desde o princípio ele é profundamente encantado pela possibilidade de rejuvenescer. Assim parte para mil aventuras para descobrir o mundo e dedica a vida a aproveitar ao máximo cada dia, o que não é mais que a típica tendência de uma era – a imediata sede de viver depois das limitações que a guerra obrigou.
No fundo, sua leviandade perante um futuro de possibilidades é uma metáfora sobre todos os fins de guerra. Benjamin Button nasce na idade da morte para a vida, tal como uma guerra termina para a sociedade renascer.

Só que a vida não é tão esquemática e lógica como Benjamim tenciona levar. Ele atravessa o século XX participando como testemunha das mudanças comportamentais da sociedade, e nunca se integra como gostaria à paisagem. Ele também se apaixona. E é aqui que o filme vai pingando uma tristeza difusa e romântica, acentuada por planos-sequências que poderiam ir mais longe se Fincher não se derramasse nos cacoetes de videoclipe que às vezes são mais fortes do que ele.

A fugacidade do tempo não permite a Benjamin ou a sua parceira vivenciarem a relação plenamente. A mulher em questão é a Daisy Fuller, que vimos velha no começo. Ele a conhece desde a infância, mas existe um fosso etário gigante entre ambos, que os coloca em pontos extremos. Encontros e desencontros amorosos acontecem o tempo todo e com todo mundo, mas este é um caso em que alguém ganha a vida que o outro perde, ano após ano, tornando as suas progressões completamente opostas.

É terrivelmente trágico, mas neste quesito David Fincher se sai melhor criando uma coreografia do desespero e de irredutível solidão. Os corpos tocam-se, mas as almas nunca se encontram.
O herói sente-se assim como uma uma piada de Deus.

À medida que a narrativa se desenvolve, que o suspense se intensifica, a ação adquire a forma poética de uma passagem mitológica, de uma entrada lírica dentro de um outro mundo, um duplo invertido, no qualpodemos ver em paralelo, desejos que não se concretizam, e a hipótese que seria se pudessem se realizar.

Para isso conta muito a atuação de Brad Pitt, de Cate Blanchett, de Taraji P. Henson (como a mãe postiça de Benjamin) e de Tilda Swinton (como a aventura amorosa que o protagonista conhece no porto). São quatro personagens muito distintos, mas demonstram algo em comum. Possuem um sistema ilusório que os mantém inteiros, e vendem em suas faces a imagem mental de seus sonhos, aflições e doces confusões.

O filme também é bem escrito (por Eric Roth e Robin Swicord), mantendo uma espécie de crispação permanente na troca de diálogos que se torna angustiante porque as cenas parecem que nunca vão chegar a uma resolução ou atingir um desenlace.

Esse componente perverso podia dar mais pano para manga, só que se amarra de uma forma bem clichê no final, com se fosse um comercial de cartão de crédito. Para quem sempre evitou os lugares-comuns, é de se estranhar como Fincher fecha esse postulado. O público, no entanto, deu de ombros para essa forçada de barra, se deslumbrou com a recriação meticulosa, o romantismo de bom gosto e transformou o filme num campeão de bilheteria. Hollywood também endossou a visão, concedendo uma penca de indicações ao Oscar ao filme e finalmente colocando Fincher no panteão dos queridos pela comunidade.