O Dom da Premonição

Avaliação: 3 de 5.

The Gift, 2000

Muita gente classifica esse suspense como a segunda maior roubada da carreira de Sam Raimi (a primeira foi o filme esportivo Por Amor, absolutamente pavoroso), e de fato não estão inteiramente errados. O roteiro de Billy Bob Thornton e Tom Epperson (que tinham escrito o bom Um Passo em Falso) é inepto. A trama parece juntar mais elementos do que podia desenvolver e o mistério que propõe é completamente previsível. Mas Raimi tem um elenco de primeira na mão – Cate Blanchett, Greg Kinnear, Hilary Swank –, e talvez entrou na barca, mais pela vontade de comprovar como aconteceu em Um Plano Simples, que não é apenas um mestre da câmera, da edição, da narrativa. Ele também pode ser um grande diretor de atores.

A história se passa num vilarejo da Georgia, num sul de costumes arcaicos.   Cate Blanchett faz a cartomante/vidente que gere o seu negócio em casa, e serve de centro espiritual alternativo à igreja. Ela prevê, aconselha, reconforta e dá respostas a seres mais ou menos perdidos, sejam elas mulheres violentadas pelos maridos (Hilary Swank) ou jovens traumatizados (Giovanni Ribisi). É aparentemente aceita pela comunidade (vê-se pelo modo como se integra nas festas e na vida social local, ou ainda pela relação com o professor interpretado por Greg Kinnear). Contudo,  há sinais – de alguma desconfiança, representado pelo violento personagem de Keanu Reeves,  que a chama “bruxa” e se auto-define como um “bom cristão”.

Durante a primeira meia hora, o filme parece se encaminhar para um retrato de grupo, um filme sobre o calor e as contradições do sul, estruturado sobre pequenos dramas do cotidiano. Depois, subitamente, a noiva do professor vivido por Greg Kinnear, desaparece, e “O Dom da Premonição” passa a girar em torna da investigação deste sumiço.

A polícia não encontra- evidências de um crime, mas as visões de Cate Blanchett, que até aí pareciam ser apenas um condimento bizarro relativamente marginal no tecido narrativo do filme, tornam-se essenciais à trama. Segundo ela, a jovem foi assassinada, e é só uma questão de tempo para descobrir onde o corpo foi jogado. Ela só se esquece de um detalhe: o assassino pertence a comunidade, e talvez esteja bem próximo dela, só esperando para ver se realmente o tal dom dela é autêntico.

A maior surpresa do filme é a falta de jogo de cintura do argumento: sem horror, sem suspense, sem imaginação, sem surpresas, sem vitalidade. A máquina emperra e Raimi bem que tenta salvar os atores. Em vão.  Keanu Reeves, Giovanni Ribisi, Hilary Swank, todos carregam demais na intepretação. Seus personagens beiram o caricato. Sobra Greg Kinnear e especialmente Cate Blanchet. Cate demonstra a técnica e a segurança de colocar nas telas as emoções fluídas e não inteiramente articuladas de sua personagem. É uma vitória muito particular, para um filme que devia primar pelo conjunto.