Homem-Aranha

Avaliação: 4 de 5.

Spider Man, 2002

Um filme que felizmente não se sustenta apenas como a adaptação da história do célebre herói da Marvel, dirigida a satisfação dos inúmeros fãs de HQs. É um trabalho de impressionante beleza, em que cenários elaborados, gerados por computador, se misturam perfeitamente com a vertigem real de atores pendurados por cabos. Há algo da arte circense aqui, da aflição dos saltos mortais dos trapezistas que maravilhavam crianças de outrora. Muitas cenas são virtuais? Claro que são, mas o prazer para Raimi reside em conjugar as duas coisas com um espírito brincalhão, evocando um ilusionismo perdido, do tipo que um Georges Méliès um dia almejou.

O que se destacava nos filmes de Méliès era o prazer de criar a ilusão, ea diversão marota de experimentar  as trucagens. A maioria das produções da época eram, na verdade, experimentais, para simplesmente testar a câmera, observar como funcionava o processo de filmagem. Algo que, se olharmos para a carreira inteira de Raimi, veremos as semelhanças.

Neste primeiro Homem-Aranha, esse pretexto está muito bem disfarçado nas cenas de ação. Na forma como Raimi testa a spidercam, uma câmera interligada a um sistema de cabos 3D, que permite fazer tomadas de movimento em quatro linhas de direção. Os esforços não têm nada de discretos. O mago dos efeitos John Dykstra parou as principais ruas de Manhattan para montar entre os arranha-céus a engenhoca voadora. O ponto de vista com as rasantes sobre os edifícios, portanto, são reais.

O único artificialismo de cena ocorre no trecho em que Peter Parker escala prédios a primeira vez e corre até a escola pulando edifícios, seqüência que Raimi se apressou em responder que foi sua homenagem proposital as HQs. De fato, captar o espírito do original, é uma questão ao qual Raimi lida com grande afeição.

Mas esta não é a melhor lição de Homem-Aranha. Ewan McGregor e Samuel L. Jackson estão aí para mostrar a dificuldade que existe em contracenar com uma tela azul. Ian McKellen e Elijah Wood lidaram de forma mais natural em O Senhor dos Anéis, mas o ilusionismo ainda precisava de pequenos retoques. Afinal, a imaginação do ator tem que estar em sintonia com a visão do diretor que, por sua vez, está sendo compartilhada com a equipe de efeitos num processo cujo fim está sujeito ao deslize. O desafio de combinar a técnica dos efeitos com a arte dramática, no fundo sempre foi perseguido por Raimi. Na primeira fase de sua carreira, ele utilizou seu conhecimento em mecânica para desenhar pessoalmente artefatos que, combinados à câmera, produziam efeitos inusitados de enquadramento (vide a trilogia Evil Dead). Em contrapartida, os dois filmes anteriores do diretor, Um Plano Simples e O Dom da Premonição eram funcionais estudos de personagens.

Assim não surpreende o empenho do diretor em submeter nomes como Tobey Maguire para viver Peter Parker/ Homem-Aranha e Willem Dafoe para o Duende Verde. Para Hollywood, Dafoe era considerado alguém que já tinha passado sua melhor fase, e Maguire não era exatamente o primeiro nome que vinha à cabeça quando os executivos pensavam em super-heróis. O ator parecia não ter físico, nem altura (ele tem 1,72 metro e pesa 63 quilos). Houve pressão da direção da Sony, que preferia especular sobre nomes como Jude Law, Chris O’Donnell e Freddie Prinze Jr. – atores de um tipo bem talhado para viver o Aranha. Raimi, bateu o pé, dizendo que Tobey tinha mais a ver com a essência moleque do personagem.

O estúdio insistiu para que Maguire fizesse um teste. O primeiro foi considerado fraco, exigiram um segundo, desta vez com Maguire usando um enchimento para simular musculatura. Finalmente, ele passou.

O caminho de Dafoe acabou facilitado depois que ele foi indicado para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por A Sombra do Vampiro.

A trajetória dos personagens de Maguire e Dafoe são seguidas pela câmera de Raimi em paralelo. Pequenos gestos, tiques, medos. Um se espelha no outro e o que difere ambos são os rumos que decidem seguir. Quando o embate destes dois seres de carne e osso acontece, o terreno digital funciona apenas como decoração, porque a aflição do salto de malabaristas já ganhou a densidade e o perigo da vida.

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