O Homem que Matou o Facínora

Avaliação: 5 de 5.

The Man Who Shot Liberty Valance (1962)

John Ford fez todos os tipos de filmes, mas ele continuou circulando ao redor dos westerns. Talvez porque tenha encontrado mais a dizer com o gênero, e encontrado mais maneiras de se expressar através dele. O Homem que Matou o Facínora não parece com nenhum outro western do cineasta. Aqui ele retorna à fotografia em preto e branco, a um drama psicológico mais íntimo, cheio de cenas filmadas em interiores. A escolha combina com o material, um estudo em contrastes entre dois homens tentando trazer justiça ao Velho Oeste: Ranse Stoddard (James Stewart) é um advogado idealista, e Tom Doniphon (John Wayne), um pequeno fazendeiro durão. Ambos se encontram em desacordo com os barões do gado locais que contratam o pistoleiro Liberty Valance (Lee Marvin) para evitar as tentativas de Stoddard de legitimar as leis na cidade.

A maestria de Ford aqui reside em como ele organiza seus personagens dentro da moldura para refletir a dinâmica do poder e para sugerir que um equilíbrio está mudando. No caso, o império da força está dando lugar ao império da lei e uma estrutura de vida muito mais complexa está surgindo. Neste cenário, será que um homem precisa portar uma arma para expressar uma opinião?

Liberty Valance aposta que sim e Tom Doniphon não vê outra forma. Acontece que ambos são parte do mesmo código, e esse mundo tem que ficar para trás, para o nascimento de um novo modelo. O advogado Stoddard bem que percebe que o amigo Doniphon será tragado por esse progresso que chega, mas a questão de princípios e de honra divergem , e embora exista o respeito, a relação de amizade é muito tortuosa, e envolve inclusive o mesmo interesse amoroso (Vera Miles).

O que é admirável neste O Homem que Matou o Facínora é como a arquitetura da trama soa enganosamente simples. A história parece seguir uma progressão tradicional, sem torções espaciais, existenciais ou políticas, mas, elas estão todas embutidas em subcamadas lá.  É o máximo em depuração. Ford discute o papel de uma imprensa livre, a função de uma assembleia municipal, o debate sobre o Estado, a influência civilizadora da educação e, de uma forma mais melancólica, o cineasta ainda reflete sobre como as histórias que moldam nossa compreensão acabam sendo escritas, e como as pessoas são amargamente esquecidas neste processo.