O Informante

Avaliação: 5 de 5.

The Insider, 1999

Não é todo dia que alguém faz um filme como O Informante. Isto é, não é todo dia que alguém se dispõe a discutir a complexidade da ética jornalística num mundo regido por acordos e megafusões de grandes conglomerados. Mas Michael Mann sabe do que fala. Muito antes de virar o estilista de filmes como Miami Vice ou Fogo contra Fogo, ele trabalhou na equipe de jornalismo da NBC. Quando estourou os distúrbios estudantis entre maio e junho de 1968, ele e sua câmera estavam lá.

Foi uma era de idealismo combativo que deixou não só boas lembranças, mas grandes amigos, como o jornalista Lowell Bergman. Nos anos 1960, Mann e Bergman eram dois jovens idealistas que debatiam a importância da imagem e os rumos do cinema: documentário e realismo das ruas ou formalismo e voos da imaginação?

Mann disse que distinguia bem as duas coisas, mas não conseguia separá-las mais em seu trabalho; já para Bergman, o realismo era tudo. E cada qual, coerente, acabou seguindo a vertente em que acreditava.

Trinta anos depois, os caminhos dos dois se cruzaram. Bergman, como produtor do programa jornalístico 60 minutos, contou a Mann histórias de bastidores que ele preferia que fossem ficção, mas eram terrivelmente reais e ele estava profundamente desencantado. A maior desses casos era o que envolvia um alto executivo, Jeffrey Wigand, denunciando segredos da indústria do tabaco, que poderiam alterar (como de fato alteraram) a forma como o governo e o judiciário passariam a combater os malefícios do fumo. Na ocasião, a indústria do cigarro, que tinha a seu serviço os maiores advogados dos EUA, fez imensa pressão contra a CBS, ameaçando um processo de bilhões de dólares caso a emissora exibisse a entrevista com as revelações de Wigand. Estrategicamente, a cadeia de TV decidiu não transmitir.

É justamente sobre o que essa resolução provocou que  trata O Informante.

É o filme mais rigorosamente político de Mann. Não apenas reflete as transformações da sociedade norte-americana, mas dramatiza os dilemas do liberalismo, condena o corporativismo e discute o papel ético do jornalismo na atualidade. Tudo de forma vigorosa. .

Al Pacino, ou melhor, o personagem Lowell Bergman, passa os dez primeiros minutos do filme com o rosto vendado. Está em Beirute, preparando o terreno para a entrevista bombástica do âncora do 60 minutos, Mike Wallace (Christopher Plummer), com o líder do movimento de resistência islâmica Hamas, o sheik Fadlallah (Clifford Curtis), mas terá que concordar com certas prescrições. Daí os homens armados e a venda nos olhosQuando o jornalista fica frente a frente com o sheik esse menospreza tanto os americanos, que não concede a Bergman nem o direito de tirar a venda. A conversa será no escuro.

O jornalista, contudo, não se intimida.  Quando se dirige a Fadlallah, fala justamente sobre a importância de mostrar o rosto. “A causa pela qual vocês lutam”, diz, “ é completamente ignorada na América por culpa de vocês mesmos, que não mostram sequer suas caras. O jornalismo que fazemos é um dos mais sérios e respeitados da TV, vocês terão a chance de mostrar quem são, o que defendem e porque defendem”.

Fadlallah pensa uns segundos e agenda a entrevista.

Quando o jornalista faz a pergunta seguinte, já não existe mais ninguém no esconderijo. Como num passe de mágica, o sheik sumiu e também não há mais sinal dos soldados.

O sentido de que repentinamente um mundo escapa das mãos já dá dimensão do que virá a seguir. Em todos os filmes de Mann é assim. Debaixo da superfície, há várias camadas de entendimento a serem revolvidas. Uma delas, talvez a mais sutil parte na oposição que existe entre o que é de ordem objetiva e o que é de ordem subjetiva. O objetivo é o que você vê, o subjetivo é o que você pensa estar vendo. E num filme como O Informante, cujo desafio é defender a verdade, veremos grupos deturpando essa sutileza em vários ocasiões..

Mesmo com o sheik brincando de cabra-cega com Bergman e sumindo no meio da brincadeira, o americano se comporta como se tivesse o controle da situação. Aliás, a confiança jornalística da equipe do 60 minutos, é tão plena que eles acham que podem chutar qualquer porta. Da mesma forma que conseguem entrevistar e tirar uma verdade de um líder do terror islâmico, porque seria diferente denunciar a indústria do tabaco por práticas ardilosas?

Deste perfeito exemplo de convicção em Beirute, Mann passa para a história íntima Jeffrey Wigand (Russell Crowe) na sede da gigante dos cigarros Brown & Williamson em Nova York. Wigand guarda seus pertences em sua maleta, enquanto observa do outro lado de uma divisa de vidro, um alegre panorama: os colegas se confraternizam numa festa. A câmera passa de um lado para o outro da divisa. Na sala de Wigand, paira uma melancolia silenciosa, do outro lado, uma festividade que ressoa a todo volume. Paredes que separam duas realidades; Mann já explorava essa idéia visual em Fogo contra Fogo, mas é aqui que ela ganha corpo e se contextualiza com uma ambiguidade mais forte: afinal, quem está dentro e quem está fora do esquema?

O trágico na história de Wigand é que ele parece ser o cara que nunca se enquadra. Não se adequa dentro da Brown & Williamson, não se adequa ao lar (e Mann perversamente mostra ele sempre admirando a esposa, Diane Venora, de longe) e muito menos se sente à vontade com os jornalistas do 60 Minutos. No momento da bombástica entrevista, Bergman se encontra com Wigand (no esquema visual de Mann) dentro de um labirinto de paredes de vidro e cabines isoladas – os estúdios de televisão se prestam maravilhosamente a essa ideia. E a sensação de que o homem está completamente ilhado se configura abertamente. As luzes se ascendem, três câmeras são apontadas para ele, e não há mais como se esconder. Por questão de princípios, Wigand segue em frente.

Revela que as indústrias sempre se valeram de componentes químicos no cigarro para aumentar a dependência, mas naquele período (meados dos anos 1990) adicionavam acumarina, um elemento venenoso na fórmula. E mesmo com testes indicando os danos do produto a saúde, o elemento não foi substituído.

A história gerou bate-bocas entre os manda-chuvas da Brown & Williamson e Wigand e foi por isso que ele foi tirado do esquema. Depois tentaram manter a boca dele fechada, fazendo-o assinar um acordo de confiabilidade em troca de uma indenização, plano de saúde para a família. Só não calculavam que o temperamento intempestivo do ex-executivo, somado ao idealismo, pudessem ser jogados contra a própria indústria.

A entrevista é editada, advogados da causa antitabagista aproveitam para usar Wigand como testemunha-chave de um processo, o maior caso de conduta ilegal corporativa da história, mas na hora de exibir o material explosivo na TV,  o programa é censurado.

A batalha que se segue envolve advogados, os meios ilícitos de que a indústria do tabaco se vale para acabar com a reputação de Wigand, e mais uma discussão ética sobre o jornalismo e os conglomerados da comunicação; Wigand põe Bergman na parede:

–Para vocês da TV, sou apenas uma mercadoria. Qualquer coisa que valha a pena pôr espremido entre os comerciais…

Bergman concorda:

– Para uma rede, talvez sejamos todos mercadorias. Mas, para mim, como jornalista, você é importante. Se falar, 30 milhões de pessoas ouvirão o que tem a dizer.  E nunca mais, nada será como antes. Acredita nisso?

Uma coisa é o que é dita, outra bem diferente é o que acontece.  Depois que a entrevista é censurada, o jornalista, observador passivo que deve ir à parte mais funda da realidade, não tem mais uma resposta para dar a Wigand. Tudo o que ele prometeu, não conseguiu cumprir, e pior, se sente responsável pela forma como expôs o entrevistado. A esposa abandonou Wingand, a Brown & Williamson move uma campanha de mídia para acabar com sua reputação, e, frente a tantas pressões, o sujeito ainda torna-se paranóico; passa a acreditar que a qualquer momento poderão matá-lo.

O Informante é um filme que provavelmente Kafka realizaria se lhe dessem uma 35 mm. É profundamente angustiante e visualmente opressivo. A sociedade liberal vai empurrado Wigand para um cercadinho e não há como escapar da triste sina.

Mann reveste essa intriga de um tratamento cinematográfico.  O diretor, que sempre adorou os exteriores, os conflitos em espaço aberto – Miami Vice, O Último dos Moicanos, Fogo contra Fogo – faz da amplidão do espaço um palco trágico. Nenhum outro filme do diretor opôs tanto o tão longe com o tão perto. Na verdade, no começo tanto para Bergman/ Pacino como Wigand/ Crowe temos big closes revelando quase os poros dos personagens. Mas conforme a intriga avança, o cenário começa a ganhar atenção, até chegar ao ponto onde tanto o personagem de Crowe quanto o jornalista vivido por Pacino ficam diminutos, como se tivessem sendo tragados pelo mesquinho mundo das corporações – dois solitários em um complexo mundo no qual os vilões são entidades fantasmagóricas, como a televisão, a própria corporação no qual Pacino trabalha. “Estou ficando sem heróis”, diz Pacino para Crowe num telefonema situado na mesma sequência.

O curioso aqui é que Bergman fica tão desencantado com tudo que se refugia num lugar longe da civilização, por isso, quando liga para Wigand, acaba tendo que entrar no mar para melhorar o sinal do seu celular e continuar a conversa. Enquanto Wigand do outro lado da linha, olha para um painel pintado com motivos medievais na parede e tem vontade de atravessá-lo. Essa sequência é uma bela metáfora visual da solidão do personagem. Por alucinação, Wigand vê o painel realmente se transformar num jardim, onde suas duas filhas lhe acenam. E no íntimo, perpassa uma melancolia terrível, porque para ele não há apenas a dor da separação da família, há o infinito que se abre como um poço sem fundo. Em suma, a imagem de Pacino entrando na água e sendo engolido pelo mar, enquanto Crowe é engolido pelas paredes do seu apartamento dão a dimensão de grandiosidade da batalha travada pelos personagens e também dimensionam a insignificância deles no mundo contemporâneo.

Enfim, é uma tristeza para esses dois homens, uma desolação numa aurora que não traz redenção alguma. 

Só o cinema tem a capacidade de contextualizar algo assim. E só um diretor com um tremendo senso de inquietação criativa como Michael Mann para tirar proveito desta ideia.