O Poder da Mulher

Avaliação: 5 de 5.

Westward the Women, 1951

William Wellman tentou convencer Barbara Stanwick a estrelar “O Poder da Mulher”, porque achou que o ajudaria a controlar seu elenco de 150 atrizes. Desembaraçada, incandescente, ela já trabalhara com o cineasta em filmes distintos como “A Voz da Consciência”, “A Morte Dirige o Espetáculo” e “Até Que a Morte Nos Separe”. Não deu certo e ele se viu à frente daquele curioso congestionamento de carroças, conduzidas por garotas temperamentais que depois de submetidas a um treinamento militar, comandado por ele próprio, colocaram a caravana na estrada. O filme era inspirado numa ideia que o amigo Frank Capra guardou por muito tempo, baseado num episódio verídico sobre a saga de mulheres imigrantes que atravessaram o país para se casar com um bando de vaqueiros. O espírito comunitário dos pioneiros casava perfeitamente com a história dos heróis solidários, que Capra inventou para filmes como “Adorável Vagabundo” e “A Felicidade Não se Compra”, mas curiosamente ele não se achava um diretor apropriado para o gênero western. O projeto foi comprado pelo produtor Dore Schary e nas mãos do diretor William Wellman virou um excelente filme.

            Se o simples convívio com os cowboys deixam as mulheres marcadas, o que dizer de um grupo de garotas que atravessavam as trilhas mais espinhosas da América na esperança de formar família com desconhecidos? Em “O Poder é a Mulher”, a Terra Prometida é o Whitman’s Valley, império construído no decorrer de uma vida por um colono simplório (John McIntire). A região é isolada, a presença feminina é rara e a morte de seu fundador ameaça secar as sementes e tornar a terra novamente inóspita. Whitman quer ver a civilização florescer em seu vale. É assim que contrata o desempregado Buck Wyatt (Robert Taylor) para trazer a tal caravana de mulheres. Buck reúne um grupo de senhoras, a maioria imigrantes recém-chegadas, e as prepara para as ameaças do território hostil: sol, chuva, índios. Com um material  desses, bastaria seguir a exuberante cadência hollywoodiana, estruturando a viagem das garotas num épico operístico. Wellman, contudo, perfaz o caminho inverso. Roda o filme em preto e branco e impinge à via sacra uma estrutura documental num cenário pontilhado de cactos e arbustos retorcidos.

            Ao som dos chicotes e do ranger das carroças, o deserto se revela gradualmente abrasador. As imigrantes percorrem essa trilha como a mais dolorosa das provações. Os rostos devastados, machucados, distorcidos. Rangem os dentes, mas a impaciência e a intolerância é domada a tiros. Essas bravas senhoras tornam-se cúmplices da tirania de Buck, seja quando ele promete espancar qualquer uma que saia da linha, seja quando ele mata um cowboy que tentou estuprar uma delas. O contato com a esmagadora indiferença da natureza faz com que a francesa Fifi Danon (Denise Darcel) se desespere. Ela foge e Buck a persegue com a obstinação de um laçador de novilhos. Encurralada num canyon, a mulher o enfrenta. Buck lhe dá um tapa de mãos molhadas. Fifi tenta revidar, mas as coisas acontecem muito rápido e um beijo febril sela o destino do casal.

            A cena parece vir de encontro com a máxima nelsonrodriguiana, que afirma, de forma politicamente incorreta, a brutalidade como algo que, às vezes, pode ser atraente para as mulheres. As feministas de hoje podem (e devem) se ofender com esse raciocínio. Mas é de um tempo rude, e de uma vida de dois séculos atrás que Wellman está retratando. Talvez não haja volta para o tipo de vida que Fifi encontrou no Oeste e isso a assusta. Acontece com os heróis e as mocinhas de todos os filmes do diretor. Esses dois mundos se entrelaçam, interagem numa simbiose selvagem. As contra-indicações da vida de uma subclasse que empurra as paredes sociais para aparecer já fora escandalosamente revelada em “O Inimigo Público”, no famoso trecho em que o grosseiro James Cagney espreme uma graipfruit no rosto de Jean Harlow. Não há muita diferença entre o Cagney de “O Inimigo Público” e o Robert Taylor de “O Poder é a Mulher”, a não ser no fato do primeiro ser um gângster cruel e o segundo ser um vaqueiro bruto. Os dois filmes pedem um herói, mas todas as características do anti-herói estão expressamente reunidas e isso causa uma impressão desagradável. Não adianta dizer que Buck se tornou um tirano pela necessidade de preservar o comboio de 150 mulheres, tão preciosos para os cowboys quanto o ouro. A brutalidade nasce do ambiente. 

            Como em Ford, em Walsh, a obra de Wellman é moldada por esses seres incorrigíveis, que não aceitam ser escravas de um amor. Buck, no final, vive os mesmos conflitos que os outros cowboys, desconcertados diante da força da personalidade do grupo de mulheres, persistindo sobre as adversidades até finalmente conquistarem o seu espaço. O baile dos cowboys mais tarde embeleza por um instante o ambiente propício para erguer uma nova civilização.