O Preço de Um Homem

Avaliação: 5 de 5.

The Naked Spur, 1953

Quando ouvimos a música-tema de filmes como “Da Terra Nascem os Homens” ou “Sete Homens e Um Destino”, mesmo que não estejamos familiarizados com o que estamos pra ver, a trilha já estabelece que só pode ser um filme de cowboy. O tema de Bronislau Kaper para esse O Preço de Um Homem definitivamente sugere que veremos algo mais inquietante, talvez um filme de suspense ou de gângster.

Sombrio, escuro e em becos estreitos?

Não, feito a luz do dia e em espaços bem abertos.

Anthony Mann adorava surpreender os espectadores dos westerns dos anos 50 com notas dissonantes como essa. A gente nunca tem muito claro qual será o rumo do cowboy nos filmes do diretor. Mais sutil ainda, até o jeito como os cowboys respiram é diferente no cinema de Mann

Tomamos a cena inicial. James Stewart chega sorrateiro numa clareira e quase mata pelas costas, um velho mineiro que está fritando salsichas. A conversa que se segue mostra como os dois homens são cautelosos, comedidos na respiração. Eles se observam, se estudam, antes de realmente sentarem para comer juntos. É impressionante como Mann tem consciência de criar um espaço único.

A beleza da mise en scène tem muito a ver como o cineasta movimenta esses homens em cena, mas tem a ver também com a forma como ele enquadra seu elenco com a natureza atrás. Para esse filme, o diretor levou equipe e elenco para as florestas de Durango e Rocky Mountains, no Colorado, e ficaram 40 dias dormindo em barracas. O filme é 95% feito de externas (a única cena interior é dentro de uma caverna), com suas montanhas e formações rochosas sugerindo os perigos de sobreviver em ambiente selvagem e frio.

Stewart, ou melhor seu personagem, Howard Kemp, sente a dificuldade do território, se identifica como xerife e oferece 20 dólares para o veterano cozinheiro (Millard Mitchell) ajudá-lo a encontrar um assassino que se esconde nas montanhas. O cenário, as cordilheiras, mantém-se imponentes para a diminuta dupla, comprovando que não será uma busca fácil, mas o velho aceita o dinheiro. Mais a frente, os dois quase serão soterrados por uma avalanche. O desconhecido se impõe mais uma vez, primeiro por que eles não tem certeza de que as rochas desceram num movimento acidental. Talvez, a avalanche tenha sido provocada. E segundo por que aparece um novo personagem, um oficial do exército (Ralph Meeker), que se dispõe a ajudá-los.

Agindo juntos, esses três homens, aparentemente solidários, capturam o pistoleiro Ben Vandergroat (Robert Ryan).

Só então torna-se evidente que Kemp não é um xerife, como levou os outros dois a pensarem. Ele é de fato um caçador de recompensas, que está lá para capturar o assassino por causa de uma soma de 5 mil dólares. Essa virada de jogo é capital para entender o tamanho da ambição de Mann.

 À medida que o filme progride, vemos Stewart se tornar cada vez menos confiável em suas intenções – além de mentir sobre a recompensa, ele ameaça matar o bandido, caso o sujeito revele mais sobre seu passado. O que Howard Kemp teria feito que ele precisa tanto esconder?

Claro que o diabólico Robert Ryan dará um jeito de usar esse segredo para envenenar os outros. “Pensem, ele diz, Kemp não vai dividir a recompensa com vocês, ele precisa da soma completa para cumprir seus planos. Então assim que puder, ele vai alvejar vocês dois pelas costas”.

O filme é um estudo requintado das relações de caráter, cinismo e traição com a beleza cênica adicional de uma pintura. Quando eles levam Vandergroat, há uma surpresa, o pistoleiro estava acompanhado de uma jovem iludida. Lina Patch (Janet Leigh) acabou de ficar órfã do pai, e acha que o bandido pode substituir o amor que perdeu.

Doce ilusão. O jogo da vida é embaralhado pelas mãos dos dois roteiristas (Sam Rolfe, Harold Jack Brown), que por acaso concorreram ao Oscar daquele ano.

 Assim como Stewart flerta com uma natureza vil, Robert Ryan confunde o espectador vivendo um sujeito risonho, que parece simpático demais para realmente ter cometido qualquer crime.

Aliás, como em “E o Sangue Semeou a Terra”, as desconfianças começam pelas motivações de Kemp e Vandergroat, e se expandem, quando descobrimos que o oficial do exército prestativo também está mentindo sobre seu passado. Além de ter sido expulso do exército por comportamento instável, ele está sendo perseguido por um bando de índios, os blackfeet, por uma razão que torna uma tribo de índole inofensiva, num perigo: o tenente entrou em terreno sagrado e assediou uma índia.

O resultado é que o grupo acaba tendo que literalmente massacrar os índios por uma questão que só dizia respeito ao tenente. Poucos westerns na história se arriscaram a expor seus personagens ao ridículo e a vergonha como acontece nesse. Pois aqui, as relações tentam ser falseadas, mas o egoísta, o paranóico, o torpe estão iluminados pelo sol a pino.  Nos westerns de Mann não existe ninguém como os personagens maniqueístas de “Os Brutos Também Amam”. Chega um ponto em que o velho mineiro vira sua espingarda para todos e desabafa: “Ah, eu não sei mais para onde apontar isso!”

Em um contexto tão flutuante, o papel da mulher – uma órfã mal-humorada (Janet Leigh) que Robert Ryan leva a reboque – é representar tudo o que resta da civilização, um valor que também é propenso a mudar à medida que a lealdade e os perfis éticos mudam.

Mann revela uma capacidade para o discernimento sutil das causas e das consequências dos dramas humanos que vamos rever em outros westerns dele, mas nem sempre com a mesma acuidade que obtém neste. É por isso que o Preço de Um Homem mantém, para mim, uma posição de destaque dentro do gênero, se posicionando entre os 20 melhores já realizados na história.