O Rei da Comédia

Avaliação: 4.5 de 5.

The King of Comedy (1982)

Para apreciar melhor um filme como O Rei da Comédia, antes de tudo é importante entender o contexto em que ele foi feito. A primeira obra de Scorsese dos anos 1980 foi Touro Indomável, ainda considerado por muitos como seu maior momento. Mas, o filme fez apenas bilheteria modesta e apesar das oito indicações do Oscar, Touro Indomável só ganhou as estatuetas de Melhor Ator e Melhor Montagem. Em março de 1981, John Hinckley tentou assassinar o presidente Ronald Reagan, e citou seu amor por Jodie Foster em Taxi Driver de Scorsese como sua inspiração para seu crime. Na verdade, a cerimônia do Oscar de 1981, foi adiada por causa do crime, e Hinkley quando foi preso, perguntou se sua sentença também seria adiada. De repente, Scorsese, auteur de filmes pessoais refletindo seu passado pessoal e seu amor pelo cinema, foi submetido a intenso escrutínio da imprensa que o questionava sobre a relação entre celebridade e assassinato.

O Rei da Comédia havia sido escrito mais de uma década antes, por Paul Zimmerman, um crítico de cinema da Newsweek, que havia sido inspirado por um talk show no qual o apresentador David Susskind falava com colecionadores obsessivos de autógrafos. Zimmerman os via como predadores, “que cobiçavam uma assinatura de celebridades como sequestradores ou serial killers relacionados com suas vítimas, o poder de possuir outra pessoa”. Scorsese leu o roteiro e achou que era artisticamente a melhor resposta à mídia que tanto o maltratou.

Assim, o que temos com O Rei da Comédia é uma adição provocativa à obra de Scorsese.

Rupert Pupkin é visto pela primeira vez como um fã esperando na rua por um apresentador de talk show que ele idolatra, chamado Jerry Langford (Jerry Lewis). Rupert idealiza a celebridade, vê o senhor Langford como um sujeito simpático, quando na verdade o homem não só revela um mau-humor do cão, ele expressa seu desprezo pela multidão e pelos fãs. Sabemos que uma celebridade tem dificuldades de manter sua privacidade intacta e pode sofrer vários graus de invasão, mas como é a vida de um fã, obcecado por seu ídolo?

Ser um fã, ou obcecado pela fama, é realmente a vida inteira de Rupert, e ele rastreia sua presa incansavelmente, não importa quais sejam os obstáculos. Scorsese acompanha ironicamente os créditos do filme com uma gravação de ”Come Rain or Come Shine”

E então Rupert invade a limusine de Jerry Langford, ensanguentando-se ligeiramente no processo e ganhando o lenço bordado com as iniciais de Jerry como troféu. A breve conversa que ambos travam nesta sequência demonstram cordialidade de ambos os lados, Rupert revela ser um comediante em busca de uma oportunidade, e Jerry acena para a possibilidade de ajudá-lo, apesar de garantir que ascender no mundo do show business não é tarefa fácil. A conversa termina deixando o aspirante cheio de esperanças, algo que depois será gradualmente retirada de Rupert.

Quando Rupert chega como um convidado não convidado na casa do Jerry no fim de semana, a recepção gelada que ele recebe de Jerry deixa claro que a ideia de amizade não vai levá-lo a lugar nenhum. ”É assim que a gente fica quando chega ao topo?” Rupert pergunta, ao ser despejado do lugar. ”Não, se eu fosse mandaria prendê-lo”, grita Jerry. Então a mágoa do fã transforma-se em ira, e Rupert decide sequestrar Jerry. Seu plano maluco é exigir que a produção do programa, lhe dê alguns minutos para se apresentar no show de Langford para o público comprovar o seu talento. Em troca desses preciosos minutos, ele promete soltar Jerry do cativeiro.

O Rei da Comédia não tem a densidade psicológica de um Taxi Driver, possivelmente porque há menos aqui para desvendar. Mas o conteúdo da casa de Rupert fornece uma espécie de perfil psicológico dele. Seu quarto é engenhosamente equipado com recortes de papelão de Jerry Langford, Liza Minnelli e uma grande audiência rindo, para que Rupert possa cair na cadeira do apresentador e fingir que há um talk show acontecendo. Em cenas como esta, Rupert é certamente divertido, mas ele não é mais de carne e osso do que seus companheiros de papelão.

Scorsese equilibra bem o desempenho de De Niro com o de Jerry Lewis, que é todo tempo irônico, mas não dá uma risada no filme.  Seu desempenho é silencioso e tem algo de venenoso, especialmente quando ele está sendo perseguido impiedosamente ou amarrado em fita adesiva. Ele é um homem solitário, infeliz e está cansado de ter que adminstrar seu sucesso. Se Jerry não tivesse uma presença tão humana no filme, se ele fosse visto como um objeto, o público poderia ser forçado mais enfaticamente a compartilhar a obsessão de Rupert. Mas Jerry cria uma persona que deixa o público dividido.

Realmente é um grande duelo entre os dois atores. De Niro traz um grande escárnio para sua performance. Sua imitação dos maneirismos de um comediante de stand-up é estranha e complexa, porque percebe-se seu pensamento ansioso, tortuoso, cheio de ideias confusas. Quando Rupert, tentando impressionar Rita (Diahnne Abbott), deixa sua assinatura num livro de autógrafos e declara ”Todo rei precisa de uma Rainha – eu quero que você seja a minha”, De Niro toca a cena com movimentos largos acenando à mão e um sorriso comovente. Em momentos de ostentação Rupert aborda a auto-paródia, o que faz dele algo novo para De Niro. Seu trabalho em O Rei da Comédia é extremamente hábil, e ele vai longe para transmitir o que é a angústia vazia de um fã à margem do show business.

Embora muitos vejam O Rei da Comédia como um filme menos substancial de De Niro-Scorsese, o tempo só demonstra o quanto ele cada vez se revela muito particular. É engraçado e ardente e, com certeza, pavimentou o caminho para Todd Phillips fazer o “Coringa”, que foi visto em 2019 como uma nova sensação.

Na comparação, o Rei de Scorsese é muito maior. Scorsese não faz apenas um filme inteligente, elegante, com zooms atrevidos e belas fusões, ele nos arrebata com sua implacável visão da comédia humana. Além de De Niro e Jerry Lewis, Diahnne Abbott, e a alarmante Sandra Bernhard (como uma fã ainda mais louca que Rupert) parecem dar o máximo de si. E o roteiro engenhoso de Paul Zimmerman inclui uma série de sequências de fantasias que em vários momentos se entrelaçam de forma hilariante, louca e triste, tudo ao mesmo tempo.

O toque mais ultrajante da sátira do show business pode ser o sonho de Rupert de um casamento com Rita na televisão, com Jerry e Dr. Joyce Brothers como testemunhas e um juiz de paz que diz: ”Voltaremos para casar com eles depois de um minuto de comercial”. Claro, isso realmente acontece nos Reality Shows de hoje. O território que O Rei da Comédia explora é um reino onde a verdade realmente é mais estranha que a ficção.

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