O Rio da Aventura

Avaliação: 4.5 de 5.

The Big Sky, 1952

Em “O Rio da Aventura”, de Howard Hawks, mais uma vez temos a história de uma amizade – entre Jim Deakins (Kirk Douglas) e Boone Caudell (Dewney Martin) – , que será colocada a prova. E nenhum obstáculo será tão perigoso quanto uma bela garota. Uma cantora francesa, fareja a fidelidade dos parceiros à distância quando diz que “os corações dos amigos não estão tão vazios como seus copos”, e reafirma a amizade de ambos ao concluir “que nenhuma mulher de passagem conseguirá passar pelo meio deles”. Mas a segunda mulher que aparece para eles, uma bela “índia de olhos claros” (a mestiça, Elizabeth Threatt) provoca uma cadeia de eventos devastador.

A lealdade é tão vital no cinema de Hawks, que ele liquida a possibilidade do duelo, neutralizando a virilidade do herói no meio do filme. Na briga para ter o coração da selvagem, os amigos mergulham numa corredeira para salvá-la. Jim/ Douglas esmaga o dedo numa pedra e enquanto se contorce de dor, Boone usufrui da vantagem para chegar mais próximo da mulher. A infecção no dedo complica, só restando ao chefe da expedição (Arthur Hunnicutt) embebedar Jim e amputar o membro.

A extração – algo absolutamente comum naquele ambiente – é feita num golpe certeiro. Se havia um elemento de desconforto na vida destes homens ela acaba nesta manobra abrupta. A maestria de Hawks reside em fazer o público aceitar essa idéia sem que pareça absurda. Diante de novas catástrofes – tempestade, ataque dos índios – nada mais vai separar os amigos. O realizador não deixa margens para a melancolia. O risco de brincar com o destino do herói é emocionante. O aventureiro sequer parece disposto a questionar suas ações, ele salta esses obstáculos. O princípio é o mesmo de “Paraíso Infernal” (Only Angels Have Wings, 1939), onde heróicos ases da aviação acompanham a agonia de morte de um rapaz estendido sobre a mesa de um bar. Depois levantam um brinde ao companheiro morto, lembrando que, se a fatalidade é parte do negócio, o melhor a fazer é saudá-la[1].


[1] Hawks zombou da morte até o fim. Bogdanovich conta que o cachorro trançava nas pernas de Hawks e constantemente ameaçava derrubar o senhor de 77 anos. O dia em que o tombo ocorreu, foi fatídico.