O Último dos Moicanos

THE LAST OF THE MOHICANS, Daniel Day-Lewis, 1992. ©20th Century-Fox Film Corporation, TM & Copyright

Avaliação: 4.5 de 5.


The Last of the Mohicans, 1992

A capacidade de síntese em O Último dos Moicanos é quase sobrenatural. Começa acelerado, a câmera no encalço de um corredor na floresta. Não sabemos se ele foge ou persegue algo. Pelas roupas e pelos cabelos compridos, parece um indígena, mas depois veremos que não. O campo de visão se amplia para revelar outros dois bravos, correndo em paralelo com o primeiro e vestidos com os mesmos trajes, esses sim, vamos descobrir serem índios. Os três estão numa caçada conjunta. Acuam o animal e o matam com um tiro preciso. Uma floresta, três personagens, um cervo, nenhum diálogo. Com esses parcos elementos Michael Mann vai abrindo um novelo, expandindo a trama. Nathaniel, o primeiro corredor é branco de olhos claros (Daniel Day Lewis) e reverencia os outros dois, moicanos genuínos, como se fossem todas partes da mesma etnia. O mundo em que vivem, no entanto, é a América embrionária do século XVII, época em que ingleses e franceses lutavam pelo domínio do território, deixando entrever a encruzilhada em que as diversas nações indígenas perplexas iriam se bater.
Mann oferece uma versão humanista do referido choque e presenteia-nos com um enredo cheio de emoção e personagens complexos, que não se distinguem pela cor.

Obviamente, é necessário compreender e aceitar como natural que nem sempre os índios responderam com paz à violência que lhe foi imposta.
O próprio índio malévolo, Magua (Wes Studi), afirma à certa altura que antes da chegada do colonizador, ele era um huroniano feliz e pacífico. Depois, se defendeu do mosquete dos europeus a base do tacape e arco e flecha. Se sobreviveu foi para ver algo pior: os colonos transformaram a planície num teatro político, onde o jogo de interesses abrangia tantas interpretações, que huronianos, moicanos, mal sabiam com quem poderiam assinar o armistício. Franceses e ingleses, em guerra, fizeram tantos conchavos , que não só provocaram atritos entre os povos , mas criaram briga até mesmo dentro da própria tribo e da própria familia.
O relato é autêntico. O original de James Fenimore Cooper foi gestado 1826, e era baseado nas memórias do pai do escritor, que foi um colono e esteve muito próximo do calor e das tensões reais, que levaram os moicanos a extinção.
Não pense, porém, que o filme se limita a fidelidade histórica; O Último dos Moicanos é, também, um belo e agradável filme de aventuras, cheio de dramas e de intrigas, de mistérios e de amores fatais.

Nathaniel e sua família moicana, por acaso, salva as duas filhas de um general inglês de uma emboscada. A mais velha, Cora Munro (Madeleine Stowe) se interessa por Nathaniel, a outra, Alice, (Johdi May) flerta com o jovem Uncas. (o mestiço Eric Schweig). A inviabilidade do romance mexe com os anseios deste quarteto. Os dois últimos se conformam com a troca dos olhares, mas os dois primeiros… Mann encadeia, sinuosamente, a história: em princípio, o personagem de Daniel Day-Lewis diz que está ali só para proteger a expedição, depois o tempo transcorre e chega o instante em que as bombas explodem lá fora, e Nathaniel e Cora se vêem a sós num canto escuro. Ele é o sujeito que não se adequa aos círculos, não é visto como igual pelos brancos, e, embora seja acolhido pelos dois moicanos como irmão, não pertence a raça. Na tradição dos westerns é um “loner”, o homem que caminha sozinho na planície.
Na confusão geopolítica do filme, Cora Munro vive uma condição parecida. Não sabe que rumo tomar. O pai é vítima do sanguinário e vingativo Magua, que lhe arranca o coração. Os ingleses são massacrados, os franceses estão longe. A América ainda está em formação, não é um país. Enfim, Cora está no território predileto de Mann. Quando Nathaniel e ela estão prestes a ser capturados pelos huronianos, no fundo de uma caverna, escondida atrás de uma cachoeira, Nathaniel a aconselha: “Não importa o que eles queiram, não importa o que eles façam, se mantenha viva!”

Os ingleses, é claro, não entenderão a forte ligação que se cria entre esses dois seres de fibra.
E Nathaniel será posto em cativeiro pelo atrevimento de beijar a filha do general. A guerra, contudo, mostrará que o romance, neste caso, é viável.

Uncas, o meio-irmão, tentará se valer do mesmo subterfúgio para ficar com Alice. Será em vão. Não por que Alice não queira – ela dá mostras de que está completamente atraída pelo moicano. Mas Magua, o guerreiro Huron, se apropria da mulher branca e a está levando para o interior da selva como saldo pelas guerras que lutou e nada ganhou.

Uncas não aceita esse destino e parte numa corrida desesperada, parecida com a do começo, para reaver Alice. Tudo no filme é simples, direto, mas intenso. As machadinhas cortam o ar e, entre o campo e o contracampo, os índios lutam à beira de um abismo. O confronto, aliás, é de uma nobreza impar. Mesmo machucados, os dois nobres guerreiros mantêm a pose quase estatual, de uma dignidade – e retidão –, vale dizer, puramente Manniana.

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