Onde os Homens São Homens

Avaliação: 5 de 5.

McCabe & Mrs. Miller, 1971

A maioria dos faroestes tradicionais são situados na planície ou no deserto amplo, com céus sempre muito azuis, em circunstâncias de conflito épico, com personagens com temperamentos ardentes. Mas o Oeste que Robert Altman nos propõe neste “Onde os Homens São Homens” é quase abstrato. A cidade parece um canteiro de obras, as ruas são enlameadas e cheia de valas, há madeira amontoada por toda parte esperando para ser usada e ergueram uma velha porta depois da escada, mas ainda não construíram a casa em volta desta porta!

O filme é inovador, a começar pela fotografia num chiaroscuro (nos interiores, o fotógrafo Vilmos Zsigmond usa fortes contrastes tonais para iluminar os atores, enquanto nos exteriores, ele fica no limite do estouro de luz), ou na forma como pontua a trilha sonora com as baladas tristes de Leonard Cohen. E a história se encadeia de forma sinuosa.  Além do trabalho, não há nada a fazer para os cowboys e mineradores além de beber, jogar e contratar os prazeres das mulheres. Warren Beatty neste cenário é John McCabe. Com os ganhos da última jogada, vê a chance de fazer um grande negócio. O plano é abrir um bordel, e pra iniciar o negócio, busca três mulheres na cidade para divertir a galera.

Constance Miller (Julie Christie) é a forasteira de passagem, que morre de rir quando vê os dragões que McCabe contratou como atração do bordel. O cowboy não acha graça, mas ela explica que ele não sabe nada sobre mulheres e diz que pode multiplicar os lucros rapidamente, se ele aceitá-la como sócia. McCabe  se nega inicialmente, e é engraçado o modo como Constance o cerca e habilmente sufoca todos os argumentos do parceiro.

E enfim, eles importam algumas mulheres mais elegantes de São Francisco e ironicamente, o bordel do senhor McCabe & da senhora Miller torna-se o lugar mais “civilizado” da cidade. As instalações viram um balneário imponente e até pintado, enquanto a igreja permanece mal acabada.

Há sempre dinheiro envolvido. Um dia um minerador chamado Bart morre, e eles o enterram. No funeral, a Sra. Miller e a viúva de Bart (Shelley Duvall) se conhecem e, á noite no bar, todos conversam sobre o destino da coitada. A viúva terá que se tornar uma puta. Ela sabe disso, a Sra. Miller sabe disso, toda a cidade sabe disso. Afinal de que outra forma ela poderia se sustentar? “É o que você estava fazendo antes com Bart”, explica a Sra. Miller, “só que agora você pode ficar com parte do dinheiro pra você mesma.”

O negócio ganha tal dimensão, que chega o dia que o chefe da mineradora se propõe a comprar o bordel. McCabe rejeita a oferta e se gaba para a Sra. Miller, cujo rosto mostra o erro que cometeu. McCabe vai à cidade para tentar reverter a oferta, mas é tarde demais para encontrar o chefe dos mineradores. Ele sabe que a companhia enviará alguém para matá-lo.

O personagem de Warren Beatty foge a regra dos filmes do gênero. Ele é um verdadeiro anti-herói. Com seu comportamento indeciso e seu modo de pensar frágil, precisa de uma parceira que o empurre pra frente e, é o que faz a astuta personagem de Julia Christie, mas às vezes nem ela consegue dar conta da estupidez do cowboy.

Altman parece bem ciente de como subverter os clichês do western (não há índios, nem bandidos e nenhum xerife aqui!) e o filme reflete de forma bem franca sobre o que realmente teria acontecido na conquista da fronteira norte-americana.

O cineasta observa profundamente esse mundo com uma indolência falsamente superficial, e não demonstra nenhuma piedade por esses seres introspectivos e de sentimentos confusos. Ao contrário, com um olhar de entomologista ele termina fazendo-os vagar sem meta nas paisagens brancas.

Nem todos vão apreciar a experiência, mas, apesar disso, “Onde os Homens São Homens” constitui, por sua intransigência, numa etapa importante, sem volta para o avanço do western contemporâneo.