Os Desajustados

The Misfitis, 1961

Avaliação: 4 de 5.

            O acaso permitiu que John Huston reunisse três mitos consagrados pelo Star System para filmar esse “Os Desajustados” (The Misfitis, 1961). Clark Gable personificara a essência do galã clássico. Por mais de uma década, Montgomery Clift desempenhara o rebelde contido, porta-voz do método do Actor’s Studio em Hollywood. Marilyn Monroe era a mais aplicada das alunas da antiga escola e mantinha sua áura de estrela ardendo. Sem que soubesse, Marilyn seria a última diva do sistema recém-falido. Por razões diversas, nenhum deles se ajustava a nova realidade, eram como as peças que não se encaixam na magnífica abertura que Saul Bass compôs para o filme. O cowboy aposentado, a ex-ninfeta e o ex-campeão de rodeios tentam esquecer o que foram, na mesma medida que os atores que os representam se debatiam para se libertar dos arquétipos a que a indústria de diversões os condenara. É essa falta de discernimento entre ficção e realidade que talvez faça com que a legião dos admiradores de “Os Desajustados” aumente a cada ano.

            O dramaturgo Arthur Miller foi buscar o protótipo do fracassado  nas ruas e o colocou no centro do palco em “A Morte do Caixeiro Viajante” e “Panorama Visto da Ponte”, mas com “Os Desajustados” nem precisou vasculhar as sarjetas. O material trágico estava à sua frente. Gaylor Langland, o cowboy que propõe aos amigos uma derradeira caçada a mustangs selvagens para vender a uma fábrica de comida para cachorros, é o próprio Clark Gable, Don Juan falido, esfregando aos mãos ansioso para viver pelo menos mais uma aventura. Enquanto Perce Howland, vaqueiro bêbado, sempre disposto a se matar no lombo de um touro, se parece muito com o Montgomery Clift que deixara as cicatrizes de um acidente consumir sua auto-estima.

            O ponto de equilíbrio destes “desajustados” é Roslyn Taber. Miller escreveu a personagem especialmente para Marilyn, então sua esposa. Roslyn é a idealização romântica do errante, o porto seguro que os cowboys passam uma vida buscando e que ás vezes morrem sem encontrar. Já no começo do filme, Roslyn revela sua descrença no homem rural. Ela viaja a Reno, uma longínqua cidadezinha de Nevada, para tratar do divórcio, mas é cobiçada por três homens da mesma linhagem que o marido (eles são Gable, Clift e Eli Wallach).

            Roslyn incomoda pelo simples fato de respirar. É inesquecível a passagem em que usa sua ginga num jogo de bate e volta enquanto um mundo devasso se reúne ao fundo para acompanhar os movimentos de seu quadril. Miller elabora a tragédia da própria esposa ao mostrar a matilha pronta para devorá-la. Marilyn lutou durante a carreira para provar que era mais que uma deusa do sexo. Mas seu impulso para transcender esta figura levou-a a sua própria crise.

            John Huston acompanhou os sobressaltos da atriz e previa o dia em que um deles seria fatal. Ela tinha reputação de indisciplinada e realmente era caprichosa a ponto de deixar a equipe esperando horas para filmar[1]. Chegava tarde diariamente e havia vezes em que seu atraso fazia um dia render menos que duas horas de filmagens. Isto foi retardando o cronograma e aumentando a tensão entre a equipe e o departamento financeiro. Havia outro agravante: como em tudo em sua volta, o casamento também desmoronava. “Presenciei umas duas humilhações que Miller sofreu, não só por parte de Marilyn, mas também da corja de parasitas que sempre a rodeava”, observa Huston em sua biografia. “E nessas ocasiões ele (Miller) se mantinha imperturbável”. Marilyn chegou ao cúmulo de abandonar o marido no deserto depois de uma briga, e se por acaso, o diretor, não entrasse naquela trilha para chegar ao set, possivelmente o desfecho seria mortal[2].

            O epitáfio de Selznick se ajustava a Marilyn e outros remanescentes do Star System e eles pareciam não se conformar com a erosão já em estágio avançado. Como Willy Loman – personagem de “A Morte do Caixeiro Viajante”, talvez o arquétipo do fracasso americano – diz, “um homem não pode sair desta vida do mesmo jeito que entrou, Bem. Ele tem que conseguir alguma coisa”. Gable sofreu um enfarte e morreu duas semanas depois do término das filmagens. “Os Desajustados” foi o último filme concluído por Marilyn também, que teve um colapso cardíaco após tomar uma dose excessiva de barbitúricos (a possibilidade de um assassinato, envolvendo os irmãos John e Bob Kennedy que teriam sidos seus amantes, nunca foi descartada). Clift seguiu o rastro dos amigos, só que sua morte ocorreu quatro anos mais tarde. Rodou outros três filmes, antes que o ex-namorado Dino, encontrasse seu corpo quarto.             Marilyn queria se livrar da imagem de sex-symbol, vivendo personagens densas, mas não havia lugar para suas considerações nos emergentes anos 60.


[1]  “Com medo de dormir e não estar no auge de sua forma no dia seguinte, Marilyn tomava uns comprimidos para dormir, e outros para acordar na manhã seguinte. “Ninguém estranhou, quando no meio das filmagens, ela sofreu um colapso nervoso e teve que ficar internada no hospital por duas semanas”, conta Huston em sua biografia.

[2] O diretor Huston menciona que Miller sequer levantava a voz para a Marilyn durante as filmagens de “Os Desajustados”. “Talvez por acreditar que os acessos da esposa eram a única defesa que mantinha sua sanidade, Miller continha-se”.