Os Imperdoáveis

(Unforgiven, 1992)

Avaliação: 5 de 5.

            Em “Os Imperdoáveis”, o foco central é o julgamento dos valores de uma prostituta e de como uma cidadezinha típica do Oeste como Big Whiskey prospera na mesma razão com que suas leis são corrompidas.

            O roteiro é ambicioso e tão rico em implicações quanto o que Peoples elaborou para “Blade Runner”. A imersão agora é num mundo de relações estranhas, de adversários e duplos, acusadores e acusados, no qual a consciência da culpa se multiplica e contagia a todos. Não há espaço sequer para o xerife, aquele mocinho idealizado, que tinha pleno controle das circunstâncias. Exercer o  direito e a lei em Big Whiskey exige concessões. Há muitos interesses em jogo e o emaranhado é extenso demais para discernir vítimas de oportunistas. O bode-expiatório de “Os Imperdoáveis” é uma prostituta. Chama-se Delilah Fitzgerald e teve o rosto retalhado pela navalha de um forasteiro, por uma razão chauvinista, tão estúpida que é contada de forma jocosa pelos próprios cowboys. A moral da “parábola” é um pênis pequeno. As amigas recorrem ao xerife. Ele prende o autor do crime. Em qualquer ação jurídica, reconstitui-se os passos do réu e suas atitudes morais, mas em “Os Imperdoáveis” essa rigidez de princípios logo é desviada. De repente o passado de queixosa torna-se mais importante, e é sua profissão que está sendo posta em cheque. O cafetão, por exemplo, conduz a defesa para seus negócios. Considera-se a vítima do maior dano, e quer a restituição pelo estrago de sua propriedade.

            – Propriedade !?, pergunta o xerife.

            – Propriedade avariada. Como se eu aleijasse um potro deste vaqueiro.

            – Quer dizer que ninguém mais vai querer trepar com ela?

            O dono do prostíbulo desenvolve sua queixa:

            – Nem pagando vão querer. Ela pode até fazer faxina, mas ninguém vai querer pagar por uma puta retalhada.

            A única certeza de “Os Imperdoáveis” está riscada a faca no rosto de Delilah. A puta com nome bíblico (referência a Dalila castradora?), é agredida porque zombou do tamanho do pênis de um cowboy. A punição do vaqueiro será decidida pelo delegado com a influência do dono do prostíbulo. O cafetão sugere a indenização: seis cavalos. Quatro para cobrir seus prejuízos, dois para sua funcionária. Acreditando estar dando uma solução conciliatória para os interessados, o xerife acata a sugestão e estabelece a pena. Mas dois cavalos não são capazes de remediar as feridas de Delilah. A sensação de impunidade remoe a prostituta e suas amigas, a ponto de reunirem suas economias para colocar um justiceiro no rastro do agressor. Encontrar um matador disposto a passar por cima do xerife, este também um ex-pistoleiro, será mais complicado. A saída é espalhar a história para a clientela, de modo que a notícia ganhe a estrada e encontre um pistoleiro desavisado.

            A revolta deste pequeno grupo é forte o suficiente para operar um banho de sangue, sem que qualquer uma delas precise sujar as mãos. Talvez sejam raros os casos de prostitutas exercendo o domínio das cidades, como os barões do gado do passado, mas é possível imaginar a influência que tinham sobre corações e mentes. A babilônia americana nunca escondeu seu fascínio por essa forma de delinquência, mas elas se legitimava em gêneros afeitos a subversão, e o western aqui se mostrou um deles.

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