Os Infiltrados

Avaliação: 4 de 5.

The Departed (2006)

O católico Scorsese – aquele que disse em “Caminhos Perigosos”, que em seu bairro, só havia duas alternativas vocacionais: o crime ou a Igreja – abre “Os Infiltrados” com a imagem de um velho mafioso. Ele é Frank Costello (Jack Nicholson), um chefão irlandês daqueles que não elevam a voz, mas cujas emoções enervando debaixo da superfície, ameaçam explodir seu comedimento. E esse tubarão do crime arranca com uma frase antológica: “Eu não quero ser produto do meio ambiente. Quero que o meio ambiente seja um produto meu”.

A ação situa-se no início dos anos 1980, altura em que Costello decide adotar como protegido Colin Sullivan (Matt Damon). Mas não pense que há algo de altruístico neste apadrinhamento; a idéia é criar um elo com alguém que no futuro lhe possa ser útil. Assim, o protegido cresce e, depois de um percurso acadêmico brilhante, entra para a polícia, onde se forma com louvor e conquista um lugar de destaque, tornando-se assim o informante perfeito para o chefão. Uma verdadeira cobra no paraíso.

Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) é o seu contraponto. Ele também estudou na Academia de polícia. E poderia ser um colega de classe de Sullivan. Mas seu sonho de se formar policial cai por terra, quando descobrem uma certa “ascendência” dele com a máfia irlandesa. O moleque é imediatamente encostado na parede pelo sargento Dignam (Mark Wahlberg) e convencido pelo capitão Oliver (Martin Sheen), a se infiltrar na gangue de Costello. É uma ironia, porque Billy terá que regressar às ruas de onde tinha fugido, mas agora em missão de serviço.

Ou seja, em cinco minutos Scorsese nos coloca num universo obsessivo onde o bem e o mal se misturam até já não ser possível distingui-los. No filme original de Hong Kong, Infernal Affairs (que saiu no Brasil com o título “Conflitos Internos”), o mote era parecido. Mas aquela era uma aventura mais próxima da tradição dos filmes de John Woo, com tiroteios espalhafatosos. Com Scorsese a coisa fica mais discreta, sussurrada e real. Aliás, o indivíduo que serve de base à construção do personagem Frank Costello é um mafioso verdadeiro, o irlandês, Whitey Bulger.

Claro, no vocabulário requintado criado por Scorsese nunca passa em branco os códigos particulares dos mafiosos. Ele tem um interesse quase antropológico por isso. Conheceu e conviveu com homens deste tipo em sua infância e adolescência. Adora reproduzir os seus trejeitos, que oscilam entre o cômico e o patético nas telas. O curioso é que ele deixa Jack Nicholson livre aqui para criar um bandido muito intuitivo. Um sujeito que preza seus homens pela fidelidade quase xiita e está constantemente os testando. Assim ele se aproxima do novato Billy, circula em volta dele, observa a reação de cada músculo, literalmente o cheira enquanto decide se inclui o moço na quadrilha. Chega mesmo a serrar o gesso no braço de Billy para saber se existe uma fratura ali.

A tensão diária que o personagem de Billy/Di Caprio enfrenta no submundo é inversamente proporcional ao prazer com que o personagem de Damon ascende profissionalmente dentro dos escritórios da polícia. Ambos aprendem a embrutecer seus sentimentos de uma forma que deixa a psicóloga da polícia, Madolyn (Vera Farmiga) intrigada.

De Sullivan/ Damon, Madolyn se torna mulher; de Billy vira amante. O primeiro é muito bom em apagar seus sinais de origem, mas do segundo ela consegue descascar as camadas que o revolvem até expor seu coração cru. Às tantas, Billy conta à médica como é passar o dia-a-dia ao lado de um psicopata: “Seu coração bate a mil por hora, morrendo de medo, mas suas mãos nunca tremem. Porque se tremerem, ah, se tremerem…”

É a melhor descrição para “Os Infiltrados”, um filme onde a aparência calma fica acima da pele, porque abaixo, as entranhas revolvem-se e os conflitos se sobrepõem. É um pouco o espelho do próprio Scorsese, um velhote que aparenta a tranqüilidade dos seus setenta anos, mas que fala a uma velocidade estonteante, como se tivesse a energia de um adolescente.

Durante duas horas e meia há de tudo ali: cambalhotas à frente e à retaguarda do argumento, relações imprevistas, tiroteios, ajustes de contas, transações de drogas, conspirações internas. E no meio, Matt Damon e DiCaprio num autêntico jogo de espelhos, reverso de uma mesma medalha, pólos opostos, extremos que se tocam, Bem e Mal indissociáveis e inseparáveis (repare inclusive como no útero artístico de Scorsese eles parecem quase gêmeos univitelinos).

“Os Infiltrados” traz ainda à memória a essência do cinema noir, porque tudo parece estar apodrecendo aqui e são poucos os que se batem para não apodrecer junto.

Em essência, o que tanto Billy como Sullivan procuram é a redenção possível de uma culpa que transportam, mas não podem expiar. Como quem diz, os criminosos somos todos nós – ninguém é inocente, ninguém é mesmo puro (no que se prolonga o retorno às origens brutais e primitivas da civilização americana vistas em “Gangues de Nova York”).

O cinema de Scorsese é assim. Remete a essas almas torturadas do passado e do presente, de gente que nunca obterá a salvação. E com “Os Infiltrados”, o diretor nos compele a acender uma vela para todos.

Amém.

Clique aqui pra você saber em que canais de streaming Os Infiltrados está disponível.