Os Oito Odiados

Avaliação: 4.5 de 5.

The Hateful Eight (2015)

Tarantino saiu de Django Livre, um western solar e sarcástico, com horizontes largos de paisagem, para Os Oito Odiados, um western com características desagradáveis, clima tétrico, confinado a um saloon. Não que falte ironia em Os Oito Odiados, a criatividade de Tarantino se mantém intacta, mas o filme é feito em um estado de melancolia e desesperança da primeira à última cena. O crítico José Geraldo Couto[1] chama o filme de réquiem dos faroestes. Também. Mas Os Oito Odiados abre perspectivas. Pode ser visto como um western grand guignol[2] , como uma pequena peça de câmera que flerta com o Teatro do Absurdo, como uma alegoria política do atual estado das coisas na América, enfim, parece uma brinquedo tridimensional, que conforme você vira, tem novas leituras e novas combinações.

Tristes aqueles que vivem apenas do que faz sentido, tristes também os que nos filmes só buscam uma lógica sequencial. Tarantino é um realizador tão fascinante quanto perturbador, tão inquietante como comovedor. Se aqui ele agarra o western e todos os seus códigos de gênero mais uma vez, é para fazer um filme diferente de tudo o que já fez.

A diferença já pode ser sentida na estrutura e na composição. Os Oito Odiados parece concebido por um roteirista noturno, cuja obra nasce das horas em que não consegue dormir por conta das sensações de pavor. Temos em cena a imagem de um fim de mundo com saída demarcada. O último sinal humano na fronteira é um Cristo crucificado espetado na neve. Dali para a frente o que veremos é o inferno.

Uma tempestade se anuncia ao fundo e a frente uma diligência vem a toda velocidade em direção à câmera. O cocheiro se apressa, tentando escapar da nevasca. Uma figura negra, sentada sobre os cadáveres de três homens, obstrui a estrada. O homem é um caçador de recompensas, o major Marquis Warren (Samuel L Jackson). Perdeu o cavalo e deve morrer congelado se o cocheiro não o deixar se acomodar na diligência. Acontece que o transporte é particular. A diligência foi contratada pelo implacável John Ruth (Kurt Russell), um caçador de recompensas, conhecido como o “Carrasco”, para conduzir uma proscrita temível, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), ao seu destino. John é conhecido como “Carrasco” por não deixar escapar nenhuma de suas vítimas da forca.

Sinuosa é a conversa entre os dois caçadores de recompensa. Há um desconfortável clima de desconfiança, de homens habituados à deslealdade, à ganância e à morte. Gente acostumada a calcular o homem vivo ou morto por um preço. Entregue a justiça, Daisy Domergue vale 100 dólares para John. O major Marquis tem três homens mortos na estrada que valem de 30 a 40 dólares cada um. No cômputo, se juntar Daisy e os cadáveres são 200 dólares. Mas cada caçador já tem 100 se não quiser se arriscar.

O fato de os dois já se conhecerem (jantaram e encheram a cara juntos uma vez) ajuda a relaxar o dedo no gatilho por um tempo.

Esse clima de vigilância e tensão, contudo, se prolonga e aumenta conforme novos personagens entram em cena.

Primeiro um sulista chamado Chris Mannix (Walter Goggins) surge do nada atrasando a diligência outra vez. Depois eles são obrigados a parar numa estalagem e aí a galeria dos oito mal encarados está formada. Entre eles, há um inglês chamado Oswaldo Mobray (Tim Roth) que se diz um juiz rumando para a cidade de Red Rock. John Gage (Michael Madsen) se define como um cowboy errante. O mexicano Bob (Demian Bichir) conta que a dona, Minnie Mink, precisou acudir um parente às pressas, e deixou o Armazém aos seus cuidados. E o veterano Sandor Smithers (Bruce Dern) é o ex-general confederado que todo fim de semana aparece ali para jogar xadrez.

Nada na conversa entre esses homens parece prosaico. Falam pelos dentes numa prosa tortuosa e com cada movimento estudado. 

Claro que a convivência com esses tipos será complicada. A nevasca castiga lá fora, e os oito desconhecidos terão que ficar juntos, esperando a natureza se acalmar.

Apenas Tarantino é capaz de escrever e dirigir uma história áspera e paranóica como a que se desenvolve aqui. Se existe algum obstáculo no caminho que pode tornar a jornada do protagonista pior, ele a dispõe com um sorriso sádico de satisfação.

Há um esforço bem-sucedido em tratar o Armazém da Minnie – onde a maior parte da ação transcorre – como um ninho de cobras. E um preciso cuidado em delinear cada personagem detalhadamente.

Basta olhar para o desenvolvimento da sequência da entrada de Kurt Russell e Jennifer Jason Leigh, naquele antro, e como os dois vão sendo levados de um lado para o outro. A direção joga muito bem com o espaço. Pouco importa que o Armazém por fora pareça menor que seu interior. A dimensão aqui é muito particular. Tem mais a ver com o psicológico do que propriamente com o mundo real. O scope em 70 mm reforça a amplidão. A proposta no western sempre foi de mostrar o homem seguindo em sua conquista além das pradarias. Em Os Oito Odiados, as planícies estão nos rostos dos personagens, e a aventura reside em percorrer as surpresas que se encontram por trás das máscaras.

Aliás, Tarantino nunca foi tão calculista. Aqui ele nunca suprime um plano para ir mais rápido ao ponto.

Essa paciência tem muito a ver com a atração que o diretor exerce sobre os atores. Claro que ele oferece a todo o elenco diálogos marcantes, mas muito mais importante é sua generosidade para abrir espaço aos intérpretes para alguma nuance de atuação.

Uma ironia do filme é o ambiente profundamente racista. O xerife Mannix, o velho general Smithers e Daisy Domergue são caipiras sulistas, do tipo bem reacionário, e eles acabam de ser derrotados (a ação se passa quatro anos depois da Guerra da Secessão). Assim, quando o personagem de Jackson, negro e fardado impecavelmente, adentra o Armazém, querendo falar com eles de igual para igual, é óbvio que não haverá tom de cordialidade para sua figura. Detalhe muito significativo: cada um que entra no local precisa chutar a porta que está quebrada, e depois pregá-la no lugar para a nevasca não entrar.

E as marteladas para o Major negro soam como se estivessem lacrando a saída de um vulcão do qual ele terá dificuldades para abrir se a conversa ali esquentar.

O movimento de câmera e dos atores aqui são muito bem trabalhados, principalmente ao criar essa sensação de tensão de estar sempre com o inimigo em suas costas. Existe uma carta que o major guarda no bolso. Marquis usa o papel como salvaguarda nos momentos mais complicados. A carta, carregada de emoção, teria sido escrita pelo presidente Lincoln e deixa as pessoas desconcertadas quando a lêem, porque ela foi endereçada a uma pessoa comum e faz com que muitos sintam a humildade e proximidade que o estadista tinha com todos. O caçador John Ruth é um dos que passa a respeitar o Major depois de lê-la. Mas a vida de Marquis corre perigo a partir do momento que alguém do grupo enumera motivos para provar que a carta é falsa.

Outro aspecto notável: todo mundo quer se mostrar perspicaz e esperto ali, mas o único que realmente revela inteligência é o major de Jackson. Seu senso de dedução e análise o coloca sempre em vantagem. Nada escapa a sua observação. Desde um doce caído atrás do balcão até o chão inesperadamente limpo, o levam a intuir que o Armazém talvez tenha sido arrumado às pressas antes da chegada da diligência.

Tarantino, que ultimamente vinha trabalhando com narrativas mais convencionais, volta a embaralhar o tempo, como fazia nos tempos de Pulp Fiction e Kill Bill. A linha temporal do filme é “quebrada” duas vezes, cruzando uma cena entre o passado e o presente, para apresentar novas revelações. Serão, é claro, duas cenas que reconfiguram toda a ação, por isso Tarantino habilmente oculta essa surpresa por mais de duas horas.

Daisy Domergue é outro enigma que o diretor guarda até o fim. A prisioneira quase não tem chance de se expressar. E cada vez que tenta, o algoz John Ruth a anula. O filme, a todo momento, se interrompe para mostrar Daisy sorrateiramente procurando alternativas. Tentativas, que, aliás, sempre fracassam, porque John sabe que a distinta é um perigo e mal a deixa andar.

Nunca uma mulher apanhou tanto num filme. Daisy começa com um olho roxo, depois são os dois. É derrubada, pisoteada, tem os dentes quebrados e continua sendo espancada. Em vão. Daisy tem a força da natureza. Sempre se levanta e, neste jogo cuidadoso onde ninguém sabe muito das reais intenções dos outros, ela encontrará no Major Marquis, seu pior oponente. O contexto que os dois se movimentam no final de Os Oito Odiados é darwiniano até a medula. A relação predatória lembra o modo cruel como um gato encara um rato e lhe diz: você já está morto, só que ainda não sabe.


[1]José Geraldo Couto em “Os Oito Odiados: réquiem por uma nação”. Blog do IMS, 8 de janeiro de 2016.

[2]A origem do termo “grang guignol” vem do Théâtre du Grand-Guignol, localizado em Paris, que a partir de 1897 se tornou infame por apresentar peças grotescas de horror com cenas de decapitação e desmembramento. André de Lorde foi o principal dramaturgo do Grand-Guignol, ao escrever pelo menos uma centena de peças curtas entre 1901 e 1926, tornou suas narrativas tétricas num novo subgênero.