Por Um Punhado de Dólares

Avaliação: 3.5 de 5.

Per un pugno di dollari, 1964

Em muitos aspectos este primeiro faroeste de Sergio Leone empalidece em comparação com os filmes posteriores que ele fez. Em parte, isso ocorre porque suas falhas parecem ser principalmente devido a restrições orçamentárias, e as habilidades de Leone, Morricone e outros, que ainda não tinham florescido completamente. Leone tinha trabalhado, e até dirigiu, alguns filmes antes, mas esta foi sua primeira incursão real em busca de uma direção bem pessoal.

Por Um Punhado de Dólares também foi um filme essencial para Clint Eastwood, que era mais conhecido do público americano por seu papel como Rowdy Yates na série Rawhide. A série tinha terminado e ele estava férias na Europa quando lhe foi oferecido o estranho convite para ser o protagonista de um faroeste italiano! Eastwood nem leu o roteiro, pediu para a então esposa dar uma olhada. Ela leu e disse que era realmente “maluco” porque fora escrito em “gíria” de faroeste por italianos que não entendiam nada de inglês. Eastwood fez o filme quase como uma brincadeira (disse que no set, tudo o que ele sabia em italiano era “arrevadershi” e tudo que Leone dizia em inglês era “goodbye”, mas os dois combinaram perfeitamente).

A surpresa  aconteceu quando o filme se tornou um dos maiores sucessos na Europa e, em seguida, superou até mesmo os filmes norte-americanos mais populares na América, a ponto da produtora japonesa Toho, que percebeu que o roteiro era uma cópia de Yojimbo, O Guarda-Costas, de Kurosawa, processar o italiano e exigir porcentagem do faturamento mundial (Leone perdeu a causa e fez um acordo, oferecendo a Toho 15% de toda a bilheteria que Por Um Punhado de Dólares fez no mercado oriental).

Contando assim, parece tudo acidental, só que Leone nunca planejou um filme ao acaso. Havia toda uma engenharia meticulosa por traz do que esse diretor concebia. E se ele fundou um novo subgênero, o western espaguete, foi porque criou toda uma nova gramática e um estilo que levaria mais de dez anos para ser esgotado (o último excelente filme do gênero foi Keoma, de 1976).

De fato, a trama é claramente inspirada em Yojimbo, de Kurosawa, contando a história de um forasteiro que chega em uma vila em pé de guerra. Duas famílias brigam pelo controle de San Miguel e, seu personagem, em princípio, pensa que pode ganhar um bom dinheiro com isso, já que ele é exímio com uma arma. Enfim, como um cínico, ele entra na briga por diversão, só que um dos maiores problemas humanos (como Leone não se cansará de nos mostrar em seus filmes posteriores) é que é impossível não se envolver com outros seres humanos. E o protagonista será pego de calça curtas quando perceber o drama da camponesa arrancada da família, para servir de prazer ao primogênito (Gian Maria Volonte) de um dos grupos poderosos da vila. Ele os ajuda a escapar da loucura, e sua generosidade quase lhe custará a vida. E então para esse herói, só lhe restará espalhar a morte e a destruição, para no final dizer com tranquila satisfação: “Agora haverá calma nesta vila”.

Este filme também marca a primeira brilhante partitura de Ennio Morricone.

Foi aqui que ele introduziu o assovio solitário, música de guitarra, refrão e combinações e estilos incomuns que se desenvolveram na música que se tornou sinônimo de westerns e duelos da mesma forma que os visuais e temas de Leone.

Apesar de suas pequenas falhas, continua um filme divertido e atemporal.