Portal do Paraíso

Avaliação: 5 de 5.

Heaven’s Gate, 1980

Poucas vezes vi o público tão assombrado com um filme, como aconteceu com esse “Portal do Paraíso”, numa sessão em 70 mm que vi no Cine Comodoro quando eu era moleque. Tratava-se de uma cena de baile monumental, com centenas de imigrantes rodopiando em cima de patins. E de repente começaram a aplaudir a cena. Sai do cinema achando que tinha visto uma obra-prima.

Acontece que os norte-americanos nunca viram valor nesse épico de Michael Cimino. É uma superprodução, que valeu aos cofres da United Artists US$ 40 milhões, uma quantia que convertida para os dias de hoje ultrapassaria os US$ 200 milhões. Mas o filme surgiu numa época que a nação já estava farta de se imolar pelas besteiras que cometeu no Vietnã, e o que se tornava “IN”, na ocasião, era se banhar nas asas da fantasia dos filmes de Steven Spielberg e George Lucas.

O engraçado é que o filme continua maldito por lá, mas você o encontra em duas versões: uma cortada pelos estúdios que tem aproximadamente 178 minutos e a versão UNCUT do diretor, com 220 minutos.

Antes de ser um filme, “Portal do Paraíso” (1980) abarca vários mitos. O mito de um projeto talhado para a grandiosidade que fracassou, o mito de um cineasta caído do pedestal por sua genialidade (ou da sua auto-indulgência, dependendo do ponto de vista), o mito, enfim, de um Ícaro que voou muito alto e despencou dos céus. Vinte e sete anos imaginei que o esplendor deste filme pudesse se dissolver num tubo de 30 polegadas, contra o telão CINERAMA do Comodoro, mas o fascínio não se desvanece.

Paguei U$ 9,99 por essa versão em DVD de “Portal”. Leio na contracapa que a edição foi levada a cabo, há sete anos, porque o distribuidor percebeu que havia uma nova geração de espectadores disposta a vê-lo com outros olhos – tão entusiasmados como os de Coppola e de Scorsese que consideram o filme uma obra-prima incompreendida.

Não foi assim quando o filme foi lançado em 1980. A revista Time saiu na frente publicando um artigo, intitulado “Apocalipse Next”, amparado pelas fofocas de bastidores que mostrava o diretor Cimino como um ditador que exigia a construção de uma cidade genuína no meio do nada só para rodar uma seqüência, que deixava toda a equipe plantada à espera da “hora mágica” para filmar, que multiplicava os “takes” de muitas  cenas até ultrapassar as 240 horas de material filmado. Dizia ainda que a lista de descontentes se estendia pelas costas do diretor, com gente fazendo chacota dele e maldosamente o chamando de “O Aiatolá”.

No início, Cimino esteve num programa de TV e tentou desfazer o mal entendido, mas foi arrasado por um descabelado jornalista que perguntou se ele não se achava um tanto hipócrita de fazer um filme em que se punha do lado dos imigrantes pobres, mas usava o dinheiro dos magnatas para defender essa visão. E se por acaso ele sabia o número de famílias americanas que daria para alimentar com o orçamento que tinha consumido. Cimino ficou pasmo. Percebeu que estava a sós com a sua visão. Ele se retirou em silêncio dali e, depois disso, fez “O Ano do Dragão”, “O Siciliano”, mas raramente concede entrevistas.

Cimino queria mexer nos alicerces do idealismo da conquista do Oeste americano quando decidiu filmar “Portal do Paraíso”. Resgatou uma nota de rodapé da História americana, as guerras de Johnson County, no Estado de Wyoming, em finais do século XIX, em que os barões dos ranchos formaram exércitos privados de mercenários para conter o avanço dos imigrantes que chegavam de toda parte. Sim, fora das mansões dos novos aristocratas, a região passava pelo descalabro. O governo era incapaz de reter no presente a influência que exerceu no passado, com a chegada dos pioneiros. Não conseguia conter a incessante marcha dos imigrantes, nem fornecer uma série de serviços essenciais a população, como saneamento e alimentação. Para não frustrar as necessidades vitais de estabilidade e segurança, a solução foi eliminar uma parcela dos cidadãos, fazer uma faxina demográfica em nome do bem estar e do progresso civilizatório.

Assim mataram meio mundo e acharam que a outra metade, intimidada, ia partir correndo, só que aconteceu ao contrário, eles se rebelaram, e não sobrou quase ninguém dos dois lados.

O foco de resistência no filme é armado por Averill (Kris Kristofferson), um xerife solitário que se volta contra o coronelismo local. A imagem do desbravador perplexo diante da podridão de sua classe encerra o extravagante épico de Michael Cimino. É o contraponto para a extraordinária seqüência de festa de formatura que abre o filme.

Cimino acompanha o ritual e se detém no juramento empreendedor dos formandos. Findo o ritual, os estudantes correm ao pátio da Universidade de Harvard e, como espíritos livres, fazem um círculo para valsar em volta de uma árvore secular. Quando, 20 anos mais tarde, o território do Wyoming é conquistado por essa mesma elite de juramentados, são seus servos que se apressam em fazer um círculo e não se trata mais dos movimentos de uma valsa coreografada, mas de um cerco de batalha, o tal episódio sangrento narrado acima. Testemunha da hipocrisia que corrompe seu paraíso, Kristofferson tem o rosto estampado pela perplexidade. O herói encontra uma saída para sair limpo da mal fadada obra de engenharia que ajudou a erigir, mas a paixão por uma prostituta faz ele se aliar aos oprimidos num confronto que de antemão sabe que está perdido.

O processo não oferece desprendimento. O profundo mal estar do herói é a metáfora do desencanto de uma nação que jurou resguardar a dignidade pelo direito e pela lei, mas só legitima esses ideais para uma minoria. Cimino não recua diante do fracasso. Ele utiliza o gênero que em essência melhor difundiu o sonho americano para questionar a mecânica do progresso. Para Cimino, a luta de classes é vã e nada se desenha no horizonte social. A aspiração dos novos colonos é continuar o trabalho dos primeiros desbravadores. Se eles são recebidos pelos antigos como adversários, é porque estes se sentem no direito de reivindicar a vantagem de ter chegado antes. Devorados pela cobiça, as duas classes se aniquilam com selvageria.

Cimino não calculou até que ponto os americanos estariam propensos a mergulhar numa nova crise moral depois do Escândalo de Watergate e do Vietnã. O massacre de Johnson County era duro demais para ser prestigiado numa época em que o escapismo dos primeiros filmes de George Lucas e Steven Spielberg se oferecia como alternativa. Cimino pagou o preço de suas transgressões. Foi condenado como megalômano pelos companheiros de trabalho, ridicularizado por sua visão démodé nos círculos críticos e desprezado pelo público. Por fim, “Portal do Paraíso” foi uns fracassos fenomenais, suficientes para riscar o nome do cineasta da indústria e condená-lo a buscar capital cada vez mais precário no mercado europeu.