Profissão: Ladrão

Avaliação: 4.5 de 5.

Thief, 1981

No meio de uma noite chuvosa, numa cidade iluminada por neons, um sujeito arromba um cofre. Maneja cada ferramenta com metalúrgica precisão. Não há aqui nenhuma palavra ou som humano, como se apenas o ruído da broca e o tique-taque de um relógio contassem. O ladrão cumpre a missão, sai de cena com um punhado de diamantes enrolados num lenço.

Sabemos só o primeiro nome deste homem, Frank. James Caan é Frank. E neste filme Caan tem os olhos caídos e anda numa tristeza imprecisa, parece que não pertence ao mundo dos homens. Se ele compreende a lógica e o funcionamento do roubo, como arte da precisão e velocidade, fora deste jogo há uma imensa dificuldade de se manter. Anda de lá para cá, por becos, sarjetas ou porões onde é preciso mais que a manha, para não ser devorado pelos outros ratos. A sobrevivência parece mais difícil quando descobrimos que Frank mal sabe ler.

O ladrão é apaixonado por Jessie (Tuesday Weld), uma notívaga, mulher insone como ele. Para ambos, a noite idealiza a vida, e o diretor Michael Mann, ao fundo, cuida para que esse casal de desgraçados se movimente pelo sortilégio de luzes de uma cidade que parece um parque de diversões. Essa seria a América verdadeira, ou uma América estética?  Uma nação criada por Michael Mann para reforçar o contraste entre o que Frank e Jessie são e o que gostariam de ser?

Jessie idealiza o namorado. Imagina que Frank é um vendedor de carros. Mas ele não alimenta falsas esperanças, na primeira oportunidade, enquanto aguardam a Coca-Cola e o hambúrguer, num restaurante de beira de estrada, Frank se abre. Descreve sua vida, fala de todos os seus tombos: como foi preso, como sobreviveu numa jaula onde todos eram tratados como animais, e como o cativeiro foi uma escola, local onde aprendeu um ofício e desenvolveu um forte código de ética. Tudo isso desenvolvido por Caan num tour de force de dez minutos, e que Michael Mann, filma num plano longo, sem pressa, ciente do calor e da emoção autênticos.

Consta que o projeto de vida de Frank, antes de conhecer Jessie, era tirar seu velho mestre (Willie Nelson), segundo ele o sujeito que lhe ensinou tudo, da cadeia. O velho, que ele carinhosamente trata como um pai, passou os últimos 22 anos trancafiado, sofre de angina e talvez sua vida não dure mais dez meses, o prazo que falta para cumprir sua pena. Frank move o mundo para libertar esse “pai” antes da morte. A outra meta desse miserável é participar de um último roubo, ganhar uma bolada, o suficiente para que possa fugir com Jessie para o México. Enfim, é mais um ladrão apaixonado pela ideia humana de família. Um sonho, por sinal, impraticável, porque Jessie logo o adverte. Ela é estéril, não pode ter filhos.

O filme foge ao esquema dramático habitual. Não porque as atitudes dos personagens  são muitas vezes inesperadas, mas principalmente porque sua encenação desvia-se da construção clássica que induz uma ideia de casualidade. Há uma sensação de que os próprios personagens não sabem o que vão fazer em seguida. Parecem descobrir o destino conosco.

Michael Mann rascunha em Profissão: Ladrão o mapa de suas obsessões. Já desvela neste primeiro filme sua paixão sociológica pelos guetos, pelas gírias, pelas bocas de fumo, pelos buracos de bala da Califórnia. E o alicerce ao qual o filme se constrói tem fundo verídico, o roteiro é baseado em The Home Invaders, livro de Frank Hohimer, pseudônimo de John Seybold, um ex-ladrão de joias que amargou décadas no reformatório e resolveu contar a experiência em primeira pessoa. Do ponto de vista de composição, o interessante é que Mann não desenvolve a narrativa como um diário. Constrói o filme como uma crônica. Sua câmera segue Frank a certa distância, a opção pelas teleobjetivas revela a tradição de Mann por estudar a natureza da espécie, com um entomologista vasculhando uma formiga sem interferir na realidade do formigueiro.

De certa forma, será sempre sobre um ser ínfimo como uma formiga, que a câmera de Mann colocará em primeiro plano.