Quarto do Pânico (2005)

Avaliação: 3.5 de 5.

Nenhum outro diretor, talvez com a exceção de Brian De Palma e John Woo, explora melhor as cenas de interiores do que David Fincher. Em Alien 3, o presídio onde se concentra a maior parte da ação é tão importante quanto qualquer personagem do filme. Em Seven vivemos o sufoco de acompanhar uma investigação por salas e quartos que vão ficando cada vez mais apertados, até o contraste da cena final, num campo imenso e ensolarado.

Em Quarto do Pânico, o trabalho de câmera também é essencial. A câmera não apenas percorre todos os cantos e frestas em busca do ângulo exato, mas passam do singelo ao terrível numa mesma tomada. Isso ocorre por exemplo no plano sequência em que a câmera faz uma panorâmica sobre duas mulheres, mãe e filha, aparentemente confortáveis em casa, depois entra num tubo mínimo que é a entrada de ar do quarto e chega a outro cômodo, onde vemos a chegada de três invasores. Ou ainda no movimento de tilt, saindo do fogão, passando por uma chaleira fervendo e terminando com plano detalhe no bico que solta o vapor, uma livre associação com o clima de tensão dos personagens.que estão chegando no limite.

O filme, no entanto, não é mais que um belo exercício de suspense.

Todo o carisma de Jodie Foster e o bom senso do diretor são usados para que nos esqueçamos de que não acontece muita coisa. A história se constrói em torno de Foster. Recém-divorciada do marido, ela e a filha (Kristen Stewart) vão morar num casarão na Upper West Side, em Nova York. São três andares, com elevador, muitos quartos, espaço demais para duas moradoras.

E é claro que mesmo em Manhattan, um casarão assim não estaria segura sem um engenhoso sistema de alarmes. Essa casa, entretanto, tem como acréscimo o tal quarto do pânico, uma divisão blindada impenetrável por estranhos, com provisões e monitores que vigiam todo o resto, e ao qual o morador se esconde em caso de ameaça.

Aqui, mãe e filha se trancam quando um bando liderado por Forest Whitaker invade o prédio. A questão é que os bandidos querem exatamente o tesouro que está escondido dentro do tal quarto, e aí começa o jogo de gato e rato  entre o trio de bandidos e as duas mulheres.

Fincher cuida para que penetremos nessa paisagem sem medida estável, pisando levemente para não despertar o inimigo na sala ao lado. Na primeira instância, torcemos para elas não serem pegas por eles, mas numa segunda, quando descobrimos os reais motivos do assalto de Whitaker, torcemos para ele não ser surpreendido por elas. Os outros dois membros da quadrilha (Jared Leto e Dwight Yoakam) gravitam envolta da consciência de Whitaker, ora instigando-o a matá-las, ora discutindo se não seria melhor dar o fora dali.

Armado o tabuleiro na mesa Fincher se diverte em mexer as peças. Brinca com as formas, os códigos, os ingredientes. Mais difícil é contornar os clichês que vai buscar para caracterizar as personagens principais: haveria algo mais conveniente do ponto de vista dramático do que uma mãe claustrofóbica e uma filha diabética presas num bunker de onde não podem sair?

Perdoemos Fincher por conta de sua elegância. De Quarto do Pânico, o que fica mesmo é o talento do diretor para, com sua câmera drone, dotar esses ambientes fechados de uma estranha e palpável presença. Os espaços ganham vida própria, são opressivos, sente-se quase seu cheiro.