Rápida e Mortal

Avaliação: 4 de 5.

The Quick and the Dead, 1995

Sam Raimi é um diretor que gosta de desmontar máquinas. Mesmo que sobrem peças na remontagem depois, pouco importa, o intuito está no prazer do compreender como funciona. Raimi desmonta o western neste Rápida e Mortal. O filme gira em torno de um torneio de tiros entre os gatilhos mais rápidos de uma cidadezinha poeirenta chamada Redemption. E a intriga engrena quando descobrimos que um desses homens armados na verdade é uma mulher que atende pelo nome de Lady. Ela se inscreve para o concurso, mas não revela a verdadeira natureza de seus planos: uma doce vingança contra o homem responsável pela morte de seu pai.

Acontece que o assassino  é o prefeito de Redemption; um político abusivo chamado Herodes que não admite ser contrariado. Lady chega desafiando a lógica das pradarias. “Mulheres ficam ridículas usando bota e cinturão”, protesta um infame cowboy, depois de uma cuspida no chão. Herodes,  diabolicamente interpretado por Gene Hackman, pede mais educação pro infame e se dirige a mocinha: “Não temos nada contra senhoras que entram em concursos, desde que esses concursos sejam os certos!”. Todo mundo cai na gargalhada, menos Lady, que saca as duas armas, furando chapéus. A personificação de Sharon Stone reverencia o Clint Eastwood  dos tempos da trilogia dos dólares de Sergio Leone. Se Clint era pejorativamente chamado de “Lourinho”, por Eli Wallach, aqui Sharon é “A Lourinha”. Masca fumo, traga um charuto fino, diz muito pouco e responde quase tudo em duas sílabas. É engraçado que seja Sharon Stone, a maior femme fatale dos anos 1990, bancando a durona.

O fato do filme ter sido um fracasso, e de até hoje ele não encontrado o seu público é um absurdo, pois, não só é um grande western, mas também um dos melhores trabalhos de Sam Raimi. Quando Sharon Stone (uma das produtoras do filme) assistiu A Morte do Demônio e, em seguida, Uma Noite Alucinante, ficou impressionada com a câmera inventiva captando cada gesto dos confrontos de Ash com o belzebu. E quando teve a oportunidade de escolher um diretor, o nome de Raimi imediatamente veio à mente, possivelmente pensando em como ele filmaria as cenas de duelo. O diretor não dá sinais de melancolia por ter chegado tarde demais ao gênero. São nove confrontos em Rápida e Mortal e nenhum deles é abordado cinematograficamente com o mesmo método. Raimi usa e abusa das lentes, do foco, da profundidade de campo, das distorções, carrega o filme de efeitos de velocidade e vertigem. O único ponto pacífico: faça chuva ou faça sol, para os duelistas a hora da verdade ocorre ao meio-dia. Curioso também é a deixa para os saques, rápidos e abruptos. Cada duelo ocorre exatamente na  primeira badalada da Torre da Igreja.

Raimi enche o ambiente de relógios, brinca com a noção dos minutos, dos segundos. Às vezes dilata, outras vezes comprime o tempo, trabalhando a expectativa, criando o suspense.

A maestria reside na orquestração do todo. No modo de utilizar o tique-taque na trilha como se fosse um metrônomo, para sua edição. Na forma como passa dos closes dos relógios para zoom ins da câmera chegando nos rostos dos pistoleiros, e corta para contraplanos dos cidadãos da cidade assistindo o torneio. Por vezes há tomadas com seis,  sete, pontos de vista. Em uma cena, um pistoleiro dispara a arma e a câmera se torna a bala!

Sergio Leone ficaria admirado com a proeza narrativa.

Além do jogo de sombras, temos heróis e vilões memoráveis, cada qual deles com um caráter único. Lance Henriksen se sobressai do grupo. Ele interpreta um pistoleiro chamado Ace, que gosta de fazer truques com o seu baralho de cartas, sua mão sempre fica cheia de ases, daí o apelido. Depois a câmera passa por outro pistoleiro que é um mercenário, um terceiro que é um implacável ex-presidiário, outro,  um jovem garoto, e também há um índio. Todos tem seu tempo em cena, mas quando Gene Hackman adentra o quadro, sua presença é tão forte que ele quase come a tela.

Outros dois personagens do filme são interpretados por atores reconhecidos antes de ficarem famosos. Russell Crowe vive aqui um padre errante à procura de redenção. Teve um passado feio como um pistoleiro e está orando para fazer as pazes com Deus, ainda que Herodes o force a participar do torneio.

Igualmente intrigante é o personagem que Leonardo DiCaprio interpreta, The Kid. O garoto é o filho que Herodes, o malvadão Hackman, renega. O ápice de sua luta pelo reconhecimento paterno cruelmente acontece num duelo com o velho. Filho e pai, frente a frente armados, Herodes pede para o garoto desistir, o filho teima. Precisa liquidar a imagem do pai, para firmar sua identidade. No desfecho, o Kid olha para o céu, e alucina. Diz a frase que sintetiza sua tragédia: “Eu ouvi!  Eu ouvi ele mover os dedos!”.

A frase também resume o cuidado, o preciosismo de Raimi para captar a menor nuance. “Eu ouvi ele mover os dedos!”. O ouvir exige uma grande sensibilidade, que o diretor propõe dividir com o espectador.

Enfim, antes de rever esse Rápida e Mortal, é bom fechar os olhos para limpá-los das imagens dos westerns pós-2000. Raros chegam aos pés do que Raimi emprende aqui.