Rio Vermelho

(Red River, 1948)

Avaliação: 5 de 5.

Em Howard Hawks, a matéria da vida física do homem é a aventura. E quando se pôe a vivê-la, de nada valem os escrúpulos. Hawks é tomado do entusiasmo próprio de um espírito livre, disposto a testar todos os limites da representação. Cary Grant passa os dois minutos da abertura de “O Inventor da Mocidade” tentando encontrar a melhor forma de abrir uma porta, enquanto a voz de Hawks ao fundo diz que o tom da cena está errado. O ator repete sucessivamente sua entrada em cena. Quem mais em Hollywood poderia começar um filme assim?

A oportunidade de enfatizar essas pequenas reações são requisitos básicos no set do diretor. Num dos maiores filmes do diretor, “Rio Vermelho”, Matthew Garth (Montgomery Clift) e Cherry Valance (John Ireland) se estudam minuciosamente antes de firmarem uma grande amizade. Os dois são excelentes pistoleiros e apresentam suas armas antes de seus nomes. A conotação do diálogo é audaciosa. Valance pede licença para pegar o revólver de Garth e retribui a gentileza oferecendo a sua ao recém-conhecido. “A arma é bonita, mas será que atira tão bem”. Ambos alvejam uma caneca até as balas destroçarem a lata. Então se cumprimentam.  

A tensão deste encontro se entrelaça no desconforto de outras relações. Na exaustiva análise sobre “Rio Vermelho”, o aplicado Gerald Mast demonstra que a relação mal resolvida entre Tom Dunson (John Wayne) e o filho adotivo, Matthew Garth (Clift), é motivada pela falência dos sonhos do cowboy. Dunson adota Matt um dia após testemunhar a morte de sua noiva (Coleen Gary)  numa emboscada apache. O garoto sobreviveu ao massacre. Logo, torna-se o único ponto de contato com o que Dunson planejava construir. O desejo de obter um canto para criar os filhos e prosperar com o gado será reinterado mais tarde. Mas trata-se de um lar sem mulher e como já foi visto, onde a fidelidade de uma amizade é estabelecida a tiros. A dedicação ao trabalho será medida pelo número de covas na fazenda. Ao fim de vinte anos, o coração deste criador de gado endurece, enquanto do outro lado da balança, a vivacidade cresce junto ao jovem Matt.

A visão deste mausoléu organizado, erigido em memória de uma mulher só reforça a bestialidade do homem. Mas Dunson não compreende  que para viver é preciso parar de venerar os mortos. Ele transfere o afeto e a devoção que lhe prometia sua noiva à criação do gado e ao filho postiço. Mas quando estes dois elementos saem do seu controle, algo de destrutivo se anuncia. A presença da bela Tess (Joanne Dru) aumenta a eletricidade no ar. Quando Matt salva Tess de uma emboscada sioux, um raio parece partir a alma do velho escudeiro, afinal, ele não conseguiu salvar a garota que amou 20 anos antes.

Dunson é arremessado à banalidade do mundo real e tenta manter o equilíbrio. Primeiro passa por cima de Matt e pede Tess em casamento. Ela lhe pergunta se afinal ele está procurando um novo brinquedo para manipular. Dunson passou tanto tempo conduzindo rebanhos para dentro de seu curral que naturalmente pensa que pode recolher mais algumas réses. Ele fracassa com a garota e vai perder novamente o controle, desta vez com Matt.

No curso natural dos eventos, os filhos servem à continuidade da família, mas a leitura desta história nos fala do desejo de um filho fazer isso e da tentativa do pai coibi-lo. O impositor Dunson não tolera ver seu gado pulando a cerca. Mas quando finalmente o aprendiz desarma o mestre alegando que ele não tem condições psicológicas para liderar a travessia da manada pela trilha Chelson, Dunson brunde o punho e promete matar o garoto. Avança como um mastodonte sobre uma barreira de homens e sua fúria deixa muitos feridos. Ele segue em frente e o choque com Matt encaminha o filme para um embate trágico.

Há, entretanto, uma abrupta mudança de tom na hora em que os brutos se atracam. Tess interrompe a briga com um tiro e uma dúzia de queixas. Ela aparta as feras, como uma mãe separa duas crianças. Talvez esse tenha sido um dos motivos de o filme não ter gerado grande entusiasmo no princípio nem mesmo junto ao público. A guerra de nervos precisamente calibrada por Hawks conduz o filme a possibilidade de grande drama, e subitamente ele rompe o registro em troca de uma abordagem cômica. Como Hitchcock, Hawks era um hábil manipulador da expectativa, mas ao negar as velhas convenções, ele não destrói o princípio narrativo que lhe é tão caro. Ele põe em cheque as “leis” internas da narrativa e trata de burlar os mecanismos de uma expressão já estabelecida para obter uma fórmula inédita.

Em “Rio Vermelho”, sequer há o happy end tradicional. Forças naturais pavimentaram o caminho de Dunson para o fracasso durante toda a extensão do filme. E ele não obterá nenhuma recompensa por suas escolhas. Um aperto de mão, no final, desata um nó na garganta do durão. A reconciliação do triângulo Wayne-Clift-Dru é momentânea. A reconciliação total só é possível pela exclusão do velho.

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