S. Bernardo (1972)

Avaliação: 5 de 5.

Leon Hirszman foi um dos maiores cineastas políticos do cinema brasileiro. Seu embasamento intelectual, seu entendimento da natureza política do homem e do contexto sócio-econômico do país puderam ser sentidas em filmes como “Eles Não Usam Black-Tie”, “Maioria Absoluta” e “ABC da Greve”. Mas em nenhum deles, Hirszman atingiu a plenitude como em “S. Bernardo”.

A versão restaurada desta obra-prima saiu numa edição em DVD da Videofilmes que é uma mosca branca. E com o fim do DVD o que se perde. Um estojo com dois discos, com um documentário dos bastidores do filme e mais um libreto de 66 páginas contextualizando a época, e a história, como se preparasse o espectador para assistir uma suntuosa ópera.

De fato, “S. Bernardo” é quase uma ópera.

Está preparado para vestir a casaca e se acomodar no camarote?

“S. Bernardo” é baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos, o mesmo Graciliano que inspirou Nelson Pereira dos Santos a realizar o que para muitos é um dos dois ou três maiores momentos do cinema nacional, “Vidas Secas”. Mas Leon Hirszman não se intimida em trabalhar sob a sombra do êxito artístico do outro.

O próprio esquema de pré-produção do filme foi folclórico.

Até mesmo o amigo Caetano Velloso torceu o nariz para Hirszman quando este o convidou para fazer a trilha de “S. Bernardo”. Discutiram o conceito. Segundo o compositor o universo de Graciliano não pedia música. “Veja o “Vidas Secas”, a única trilha que ouvimos vem do ruídos daquele carro de boi” conta Caetano em depoimento que pode ser encontrado nos extras do disco. O diretor, contudo, refutou: “Mas foi por isso mesmo que chamei você. Você canta como um carro de boi!”.

Caetano então produziu um trabalho experimental, cheio de sussurros, murmúrios que vez por outro se integram tanto à cena, que não sabemos mais se é trilha ou um personagem perturbando a consciência do protagonista, Paulo Honório.

Vivido por Othon Bastos, Honório, é um fazendeiro que não entendemos bem se está conversando com os camponeses dos arredores ou proseando com fantasmas. Ele gastou muita enxada para transformar S. Bernardo no latifúndio mais rentável de Viçosa (Alagoas) e estudou aritmética para não ser roubado além da conveniência. O trabalho duro o embruteceu, o tornou sujeito de uma rudeza e de uma ganância que se transforma em nóia. “Uma desconfiança terrível me aponta inimigos por toda parte!” grita o homem, enquanto ouve ruídos pela casa e vozes que parecem rir de si.

Honório pega uma folha de papel em branco. O pobre miserável acredita que pode exorcizar seus temores escrevendo. E é por meio desta escrita que vamos tomando contato com a sua tragédia. De retrato em auto-retrato, de maquiagem em camuflagem, Honório não pára de se confundir por meio de desdobramentos, de perdas de identidade e de mascaradas. E não tem nada por trás disso? Ora, tem sim: o homem por inteiro, sua consciência. E seu purgatório.

No libreto que acompanha o disco, descobrimos que Leon Hirszman enxergava mais que o drama íntimo do latifundiário. Hirszman queria tratar de suas angústias com o país em pleno processo de ditadura militar, e percebeu que o livro de Graciliano permitia falar das perversões do regime que vendia o capitalismo como a única possível forma de fazer o Brasil prosperar.

O milagre econômico era uma balela, e a natureza das relações adquiriam preço, desprezando afetos e solidariedades. Enfim, Honório é a marionete perfeita dentro deste jogo.

Claro que a um comunista na história (vivido por Mario Lago) que Paulo Honório observa como se fosse um bicho papão. E a professora Madalena (Isabel Ribeiro) que demonstra idéias “avançadas”, mas que o fazendeiro acha que pode domar.

Hirszman lidou com tanta habilidade com esses subtemas, que a Censura da época não percebeu seu caráter incendiário.

O diretor também não tinha muito dinheiro para rodar uma produção que, em livro, tinha o caráter de uma epopéia. Sequer tinha película suficiente para contracampos e planos de cobertura. Optou por encenar exaustivamente com os atores e depurar as cenas em grandes planos seqüências.

O filme flui maravilhosamente assim. Como quadros pintados com imenso rigor. Mas o que talvez dê a “S. Bernardo” grande parte de sua personalidade e encanto são os desempenhos de Othon Bastos e Isabel Ribeiro.

A Madalena de Isabel é a otária que Honório atrai para ter o seu herdeiro. É mulher de imenso respeito pela condição dos desfavoráveis e que acredita que naquele latifúndio pode educar os camponeses e modificar a cabeça do seu rude proprietário. O que Honório faz com essa mulher é monstruoso. Ele simplesmente a despe de seus sonhos, de sua vitalidade.

O impressionante é que Isabel Ribeiro defende a personagem de forma quase monossilábica. Cria uma tensão num processo de interiorização incrível. E basta um simples olhar, para comunicar o que pensa. Mais que isso, com um olhar ela conta toda sua história.

Já Othon Bastos desce a alma bêbada e retorcida de Paulo Honório sem medo das possíveis conseqüências. Raspa a testa sobre as paredes rústicas da casa e deixa o pobre fazendeiro se  consumir na cena mais maravilhosa do filme. Um momento em que Honório faz sua mea culpa e medita. Medita enquanto uma vela vai se consumindo até finalmente se apagar no exato momento em que ele esboça sua última palavra.

Onde ver esse filme?

Pra quem se interessar por comprar o pack do S. Bernardo, achei esse  link que vale a pena.

Já quem prefere apenas ver o filme, o caminho mais fácil é clicando aqui.

Agora se você quiser uma cópia em HD, só baixando pelo torrent. Não é tão complicado encontrar, mas aí deixo para o fã garimpar, e procurar os caminhos.