Três Homens em Conflito

Avaliação: 5 de 5.

The Good The Bad and The Ugly (1966)

Quentin Tarantino diz que Sergio Leone calçou a sensibilidade européia em um gênero para o qual tinha enorme apreciação e um entendimento peculiar. Não sei bem se calçar é a palavra mais adequada, porque Leone adorava brincar com os espaços e exagerar nas proporções entre o que estava dentro e o que estava fora. Sim, por fora víamos um Oeste de casebres de madeira, por dentro as casas pequeninas ficavam do tamanho de um opulento teatro de ópera. Isso, é claro, gerava zombaria, dos que não entendiam o que o diretor estava propondo, com a crítica Pauline Kael, malhadora oficial do italiano nos anos 70 e 80.

Mas o faroeste era a saída perfeita para a fascinação do diretor italiano pela alienação que os filmes americanos traziam a Europa no pós-guerra – uma fascinação, aliás, que ressoa tão profundamente em seus filmes quanto faz naqueles de outros mestres italianos da época, como Bernardo Bertolucci e Michelangelo Antonioni.

Não se tratava, portanto, de um cineasta menor, como se pode comprovar sobretudo em “Três Homens em Conflito” (The Good, The Bad, The Ugly, 1966). Os três personagens principais de Três Homens em Conflito – Blondie (Clint Eastwood), Tuco (Eli Wallach) e Sentenza (Lee Van Cleef) – avançam por um Oeste imaginário onde as variáveis de espaço lhes pregam peças e quase sempre com muito senso de humor. Estamos na Guerra Civil, soldados da União e os Confederados se digladiam o filme todo por causa de uma ponte, e as convenções não permitem que eles saiam daquele lugar. Mobilidade mesmo só obtém quem é renegado. E o nosso trio de protagonistas mandam tudo às favas. Cavalgam pelos perigos como se estivessem participando de uma gincana juvenil, cujo grande prêmio era um tesouro enterrado sabe-se lá aonde.

Para quem não se lembra, eles estão procurando um carregamento de ouro, que foi escondido numa lápide num cemitério indeterminado. O problema: um deles sabe o nome do cemitério, o outro guarda apenas o nome do túmulo onde as moedas de ouro estão escondidas e o terceiro não quer ter trabalho, se contenta apenas em segui-los, pensando apenas no esforço de ter que liquidar os outros dois.

Inúmeras vezes voltei ao filme para tentar entender como Leone conseguia extrair um sentido operístico para um material tão cômico. O diretor constrói suspense fixando nos segundos e nos incidentes aleatórios que pontuam os intervalos antes das erupções de violência; é o dom de um cineasta intuitivo. Uma única cena de “Três Homens em Conflito”, na qual Blondie e Tuco vão para a batalha sujos com restos dos cadáveres desmembrados dos soldados da União, são mais eficientes que os vinte minutos que Spielberg gastou em “O Resgate do Soldado Ryan” para mostrar o horror da Guerra no desembarque na Normandia. É narrativa intensa reduzida ao menor número possível de cortes.

Falei da forma como Leone usa os interiores acima, mas ele é magistral no modo como trabalha as paisagens externas também. Cenários a céu-aberto freqüentemente derrotam as tentativas de um diretor de transmitir o suspense; a luz do sol espalha as sombras da ansiedade. Mas Leone cria um tremendo impacto nas externas. Na verdade, cada vista, interior ou exterior, é uma terra estrangeira a ser cruzada, com passagem segura longe de estar garantida.
Entre as muitas cenas de suspense que o filme conserva, vale a pena se ater naquela  onde Sentenza aparece para cobrar uma dívida na desorganizada casa de um colono (a casa é do tamanho de uma província espanhola – as salas nos filmes de Leone são absurdamente grandes). Sentenza senta, deliberadamente terminando uma tigela de sopa graciosamente oferecida por seu anfitrião, enquanto decide o que fazer depois do prato. A recusa de Van Cleef em se apressar é como o aquecimento de um tenor antes de um solo (no documentário O Homem Que Perdeu a Guerra Civil, no segundo disco, há uma parte mostrando exatamente como Leone resgatou o ator Lee Van Cleef, que estava no esquecimento, explicando que o movimento lento do americano era devido à artrite, uma falta de habilidade que o diretor usou a seu favor).

Os pistoleiros de Três Homens em Conflito tem uma perversa necessidade de fazer pirraça com qualquer noção de honra. O exemplo cabe inclusive no mexicano fora-da-lei, Tuco. O personagem é um estrategista e um trapaceiro que, embora um pouco sentimentalizado pela atuação de Wallach, ainda é um malicioso sobrevivente, cuja ambição é roubar e depois vangloriar-se disso.
Sobre essa questão moral podemos examiná-la a luz de sua maior influência: “Yojimbo – O Guarda-Costas”. O anti-herói do clássico de Akira Kurosawa era cruel com os dois grupos políticos que tentavam dominar a cidade, mas no tocante a sua obrigação com o código samurai, ele a preservava com honra. A diferença entre o pistoleiro de Leone e o samurai de Kurosawa é mínima, mas faz toda a diferença. Não existe honra para os pistoleiros de Leone. A ironia e a violência dos protagonistas mantém-se intactas. Acontece em todos os faroestes de Leone, seja em “Por Um Punhado de Dólares”, como em “Por Uns Dólares a Mais” ou em “Três Homens em Conflito”, o cinismo e a brutalidade são as respostas do senso comum para o irracional oeste.

Eastwood notou que era a falta de honra de seu personagem que cativava os espectadores: O Homem sem Nome foi o primeiro protagonista a atirar primeiro, em violação ao código de ética que governava os faroestes antigos. E foi idéia de Eastwood jogar contra sua exagerada presença em “Três Homens em Conflito”, dando a Blondie (que não era loiro) um ofuscante e prolongado narcisismo. Lembro de uma entrevista que vi, num extra de um DVD velho, onde Clint explica que criou aquelas famosas pausas de seu personagem, inspirado em Thelonious Monk. O jeito quieto, taciturno e anti-social do grande pianista de jazz estava sempre na mente de Eastwood quando ele encarnava Blondie. Sua música também. Eastwood cantarolava baixinha “Body and Soul”, conforme andava pelas pradarias. Era com a expansão hipnótica do que Monk fazia com seu piano. Naquela altura, o ator mal imaginava que estava estabelecendo o ritmo do que se tornaria Dirty Harry e outros personagens que interpretaria posteriormente. 
Leone fez o mesmo com “Três Homens em Conflito”. Pegou algo familiar e fez disso sua propriedade. Depois o diretor italiano virou vítima da indústria cultural. Até hoje não faltam cineastas dispostos a imitá-lo. Felizmente ninguém consegue diluir o trabalho deste grande artista.