Sangue de Heróis

Avaliação: 5 de 5.

Fort Apache. 1948

Primeiro filme da Trilogia da Cavalaria de John Ford e, sem dúvida, o melhor. Mais do que abordar o confronto dos colonos com os índios na fronteira, o filme lança um olhar curioso e crítico sobre as regras e tradições do exército. Ford adorava as Forças Armadas, foi oficial no Departamento de Propaganda na Segunda Guerra, e saiu do front condecorado. Mas isso nunca o impediu de duvidar do que quer que fosse. Sobretudo da forma como a individualidade dos soldados é ameaçada por um regime rígido, que proibi o livre arbítrio logo na primeira página da sua cartilha acadêmica, e por fim legitima a violência e a opressão em campo aberto. Seus oficiais são péssimos estrategistas, porque são movidos pela ansiedade de vencer. O comandante confederado de “Marcha de Heróis” (Horse Soldiers, 1959) quase leva seus homens ao combate com crianças de uma escola militar sulista. Por sorte percebe a estupidez a tempo e bate em retirada. O mesmo não se aplica ao coronel carreirista de “Sangue de Heróis” (Fort Apache, 1948) que sacrifica todo seu regimento num embate suicida com os siouxs.

Desde que o oficial Owen Thrusday (Henry Fonda) é transferido das obrigações diplomáticas na Europa para a guarnição de Forte Apache nos confins do Oeste, o despeito é patente. Na rotina do posto, qualquer decisão administrativa de Thrusday assume ares de determinação pessoal. Passando por cima da diplomacia do capitão Kirby York (John Wayne) que não só conhece a topografia da região como mantém uma relação cordial com os índios, o vaidoso Thrusday desembainha a espada de conquistador e parte para o massacre.

Em qualquer western da época, os índios não passavam de selvagens que precisavam ser combatidos ou domesticados, mas em “Sangue de Heróis” pela primeira vez eles levam ligeira vantagem sobre o homem branco, principalmente quando se trata de estrutura e organização. Num encontro com Thrusday, o cacique Cochise expõe o desrespeito dos brancos aos tratados, as falsas promessas, a discriminação. O militar compreende os motivos daquele povo, mas está mais preocupado em impressionar os altos escalões do exército. Thrusday avança com a tropa por um desfiladeiro imaginando dar um cheque mate nos siouxs. Não calcula o revide. Milhares de índios esperam o sinal do cacique para jogar seus cavalos contra os soldados. Sobra pouco tempo para o tiroteio, o regimento inteiro morre pisoteado. De volta ao Forte, a única testemunha, o capitão Kirby/ Wayne relata a jornalistas uma resistência que nunca ocorreu.

Os dados humanos e táticos de “Sangue de Heróis” fazem alusão a um capítulo traumático na história da cavalaria americana: a derrocada de Custer na batalha de Little Big Horn. Na manhã ensolarada de junho de 1876, o general empurrou um batalhão de 700 soldados contra mais de 2 mil siouxs comandados por Touro Sentado. Os selvagens isolaram a companhia em pequenas colunas e fuzilaram homens e cavalos. Não se sabe de se por questão de honra ou perplexidade diante do fracasso, Custer podia fugir, mas avançou como um Don Quixote sobre os índios até cair crivado de balas.

A versão oficial do exército transformou Custer num mito. Os jornais mais patrióticos da época exaltaram o sacrifício de um general atrevido, perspicaz, progressista que não fosse o trágico incidente, lançaria sua candidatura à presidência e teria grandes chances de tornar-se um brilhante estadista.

John Ford troca apenas o nome e o posto do oficial. Relata escrupulosamente a verdade, mas não tanto as atitudes e o propósito, uma conclusão pessoal que encerraria 14 anos mais tarde com “O Homem Que Matou o Facínora”: “Quando a lenda é mais forte que a verdade, imprima-se a lenda”.

Se a frase sintetiza a concepção do cinema ao longo de uma carreira, ela será pronunciada com diferentes inflexões. O capitão Kirby York (Wayne) mascara a irresponsabilidade de Thrusday em “Sangue de Heróis” e o efeito desta mentira serve a indignação. Já em “Facínora” a mesma idéia adquire um sentido melancólico.