Sem Lei e Sem Alma

Avaliação: 3.5 de 5.

Gunfight at the O.K. Corral, 1957

Esse clássico faroeste é admirado por muita gente ainda hoje. O filme contém todos os ingredientes que se esperaria de um blockbuster de 1957 – grandes estrelas, grande orçamento e um enredo calculado para capturar a imaginação do público. Para mim, no entanto, o filme não funciona muito bem. A narrativa toda é um pouco lenta demais, formulada e exageradamente mítica. Vale mesmo é pela eletrizante sequência do duelo no curral com os Clanton, orquestrada por uma direção apertada de Sturges e pontuada pela trilha magnífica de Dimitri Tiomikin.

Burt Lancaster é impassível e inflexível como o duro homem da lei Wyatt Earp. E o diretor John Sturges filma-o com a câmera no nível do solo enquanto ele avança para a tela, como um herói sobre-humano em sua certeza moral maior do que a vida. É a personificação de um forte e justo executor da lei, que enfrenta os desafetos sem o menor contratempo. E a crescente amizade que se constrói entre ele e Doc Holliday (Kirk Douglas), com cada um vendo algo para admirar no outro, é cativante até demais. O esquisito é como os protagonistas fazem pouco caso de suas respectivas parceiras, Rhonda Fleming e Jo Van Fleet. A primeira é tratada como um adereço de cena, e o xerife não vacila em mandá-la para a cadeia quando descobre que ela é uma exímia jogadora de pôquer. “Se permitir que uma mulher bonita como você jogue, amanhã a cidade estará cheia de vadias”, fulmina. Já a segunda passa o filme todo aguentando as grosserias de Hollyday. O roteiro insiste em telegrafar que mulher só atrapalha a vida dos heróis.

Essa misoginia talvez tenha sido calculada pelo roteirista Leon Uris, por que a trama sugere que o desequilíbrio de Doc com a bebida e com sua própria vida, talvez se devesse a algo que ele está tentando refrear. Somado, aos olhares amorosos que ele lança para Wyatt, e a equação fica bem entendida.

Claro, isso nos anos 50, não poderia ficar muito evidente, mas em sua autobiografia, O Filho do Trapeiro, Kirk Douglas conta que ele, Lancaster e Sturges conversaram bastante a respeito sobre como mexer com emoções que outros tentavam evitar.

Apesar do sucesso de bilheteria (Sem Lei e Sem Alma ficou em terceiro lugar no top 10 de 1957), Sturges declarou mais tarde que procurou fazer o melhor que podia para um projeto de encomenda, mas que o que ele pessoalmente tinha dizer a respeito de Wyatt Earp e Doc Holliday, ele o fez dez anos depois, através de sua própria produtora, em A Hora da Pistola.