Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995)

Avaliação: 4.5 de 5.

Todos sabemos que um serial killer é demente obcecado. Mata por algum tipo estranho de prazer ou compulsão e, reza a lenda, só pode ser preso depois que se descobre a regra geral que ordena os seus crimes. O irônico é:  se o serial é um obsessivo; aqueles que o perseguem também costumam ser. Seven é a história dessas obsessões cruzadas.

O roteiro é intrincado. O assassino exibe uma particularidade. Trata-se de um artista frustrado. Monta cada crime como se fosse um quadro, no caso cada um deles é uma reprodução meticulosa de um dos sete pecados capitais. A descoberta dessa lógica subjacente aos crimes acaba por funcionar como elemento decisivo da investigação conduzida pelos dois polícias, Somerset (Morgan Freeman) e Mills (Brad Pitt). Somerset é um investigador ponderado, sabe que experiência e ideal não bastam para capturar o maníaco que escolhe suas vítimas a partir de pessoas que ele julga exemplares vivos de cada um dos sete pecados. Mills é um jovem temperamental, um tanto ansioso para resolver um caso que envolve a experiência e a racionalidade.
O assassino leva vantagem o tempo todo. Começa pelo pecado da gula, escolhe um homem de mais de 100 quilos, domina-o e obriga-o a comer até morrer.
Para o pecado da preguiça, ataca um vagabundo, amarra-o numa cama e deixa-o ir aos poucos morrendo à míngua.
As cenas em que a polícia encontra as vítimas são escatológicas. A ideia é de que o maníaco está pregando seu próprio sermão na sociedade pecadora e corrupta e aplicando-lhe um castigo. E de fato, o mundo envolta parece cheio de pontos escuros, úmidos e fétidos. Mal vemos o céu e, quando ele aparece, é roxo. Além de chover muito.
A evocação de O Silêncio dos Inocentes é incontornável. Estamos perante dois filmes regidos pela mesma ideia de contaminação do mundo pelo labor do mal. Do negrume dos ambientes ao crescente envolvimento emocional dos protagonistas, tudo acontece aqui numa espécie de terra de ninguém, abandonada por todas as divindades, alheia a qualquer hipótese de redenção. Mas há uma ligação mais funda, entre o filme de Jonathan Demme e este de David Fincher: ambos filmam o mal não como algo exterior que é preciso ser estirpado, mas como um interior com o qual é inevitável dialogar (a sequência do longo, longuíssimo diálogo dos dois policiais com o criminoso é o exemplo mais literal de tal dispositivo).

O que significa esse diálogo? O que está em jogo nele?

A própria noção de esterilidade, de esvaziamento – John Doe, o assassino (vivido por Kevin Spacey) sabe que Somerset, como ele, leu as histórias do The Canterbury Tales, de Chaucer, a Divina Comédia, de Dante, e a poesia do Paraíso Perdido, de Milton. E o provoca. Pergunta porque a lógica da América corporativa é a única detentora de um discurso coerente, porque as corporações são as proprietárias da única “grande narrativa” ainda permitida. Se não dá para reformar por bem, John Doe produziu uma “obra” (os sete assassinatos) que mostra um caminho criativo para a humanidade.

O horror, o horror. É visível na própria textura do filme a aversão de Fincher a esse estado de coisas em que a maldade vence o homem pelo próprio embotamento de seus ideais. Repare, a esse propósito, na cenografia de Seven, nessa acumulação de cores escuras e lugares em acelerada degradação física. Tudo acontece numa cidade que parece  diluir-se na chuva.

E porque isso mete medo? Porque este é um mundo tendencialmente alheio a qualquer conforto. Alheio inclusive a dimensão mais acolhedora, isto é, à sua dimensão feminina. Neste sentido.  Seven aproxima-se mais uma vez da lógica subterrânea de O Silêncio dos Inocentes: estamos perante histórias da possibilidade de exclusão das mulheres (e todos nós recordamos do modo como Demme fazia esse princípio dramático funcionar a partir da confrontação de Jodie Foster com Anthony Hopkins). Repare na presença discreta, mas essencial, de Tracy (Gwyneth Paltrow), mulher de Mills: símbolo de maternidade e de renovação da vida (observe a breve e delicada cena em que fala da sua gravidez a Somerset).

Tracy representa a exceção mítica de um universo assombrado pela sua própria destruição interior.

No seu limite mais fascinante, Seven é, por isso, um filme sobre a decomposição das relações e oposições mais tradicionais: casa/ cidade, palavra/ silêncio, homem/ mulher. E não há nada de acidental no fato de se tratar de uma realização de um cineasta cujo trajeto parece sistematicamente marcado por essas mesmas obsessões temáticas e formais. Bastaria lembrar que o primeiro filme de Fincher (Alien 3) era uma viagem dantesca à mitologia da maternidade (com Sigourney Weaver face a um monstro que, literal e metaforicamente, a possuía).

Seven dá continuidade a expedição ao inferno. Mas, se no filme anterior Fincher ficou só no esboço, nesse ele tem pleno controle da sua arte.