Sua Única Saída

Pursued, 1947

Avaliação: 5 de 5.

Quando se pensa no cinema de Raoul Walsh, os primeiros filmes que vem a cabeça são os policias “Fúria Sanguinária” (1949), “Heróis Esquecidos” (1939), e o filme de guerra “Um Punhado de Bravos” (1945), mas Walsh foi um gigante nos westerns também. Rodou uma dúzia deles ao longo de sua carreira, e pelo menos meia dúzia, são ótimos e tem um, “Sua Única Saída” (1947), que é uma obra-prima, e outro, “Golpe de Misericórdia” (1949), que chega bem perto. Você vê um filme de Walsh e sente que ele faz as coisas acontecerem. É como um regente, comandando uma orquestra e injetando uma euforia épica em todos os músicos.

Viver é uma aventura em Walsh, e geralmente começa como fuga – da vergonha, do crime ou da vida. Walsh saiu de casa aos 15 anos quando sua mãe morreu, incapaz de sustentar a casa sem ela, e durante anos impulsionou-se em uma odisseia para lugar nenhum – Cuba, Texas, México, Montana, tocando gado, endurecendo-se, tomando golpes, formando calos tão grossos que ele sentia vergonha de apertar as mãos. Por acidente, ele desembarcou no show business, porque sabia montar um cavalo. Então D.W. Griffith decidiu transformá-lo em um cineasta. E assim por 50 anos Walsh fez filmes de suas fantasias irlandesas.

Como ele, seus heróis e mulheres também não têm aprendizado de livro nem ancestralidade, são apenas eles mesmos, contando bravatas, se divertindo e saltando pelos obstáculos que aparecem na frente. E o entusiasmo sempre os contagiam, mesmo que estejam frente a nada, seja num beco ou num corredor. A grande aventura vivenciada por Jeb Rans (Robert Mitchum) em “Sua Única Saída” acontece dentro de sua cabeça. Acuado num desfiladeiro, ele recorre a memória para buscar a solução para um crime que não cometeu. Enquanto uma dezena de cowboys tentam capturá-lo, ele se depara com flashs desconexos. Num deles, a madrasta Judith Anderson é engolida pela sombra de dois homens. Estamos diante de uma representação sombria da maternidade, que pode levar o herói ao seu limite. O autor do roteiro é o mesmo Niven Busch do perverso “Duelo ao Sol”. Mas aqui sua perversidade é injetar a psicanálise num gênero de cinema que àquela altura parecia uma combinação esdrúxula. Pois foi por pouco tempo, por que a década de 50 foi tomada por westerns psicológicos do qual “Sua Única Saída” foi o precursor.

Mas voltando a madrasta, a escolha de Judith para o papel é extraordinária. Quem melhor poderia encarnar uma mulher surpreendentemente maternal e misteriosa senão a atriz consagrada como a sinistra governanta de “Rebecca, A Mulher Inesquecível”?.

Em “Sua Única Saída”, Busch coloca sombras para dialogar com Jeb Rans (Mitchum). Ele repassa várias etapas da vida, e as situações adquirem contornos tal qual uma lanterna mágica. O reflexo das esporas de um bando de mal-encarados, num primeiro instante, ofusca a busca de Jeb. Mas os pequenos fragmentos vão despertar a consciência do fugitivo para o rosto do assassino de seu pai.

Sim, a chave talvez esteja num rosto, ou melhor nos closes. Walsh é famoso pela ação. E é difícil pensar em vistas mais vastas em todo o cinema do que algumas das de “A Grande Jornada” e “Nas Garras da Ambição” (1955). Mas quase tudo em seus filmes acontece em rostos. Como em Griffith. Griffith inventou o close no cinema, na medida em que fez uma arte dele, como fez com a montagem paralela. Mas talvez não seja Griffith, mas o pupilo de Griffith que colocou o ator olhando para a lente, o tiro de ponto de vista e a geometria da edição de Hollywood, e o cinema em primeira pessoa.

O cinema de Walsh não é expositivo como o de Griffith. É interativo. Em meia dúzia de filmes, os personagens realmente se voltam e falam conosco, o público. Longe de nos libertar da fé ingênua no realismo dos livros de histórias, Walsh nos torna cúmplices. Essas aventuras se tornam quase vicariamente nossas. Para os heróis e heroínas de Walsh, enquanto procuram os quatro cantos do mundo, por não se sabe bem o que, afinal eles são sempre inquietos, mas insistem em procurar pelos cantos da lente também, olhando não apenas para o além, mas como que flertando com o olhar do espectador por suas bordas. E de repente, os olhos do personagem perfuram o centro da lente, desnudando sua alma, quebrando a distância segura que nos mantém da ficção na tela.

“Sua Única Saída” traz quatro ou cinco momentos de closes assim. É um dos filmes mais elegantes de Walsh, com ingredientes e porte de uma intriga palaciana. Ciúmes, traição e corrupção desencadeiam micro implosões na célula familiar. O padrasto (Dean Jagger) implica com o rapaz na mesma razão que a esposa o acolhe com um toque maternal. A filha (Teresa Wright) se apaixona pelo meio-irmão, mas sofre pelo ranço incestuoso no qual se configura este amor. O outro irmão quer expulsá-lo, porque acredita que Jeb é a ameaça a um patrimônio que ele deve herdar como primogênito absoluto. A partir daí uma terrível suspeita se delineia: o assassino pode ser o padrasto ou o irmão.

Por fim, Walsh dispõe o marido traído, a mulher adúltera, o filho ilegítimo, membros de uma casta desorientada, em volta de uma forca e faz com que purguem suas faltas.

Quem disse que do seio do cinema de entretenimento não podemos vislumbrar uma arte maiúscula como a que esse despretensioso diretor de filmes de ação nos oferece?